





Os Cinco Suspeitos
Agatha Christie

Traduo Isabel Alves






NDICE

Introduo

Carla Lemarchant 7

Livro I

I O advogado de defesa 17 II O advogado de acusao 25

III O jovem jurisconsulto 31

IV O velho jurisconsulto 35

V O inspector-chefe da polcia 41

VI Este porquinho foi ao mercado 57

VII Este porquinho ficou em casa 69

VIII Este porquinho comeu rosbife 95

IX Este porquinho no comeu nenhum 107

X Este porquinho guinchou Hi Hi Hi 121

Livro II

Relato de Philip Blake 135

Relato de Meredith Blake 151

Relato de Lady Dittisham 161

Relato de Cecilia Williams 171

Relato de Angela Warren 179

Livro III

I Concluses 185

II Poirot faz cinco perguntas 189

III A reconstituio 197

IV A verdade 21

V As repercusses 215

Five Little Pigs (Os Cinco Porquinhos) ttulo original da obra  uma lengalenga infantil, cujos versos so os 
seguintes: This little piggy went to market, this little piggy stayed at home, this little piggy had roast beef, 
this little piggy had none and this little piggy cried wee wee wee all the way home. No contexto da obra, 
seria impossvel encontrar um equivalente na lngua portuguesa. (N. da T.)

INTRODUO

CARLA LEMARCHANT

Hercule Poirot examinou com interesse a mulher jovem que era introduzida na sala.

A carta que esta havia escrito no continha nada de particularmente notvel. Era um simples pedido de 
entrevista, sem qualquer sugesto da razo de tal pedido. Era curta e precisa. Apenas a firmeza da 
caligrafia indicava que Carla Lemarchant era uma mulher jovem. E agora aqui estava ela em pessoa, uma 
jovem senhora alta e esbelta de vinte e poucos anos. O gnero de jovem para quem se olha definitivamente 
duas vezes. Trajava roupa de qualidade, um casaco caro, de corte impecvel, uma saia e peles luxuosas. A 
sua cabea assentava nos ombros com elegncia, possua uma testa quadrada, o desenho do nariz 
sugeria sensibilidade e o queixo determinao. Exibia uma aparncia muito viva. Era esta vivacidade, mais 
do que a sua beleza, que lhe conferia a nota predominante.

Antes da sua entrada, Hercule Poirot sentira-se tomado de uma sensao de velhice, agora sentia-se 
rejuvenescido, vivo, alerta.

Avanando para cumpriment-la, apercebeu-se dos seus olhos cinzentos escuros que o estudavam 
atentamente. Era um escrutnio diligente.

Ela sentou-se e aceitou o cigarro que ele lhe ofereceu. Depois de aceso, deixou-se estar sentada a fumar, 
durante um ou dois minutos, continuando a mir-lo com aquele olhar reflexivo e diligente.

Poirot disse suavemente:

Sim,  uma deciso que deve ser tomada, no  verdade? Ela sobressaltou-se: Como disse?

A sua voz era cativante, com uma leve e agradvel aspereza.

Est a decidir, no  verdade, se eu sou um simples vendedor de banha da cobra ou o homem de que 
precisa?

Ela sorriu e disse:

Bem, efectivamente... no est longe da verdade.  que o senhor no... no tem exactamente o aspecto 
que eu imaginei, M. Poirot.

E sou velho, no sou? Mais velho do que imaginou.

Sim, isso tambm. Hesitou. Estou a ser franca, compreende. Quero... tenho de ter... o melhor.

Fique descansada disse Hercule Poirot. Eu sou o melhor!

Modesto no ... disse Carla. De qualquer forma, sinto-me inclinada a acreditar em si.

Poirot disse, placidamente:

Sabe, uma pessoa no se serve unicamente dos msculos. Eu no preciso de me baixar e medir as 
pegadas e pegar nas pontas de cigarro e examinar a relva calcada. Basta-me reclinar-me na minha poltrona 
e pensar  isto deu uma palmada na cabea oval, isto que funciona!

Eu sei disse Carla Lemarchant. Foi por isso que me dirigi ao senhor  que, compreende, quero que o 
senhor faa uma coisa extraordinria!

Isso cria-me expectativas agradveis! comentou Hercule Poirot. Olhou-a, tentando encoraj-la.

Carla Lemarchant respirou fundo.

No me chamo Carla disse. Chamo-me Caroline. O mesmo nome da minha me. Puseram-me o nome 
dela. Fez uma pausa. E apesar de ter sempre usado o apelido de Lemarchant, o meu verdadeiro apelido  
Crale.

Hercule Poirot franziu momentaneamente o sobrolho, perplexo. Murmurou: Crale... julgo lembrar-me...

O meu pai era pintor continuou ela, um pintor muito conhecido. H quem diga que era um excelente pintor. 
Eu sou de opinio que sim.

Hercule Poirot disse: Amyas Crale?

Sim. Fez uma pausa e prosseguiu: E a minha me, Caroline Crale, foi julgada pelo seu assassnio!

Ah! disse Hercule Poirot. Estou a lembrar-me... embora vagamente. Estava no estrangeiro na poca. Foi h 
muito tempo.

Dezasseis anos.

O seu rosto estava agora muito plido e os olhos eram dois archotes acesos.

Compreende? perguntou. Ela foi julgada e condenada... No a enforcaram, porque consideraram que havia 
circunstncias atenuantes... e assim a sua pena foi comutada para priso perptua com trabalhos 
forados. Mas ela faleceu decorrido apenas um ano do julgamento. Compreende? Chegou ao fim... est 
tudo acabado... terminado...

Poirot disse calmamente: E ento?

A rapariga chamada Carla Lemarchant apertou as mos uma na outra. Falou pausada e hesitantemente, 
mas com uma nfase estranha e acutilante:

O senhor tem de compreender... exactamente... o meu papel. Eu tinha cinco anos de idade na altura em 
que... aconteceu. Demasiado nova para saber o que se passava. Recordo a minha me e o meu pai, 
naturalmente, e recordo que sa de casa abruptamente... que fui levada para o campo. Recordo os porcos e 
a mulher simptica de um lavrador gordo... e que todos eram muito amveis... e recordo, muito claramente, 
a forma esquisita como me olhavam... toda a gente... uma espcie de olhar furtivo. Claro que sabia, as 
crianas sabem, que havia qualquer coisa que no estava bem... mas no sabia o qu.

E, em seguida, fui levada para um barco... foi uma aventura... que durou dias, e cheguei ao Canad, onde 
o meu tio Simon estava  minha espera, e fui viver com ele e com a tia Louise em Montreal, e, quando 
perguntava pela minha me e pelo meu pai, diziam-me que eles estavam a chegar. Depois... depois acho 
que esqueci... s que tinha uma espcie de pressentimento de que estavam mortos, embora no me 
lembrasse de ningum mo ter realmente dito. Porque, por essa altura, no sei se est a ver, eu j no 
pensava neles. Sentia-me muito feliz, compreende. O tio Simon e a tia Louise tinham muitos amigos e eu 
j me tinha esquecido de que tinha tido outro nome, de que no me chamava Lemarchant. A tia Louise 
disse-me que era o meu nome no Canad, compreende, o que na altura me pareceu fazer todo o sentido... 
era simplesmente o meu nome canadiano... mas, como disse, acabei por esquecer que tinha tido outro no 
passado.

Ela levantou o queixo provocadoramente e disse:

Olhe para mim. Diria, no diria, se me conhecesse: Ali vai uma rapariga que no tem preocupaes!. 
Vivo folgadamente, a minha sade 

esplndida, sou suficientemente agradvel  vista, posso desfrutar dos prazeres da vida. Aos vinte anos, 
no havia rapariga nenhuma no mundo com quem quisesse trocar de pele.

Mas, sabe, j tinha comeado a fazer perguntas. Sobre a minha me e o meu pai. Quem eram e o que 
tinham feito. Quis o destino que, no fim, viesse a saber...

Com efeito, contaram-me a verdade. Quando eu tinha vinte e um anos. Tiveram de contar, porque, quanto 
mais no fosse, tomei posse do dinheiro que me pertencia. E depois, compreende, havia uma carta. A 
carta que a minha me me escreveu antes de morrer.

A sua expresso alterou-se, ensombrando-se. Os seus olhos no eram mais dois pontos ardentes, mas 
poos escuros e sombrios.

Foi a que eu soube a verdade disse. Que a minha me tinha sido condenada por homicdio. Foi... 
absolutamente tremendo.

Fez uma pausa.

H outra coisa que tenho de lhe dizer. Eu estava noiva e ia casar. Disseram que eu devia esperar... que no 
podia casar-me at fazer vinte e um anos. Quando soube, compreendi porqu.

Poirot agitou-se e falou pela primeira vez:

E qual foi a reaco do seu noivo?

O John? O John no se importou. Disse que no fazia qualquer diferena... a ele no fazia. Eu e ele ramos 
a Carla e o John... e o passado no tinha importncia.

Ela inclinou-se para a frente.

Continuamos noivos. Mas sabe, apesar de tudo, tem realmente importncia. Para mim, tem. E tambm 
tem para o John... No  o passado que nos preocupa...  o futuro. Apertou as mos.  que queremos ter 
filhos. Queremos os dois ter filhos. E no queremos ver os nossos filhos crescer com medo.

No compreende que existem, entre os antepassados de toda a gente, histrias de violncia e maldade? 
perguntou Poirot.

O senhor no est a entender. Isso  verdade, claro. Mas, por outro lado, as pessoas normalmente no 
conhecem essas histrias. Ns conhecemos. So demasiado recentes. E por vezes... apanho o John a 
olhar para mim.

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Um olhar breve, de relance... um lampejo apenas. Se nos casarmos e tivermos uma discusso... e eu o vir 
olhar para mim e... e duvidar?

Hercule Poirot disse: Como foi assassinado o seu pai?

A voz de Carla surgiu clara e firme.

Foi envenenado.

Compreendo disse Hercule Poirot.

Instalou-se um silncio. Em seguida, a rapariga disse, num tom de voz calmo e directo:

Graas a Deus que o senhor  sensvel. Compreende que tem importncia... e quais as implicaes. No 
procura pr gua na fervura e balbuciar meia dzia de palavras de consolo.

Compreendo perfeitamente disse Poirot. O que no compreendo  o que pretende de mim.

Carla Lemarchant respondeu simplesmente:

Quero casar-me com o John! E tenciono casar-me com o John! E quero ter, pelo menos, duas raparigas e 
dois rapazes. E o senhor vai tornar isso possvel!

Quer dizer... que quer que eu fale com o seu noivo? Claro que no, que idiotice que eu estou para aqui a 
dizer! O que est a sugerir  uma coisa muito diferente. Diga-me qual  a sua ideia.

Oua, M. Poirot. Veja se entende... com toda a clareza. Estou a contrat-lo para investigar um caso de 
homicdio.

Quer dizer...?

Sim,  isso mesmo que quero dizer. Um caso de homicdio, quer tenha ocorrido ontem ou h dezasseis 
anos.

Mas, minha cara senhora...

Espere, M. Poirot. Ainda no entendeu tudo. H um ponto muito importante.

-Sim?

A minha me estava inocente disse Carla Lemarchant. Hercule Poirot esfregou o nariz e murmurou: Bem, 
naturalmente... eu

compreendo que...

No se trata de sentimentalismo. Existe a carta que ela escreveu. Deixou-ma, antes de morrer. Devia ser-
me entregue quando eu fizesse vinte e um anos. Deixou-a por uma nica razo... para que eu no tivesse 
dvidas.

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A carta no continha mais nada. Ela dizia apenas que no tinha cometido o crime... que estava inocente... 
que eu podia estar sempre certa da sua inocncia.

Hercule Poirot olhou pensativamente para o rosto jovem e cheio de vida que o fitava com tanta sinceridade. 
Disse, pausadamente:

Tout de mme... Carla sorriu.

No, a minha me no era assim! Est a pensar que pode ter sido mentira... uma mentira sentimental? 
Inclinou-se para a frente, ansiosa. Oua, M. Poirot, h coisas que as crianas sabem perfeitamente. Eu 
recordo a minha me...  uma recordao indistinta, naturalmente, mas recordo muito bem o gnero de 
pessoa que ela era. Ela no dizia mentiras... mentiras piedosas. Se uma coisa ia causar dor, ela nunca 
escondia esse facto. Dentistas ou espinhos cravados no dedo... esse gnero de coisa. A verdade era para 
ela... um impulso natural. Eu no lhe tinha, creio, uma afeio particular... mas confiava nela. Ainda hoje 
confio nela! Se ela diz que no matou o meu pai,  porque no matou o meu pai! No era pessoa para 
escrever solenemente uma mentira, sabendo que estava a morrer.

Lentamente e quase com relutncia, Hercule Poirot inclinou a cabea. Carla continuou.  por isso que 
posso casar-me com o John. Eu sei que posso. Mas ele no sabe. Acha que  perfeitamente natural que 
eu considere a minha me inocente. A questo tem de ser deslindada, M. Poirot. E o senhor vai faz-lo!

Hercule Poirot disse pausadamente:

Assumindo que aquilo que est a dizer  verdade, mademoiselle, a verdade  que j passaram dezasseis 
anos!

Sim, vai ser difcil, naturalmente! disse Carla Lemarchant. S o senhor  capaz de esclarecer este caso!

Os olhos de Hercule Poirot cintilaram levemente.

Est a lisonjear-me, hein? disse ele. Carla disse:

Ouvi falar em si. Nas coisas que fez. Na forma como as fez.  a psicologia que o fascina, no  assim? 
Pois essa no muda com o tempo. As coisas palpveis desapareceram... a ponta de cigarro e as pegadas 
e a relva calcada. Essas j no pode procurar. Mas pode analisar todos os factos do processo e

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talvez falar com as pessoas que estiveram presentes na altura... encontram-se todas vivas ainda... e 
ento... e ento, como acabou de dizer, pode reclinar-se na sua poltrona e pensar. E saber o que 
realmente aconteceu... Hercule Poirot ps-se de p. Cofiou o bigode.

Mademoiselle, sinto-me muito honrado! disse. Ver que a sua f em mim ser justificada. Vou investigar o 
seu caso de homicdio. Examinarei as ocorrncias que tiveram lugar h dezasseis anos e descobrirei a 
verdade.

Carla levantou-se. Havia um brilho nos seus olhos, mas limitou-se a dizer:

ptimo.

Hercule Poirot agitou um dedo indicador eloquente.

Um momentinho. Eu disse que descobriria a verdade. No tenho, compreenda, a ideia preconcebida. No 
aceito a sua garantia de que a sua me est inocente. Se ela for culpada... eh bien, em que p ficamos?

Carla atirou para trs a sua altiva cabea, dizendo:

Sou filha dela. Quero a verdade. Hercule Poirot disse:

Ento, en avant. Embora no seja o que eu devia dizer Pelo contrrio. En arrire...

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CAPTULO I

O ADVOGADO DE DEFESA

Se me lembro do processo Crale? perguntou Sir Montague Depleach. Com certeza que lembro. Lembro-me 
muito bem. Uma mulher extraordinariamente atraente. Mas desequilibrada, claro. Sem autocontrole.

Olhou de soslaio para Poirot.

Que o leva a fazer-me essa pergunta?

Estou interessado.

No  muito diplomtico da sua parte, meu caro disse Depleach, exibindo os dentes no seu abrupto e 
famoso sorriso de lobo, que tinha a reputao de exercer um efeito aterrador sobre as testemunhas. No 
figura no rol dos meus xitos, sabe. No a ilibei.

Eu sei.

Sir Montague encolheu os ombros e disse:

 claro que na poca no tinha a experincia que tenho hoje. Mesmo assim, penso que fiz tudo quanto era 
humanamente possvel. Sem cooperao, no se pode ir muito longe. Mas a verdade  que conseguimos 
comutar a pena para priso perptua com trabalhos forados. Na base de que foi provocada, compreende. 
Muitas esposas e mes respeitveis assinaram uma petio. Havia uma simpatia generalizada por ela.

Reclinou-se, esticando as suas longas pernas. O seu rosto assumiu uma expresso judicial e apreciativa.

Sabe, se ela o tivesse morto a tiro ou mesmo esfaqueado... eu teria tentado tudo por tudo para conseguir 
uma acusao de homicdio involuntrio. Mas veneno... no, com veneno no se brinca.  complicado... 
muito complicado.

Qual foi a defesa? perguntou Hercule Poirot.

Ele sabia, porque j tinha lido os arquivos de jornal, mas no viu qualquer inconveniente em fingir-se 
completamente ignorante com Sir Montague.

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Oh, suicdio. Era a nica coisa possvel. Mas no convenceu. O Crale, pura e simplesmente, no era esse 
gnero de homem! Suponho que nunca o conheceu? No? Bom, era um sujeito fanfarro e vivo. Um grande 
mulherengo, amigo da cerveja... e por a fora. Era partidrio dos prazeres da carne e gozava-os.  
impossvel persuadir os jurados de que um homem assim se vai sentar calmamente e pr termo  vida. No 
faz sentido. No, infelizmente tive em mos, desde o incio, um caso perdido. E ela no alinhava! Percebi 
que amos perder, mal ela subiu ao banco. Completamente desprovida de qualquer esprito combativo. Mas 
l est... se no pomos o nosso cliente no banco, os jurados tiram as suas prprias concluses.

Era a isso que se referia quando ainda h pouco disse que no se pode ir muito longe sem cooperao? 
perguntou Poirot.

Absolutamente, meu caro. O senhor sabe que no somos mgicos. Metade da batalha  a impresso que 
o ru causa nos jurados. J vi jris, vezes sem conta, proferir veredictos que vo completamente contra a 
sntese do juiz. Ele  culpado,  sim senhor...  o ponto de vista. Ou Ele nunca fez uma coisa 
daquelas... no acredito!. A Caroline Crale nem sequer tentou dar luta.

E porque no?

Sir Montague encolheu os ombros.

No me pergunte.  claro que ela tinha afeio pelo sujeito. Ficou destroada quando caiu em si e 
compreendeu o que tinha feito. Acho que nunca recuperou do choque.

Ento na sua opinio ela era culpada? Depleach pareceu bastante surpreendido.

Hum... bem disse, pensei que tnhamos isso como assente.

Alguma vez ela admitiu ao senhor que era culpada? Depleach mostrou-se chocado.

Com certeza que no... com certeza que no. Ns temos a nossa deontologia, sabe. Partimos sempre de 
um princpio de... hum... inocncia. Se est assim to interessado,  uma pena no poder falar com o velho 
Mayhew. Os Mayhews foram os jurisconsultos que contrataram os meus servios. O velho Mayhew podia 
dizer-lhe muito mais do que eu. Mas enfim... juntou-se  grande maioria. H o jovem George Mayhew, 
claro, mas na altura no passava de um rapaz. J l vai muito tempo, sabe.

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Sim, eu sei.  uma grande sorte para mim que o senhor recorde tanta coisa. A sua memria  notvel.

Depleach pareceu satisfeito e murmurou:

Bem, sabe, uma pessoa lembra-se dos pontos principais. Especialmente quando se trata de um crime 
capital. E,  claro, o processo Crale foi muito badalado pela imprensa. Muito sexo envolvido e tudo isso. A 
rapariga era muitssimo atraente. Mas casmurra como tudo, na minha opinio.

Desculpar-me- se pareo demasiado insistente disse Poirot, mas volto a perguntar: no tinha qualquer 
dvida da culpa de Caroline Crale?

Depleach encolheu os ombros e disse:

Francamente, de homem para homem, no me parece que haja grande dvida nesse ponto. Acredite, ela 
matou-o, sim senhor.

Quais eram as provas contra ela?

Terrivelmente incriminatrias, na verdade. Em primeiro lugar, havia o motivo. Ela e o Crale viviam h anos 
uma vida de co e de gato... quezlias constantes. Ele andava sempre metido com outras mulheres. Era 
superior s suas foras. Era o gnero de homem que ele era. De uma maneira geral, ela aguentava bem a 
situao. Dava-lhe os devidos descontos por causa do seu temperamento... e o homem era realmente um 
pintor de primeira gua, sabe. Os seus quadros subiram imenso no mercado... imenso.  um tipo de 
pintura que, a mim pessoalmente, no me diz nada... os temas so repulsivos e vigorosos, mas tem 
qualidade... disso no restam dvidas.

Bem, como digo, de vez em quando, havia discusses por causa de mulheres. Mrs. Crale no era do tipo 
dcil que sofre em silncio. Havia brigas, sim senhor. Mas no fim ele voltava sempre para ela. Eram 
aventuras passageiras. Mas o ltimo caso foi muito diferente. Tratou-se de uma rapariga, est a ver... uma 
rapariga muito nova. Tinha apenas vinte anos.

Elsa Greer, era como se chamava. Era filha nica de um industrial qualquer do Yorkshire. Tinha dinheiro e 
determinao e sabia o que queria. E o que queria era o Amyas Crale. Conseguiu que ele a pintasse... 
habitualmente, ele no pintava retratos da sociedade, Sra. Fulana de Tal em cetim e prolas, mas pintava 
figuras. Duvido que, na maioria dos casos, as mulheres tivessem querido que ele as pintasse... o homem 
no as poupava! Mas pintou Elsa Greer e acabou completamente embeiado por ela. Ele ia a caminho dos

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quarenta, sabe, e estava casado h muitos anos. Estava em ponto de rebuado para fazer figura de parvo 
com uma rapariguinha nova. Elsa Greer foi a rapariga. Estava doido por ela e fazia tenes de se divorciar 
da mulher e casar com a Elsa.

A Caroline Crale no estava pelos ajustes. Ameaou-o. Houve duas pessoas que a ouviram dizer que, se 
no deixasse a rapariga, o matava. E falava a srio, pode crer! No dia anterior ao assassnio, tinham 
tomado ch com um vizinho. Este interessava-se por ervas e remdios caseiros. Entre as infuses de que 
era autor, contava-se a conina... ansarina malhada. Conversaram sobre ela e sobre as suas propriedades 
mortferas.

No dia seguinte, ele reparou que metade do contedo do frasco tinha desaparecido. Ficou nervosssimo 
com a situao. Encontraram um frasco quase vazio de conina no quarto de Mrs. Crale, escondido no fundo 
de uma gaveta.

Hercule Poirot mexeu-se desconfortavelmente na cadeira e disse:

Pode ter sido l posto por outra pessoa.

No, no! Ela admitiu  polcia que foi ela que o levou. Muito irreflectido, naturalmente, mas nessa fase 
ainda no tinha um advogado que a aconselhasse. Quando a interrogaram sobre o assunto, admitiu 
abertamente t-lo levado.

Por que razo?

Afirmou t-lo levado com a ideia de se suicidar. No foi capaz de explicar como o frasco ficou vazio... nem 
como s tinha as suas impresses digitais. Este aspecto foi altamente prejudicial. Ela argumentava, 
compreende, que o Amyas Crale se tinha suicidado. Mas, se ele tivesse tomado a conina do frasco que ela 
tinha escondido no quarto, este teria as impresses digitais dele juntamente com as dela.

Foi-lhe administrada na cerveja, no  verdade?

Sim. Ela tirou a garrafa do frigorfico e levou-lha pessoalmente ao jardim onde ele estava a pintar. Serviu-lha 
e passou-lhe o copo, ficando a v-lo beber. Toda a gente subiu para almoar e deixaram-no... era frequente 
ele no comparecer s refeies. Mais tarde, ela e a preceptora encontraram-no morto. A sua histria foi 
que a cerveja que ela lhe deu estava boa. Ns defendemos a teoria que ele se sentiu subitamente to 
preocupado e arrependido que ingeriu ele prprio o veneno. Tudo balelas... ele no era esse gnero de

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homem! E a evidncia das impresses digitais foi a mais incriminatria de todas.

Encontraram as impresses digitais dela na garrafa?

No, no encontraram... s as dele... e eram forjadas. Ela ficou sozinha com o corpo, compreende, 
enquanto a preceptora foi chamar o mdico. E o que deve ter feito foi limpar a garrafa e o copo e apertar os 
dedos dele em volta de ambos. Est a ver, ela queria dar a entender que nunca tinha manuseado os 
objectos. Bem, no resultou. O velho Rudolph, o advogado de acusao, divertiu-se  brava com aquilo... 
provou sem sombra de dvida, por demonstrao no tribunal, que um homem no podia segurar numa 
garrafa com os dedos naquela posio! Claro que ns fizemos o possvel por provar que podia,... que as 
suas mos teriam assumido uma posio contorcida no momento da morte... mas francamente a nossa 
defesa no foi muito convincente.

Hercule Poirot disse:

A conina na garrafa deve ter sido l posta antes de ela a levar para o jardim.

Na garrafa no havia conina nenhuma. S no copo.

Fez uma pausa o seu rosto largo e bem-parecido subitamente alterado

e virou bruscamente a cabea. Que vem a ser isso, Poirot? perguntou

Onde  que quer chegar?

Se Caroline Crale estava inocente disse Poirot, como  que a conina foi parar  cerveja? A defesa disse na 
altura que o prprio Amyas Crale a ps l. Mas o senhor est a dizer-me que isso era altamente improvvel 
e eu, pelo meu lado, concordo consigo. Ele no era esse gnero de homem. Nesse caso, se Caroline Crale 
no o fez, foi outra pessoa.

Depleach disse, quase numa exploso atabalhoada:

Ora, com mil diabos, homem, no se pode carregar gua em peneira. O caso foi encerrado h muitos anos. 
Claro que foi ela. O senhor no teria dvidas, se a tivesse conhecido na poca. Estava-lhe estampado na 
cara! At acho que sentiu alvio com o veredicto. No estava assustada. No estava minimamente nervosa. 
S queria que o julgamento terminasse depressa. Uma mulher muito corajosa, realmente...

E, no entanto disse Hercule Poirot, quando morreu, deixou uma carta para ser entregue  filha, em que jura 
solenemente estar inocente.

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No me admira nada comentou Sir Montague Depleach. Qualquer um de ns teria feito o mesmo no lugar 
dela.

A filha afirma que ela no era esse gnero de mulher.

A filha afirma... ora! Que sabe ela sobre o assunto? Meu caro Poirot, a filha no passava de uma criana 
quando a me foi julgada. Quantos anos tinha... quatro... cinco? Mudaram-lhe o nome e mandaram-na para 
o estrangeiro, para casa de uns parentes. Que pode ela saber ou recordar?

Por vezes as crianas conhecem muito bem as pessoas.

Talvez sim. Mas neste caso isso no se aplica. Naturalmente que a rapariga quer acreditar que a me no 
cometeu o crime. Deix-la. No faz mal nenhum.

S que infelizmente ela pretende a prova.

A prova de que a Caroline Crale no matou o marido?

Sim.

Pois disse Depleach, mas no vai consegui-la.

Acha que no?

O famoso advogado da coroa olhou pensativamente para o seu companheiro.

Sempre o tive na conta de um homem srio, Poirot. Que est a fazer? A tentar ganhar dinheiro  custa dos 
afectos naturais de uma rapariga?

O senhor no conhece a rapariga.  uma rapariga invulgar. Uma rapariga com grande fora de carcter.

Sim, imagino facilmente que a filha do Amyas e da Caroline Crale o seja. Que  que ela pretende?

A verdade.

Hum... receio que venha a achar a verdade amarga. Sinceramente, Poirot, no me parece que haja qualquer 
dvida sobre o assunto. Ela matou-o.

Vai-me perdoar, meu amigo, mas quanto a esse ponto tenho de ser eu prprio a tirar as minhas 
concluses.

Bem, no sei que mais pode fazer. Pode ler as notcias sobre o julgamento sadas nos jornais. Humphrey 
Rudolph foi o representante da coroa. J faleceu... ora deixe ver, quem era o seu assistente? O jovem Fogg, 
creio. Sim, Fogg. Pode falar com ele. E depois h as pessoas que estavam presentes ao tempo. No me 
parece que vo gostar de v-lo intrometer-se e desenterrar a

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histria, mas atrevo-me a dizer que h-de conseguir delas o que quer. Capaz de convencer  o senhor.

Ah, pois, as pessoas envolvidas.  um aspecto muito importante. Lembra-se com certeza delas?

Depleach considerou.

Deixe ver... j l vai muito tempo. Eram s cinco as pessoas realmente implicadas, por assim dizer... no 
estou a contar com os criados... duas criaturas absolutamente leais e com ar de assustadas... no sabiam 
nada de nada. Ningum podia suspeitar delas.

Cinco pessoas, diz o senhor? Fale-me delas.

Bem, havia o Philip Blake. Era o maior amigo do Crale... conheceram-se toda a vida. Estava em casa deles 
na altura. Esse est vivo. De vez em quando, cruzamo-nos no comboio. Vive em St Georges Hill. Corretor 
da bolsa. Joga no mercado financeiro e safa-se bem. Um homem de sucesso, est a ficar um tanto gordo.

Sim. E a seguir?

Depois temos o irmo mais velho de Blake. Proprietrio rural... um fulano de hbitos caseiros, gosta de 
ficar em casa.

Passou pela cabea de Poirot uma melodia que ele recalcou. No devia estar sempre a pensar em 
lengalengas infantis. Ultimamente, parecia ter-se tornado uma obsesso. E, todavia, a ria persistia.

Este porquinho foi ao mercado, este porquinhoficou em casa...

Ficava em casa... sim?

 o sujeito de quem lhe falei... o que se dedicava a remdios caseiros... e ervas... uma espcie de 
boticrio. Um passatempo. Como  que ele se chamava? Tinha um nome literrio... j sei. Meredith. 
Meredith Blake. No sei se est vivo ou no.

E a seguir quem temos?

A seguir? Bem, temos a causa de todo o problema. A rapariga do processo, Elsa Greer.

Este porquinho comia rosbife murmurou Poirot. Depleach olhou-o fixamente.

L carne comeu ela e muita disse.  uma mulher empreendedora. Desde ento casou trs vezes. Casa e 
descasa como quem bebe um copo de gua. E sempre que muda de marido  para melhor. Lady 
Dittisham,

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 como se chama hoje em dia. Abra uma edio qualquer da Tatler que h-de v-la l.

E os outros dois?

Havia a preceptora. No me lembro do nome. Uma mulher afvel e competente. Thompson... Jones... 
qualquer coisa assim. E havia a criana. A meia-irm da Caroline Crale. Devia ter cerca de quinze anos. 
Tornou-se bastante clebre. Escava coisas e faz caminhadas a p at ao calcanhar-do-mundo. Warren...  
o nome dela. Angela Warren. Uma jovem mulher muito inquietante nos dias que correm. Encontrei-a um dia 
destes.

No  ento o porquinho que guinchou hi hi hi...?

Sir Montague Depleach olhou-o, com uma expresso de estranheza. Disse secamente:

No lhe faltaram razes na vida para guinchar hi hi hi! Est desfigurada, sabe. Tem uma cicatriz feia, de 
um dos lados da cara, a todo o comprimento. Ela... bem, voc h-de ouvir a histria toda, estou certo.

Poirot levantou-se e disse:

Agradeo-lhe muito. Foi muito amvel. Se Mrs. Crale no matou o marido...

Depleach interrompeu-o:

Mas matou, meu velho, mas matou. Acredite no que lhe digo. Poirot prosseguiu, sem atender  interrupo.

Ento toda a lgica parece apontar para que tenha sido uma dessas cinco pessoas que o matou.

Suponho que uma delas podia t-lo morto disse Depleach, num tom de dvida. Mas no vejo, em nenhum 
dos casos, qualquer razo para que o tivesse feito. Absolutamente nenhuma razo. Tenho a certeza de que 
nenhuma o fez. Tire essa ideia da cabea, meu velho!

Mas Hercule Poirot limitou-se a sorrir e a abanar a cabea.

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CAPTULO II

O ADVOGADO DE ACUSAO

Mais culpada no podia ser disse sucintamente o Dr. Fogg. Hercule Poirot olhou reflexivamente para o 
rosto magro, de traos vincados, do causdico.

Quentin Fogg, advogado da coroa, era um tipo de pessoa muito diferente de Montague Depleach. Depleach 
possua fora, magnetismo, uma personalidade dominadora e ligeiramente intimidante. As suas abruptas e 
dramticas mudanas de atitude produziam efeitos notveis. Num momento era elegante, urbano, 
encantador, e no momento seguinte, numa transformao quase mgica, crispava os lbios e sorria mal-
humorado pronto a comer couro e cabelo.

Quentin Fogg era franzino, macilento, com um dfice singular daquilo a que se chama personalidade. As 
suas perguntas eram calmas e desprovidas de emoo mas inflexivelmente persistentes. Se Depleach 
lembrava um florete, Fogg lembrava uma verruma. Perfurava sem piedade. Nunca atingira uma celebridade 
aparatosa, mas era conhecido como um jurista de primeira classe. Normalmente ganhava as causas em 
que se envolvia.

Hercule Poirot perscrutou-o pensativo.

Foi ento assim que lhe pareceu? perguntou. Fogg assentiu.

Devia t-la visto no banco disse. O velho Humpie Rudolph... era o advogado principal, compreende... f-la 
completamente em picado. Picado!

Ao fim de uma pausa, disse inesperadamente:

No geral, sabe, foi uma coisa excessiva.

No sei bem se estou a entend-lo disse Hercule Poirot.

Fogg contraiu as sobrancelhas delicadamente desenhadas. Com a mo sensvel, afagou o lbio superior.

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Como hei-de pr a questo? disse.  um ponto de vista muito ingls. Um alvo demasiado fcil  a melhor 
descrio. Fao-me entender?

, como diz, um ponto de vista muito ingls, mas julgo compreend-lo. No Tribunal Criminal Central, como 
nos campos de jogos de Eton e nas coutadas, agrada ao ingls que a vtima tenha a hiptese de ganhar ou 
perder.

 exactamente isso. Bom, neste caso, a r no teve qualquer hiptese. Humpie Rudolph fez o que muito 
bem quis com ela. Ela comeou por ser interrogada pelo Depleach. Ficou ali, no sei se est a ver... to 
dcil como uma rapariguinha numa festa, dando s perguntas de Depleach as respostas que tinha 
aprendido de cor. Muito dcil, as palavras na ponta da lngua... e absolutamente convincente! Ensinaram-lhe 
o que devia dizer e ela dsse-o. A culpa no foi do Depleach. Esse velho charlato desempenhou o seu 
papel na perfeio... mas, numa cena que requer dois actores, um s no  capaz de lev-la at ao fim. Ela 
no lhe deu a contracena, e isso teve sobre os jurados o pior efeito possvel. E ento o velho Humpie 
levantou-se. Imagino que j o viu em aco? Foi uma grande perda. Puxou a toga para cima, baloiou o 
corpo para trs... e depois... lanou-se como uma bala!

Como lhe digo, f-la em picado! Levou-a por um lado e pelo outro... e, a cada passo, ela ia caindo na 
armadilha. Ele conseguiu que ela admitisse os paradoxos das suas prprias declaraes, conseguiu que 
ela se contradissesse, e ela foi-se afundando cada vez mais. E depois ele acabou com a sua estratgia 
habitual. Muito persuasivo... muito convicto: Sugiro-lhe, Mrs. Crale, que essa sua histria de ter roubado 
conina, para se suicidar,  um chorrilho de mentiras. Sugiro que a levou com o propsito de administr-la 
ao seu marido que estava em vias de troc-la por outra mulher, e que lha administrou intencionalmente. E 
ela olhou para ele... uma criatura to bonita... graciosa, delicada... e disse: Oh, no... no, no 
administrei. Coisa mais inspida no se podia ter ouvido, no podia ser menos convincente. Vi o velho 
Depleach contorcer-se na cadeira. Foi a que ele soube que estava tudo perdido.

Fogg fez uma curta pausa, continuando em seguida:

E contudo... no sei. De certo modo, foi a coisa mais inteligente que ela podia ter feito! Apelou  nobreza 
de sentimentos... essa peculiar nobreza de sentimentos intimamente associada aos desportos sangrentos 
que faz com que a maioria dos estrangeiros nos considere uns impostores consumados! Os jurados 
acharam... todo o tribunal achou... que ela no tinha a mnima

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hiptese. No foi sequer capaz de lutar pela sua prpria pele. Absolutamente incapaz de contrariar um 
brutamontes inteligente como o velho Humpie. Aquele dbil e pouco convincente: Oh no... no, no 
administrei foi pattico... simplesmente pattico. Arrumou com ela!

Sim, de algum modo, foi a melhor coisa que lhe podia ter acontecido. O jri s esteve reunido pouco mais 
de meia hora. Anunciaram o veredicto final: culpada com uma recomendao de clemncia.

Na verdade, ela constitua um bom contraste em relao  outra mulher do processo. A rapariga. Nunca, 
desde o incio, os jurados mostraram qualquer simpatia para com ela. Nunca perdeu o sangue-frio. Muito 
bonita, determinada, moderna. Para as mulheres em tribunal, simbolizava um tipo o tipo da destruidora de 
lares. Com raparigas daquelas  solta, no h casamento que esteja seguro. Raparigas que s pensam em 
sexo e desprezam os direitos das esposas e das mes. No demonstrou qualquer conteno, devo dizer. 
Foi honesta. Admiravelmente honesta. Tinha-se apaixonado pelo Amyas Crale e ele por ela, e no teve 
quaisquer escrpulos em roub-lo  mulher e  filha.

Num certo sentido, senti admirao por ela. Era corajosa. O Depleach avanou com sugestes feias 
quando contra-interrogou, mas ela aguentou-se bem. O tribunal, contudo, no mostrou qualquer simpatia. E 
o juiz no gostou dela. Era o velho Avis. Ele prprio tinha sido um estoura-vergas em novo... mas quando 
enverga a toga para presidir  um defensor ferrenho da moralidade. Foi extremamente brando na sua 
sntese contra a Caroline Crale. No podia negar os factos, mas deixou no ar algumas fortes insinuaes 
de que tinha havido provocao e tudo isso.

Hercule Poirot perguntou:

No apoiou a teoria da defesa, de suicdio? Fogg abanou a cabea.

Essa teoria sempre foi manca. Repare, no digo que o Depleach no se tivesse esforado para defend-la. 
Foi magnfico. Pintou um retrato muitssimo comovente de um homem generoso, amante do prazer, 
temperamental, subitamente preso numa paixo por uma bela e jovem rapariga, consumido pela 
conscincia, mas incapaz de resistir. Depois, a sua hesitao, a sua repugnncia pelos seus prprios 
actos, o seu remorso pela forma como estava a tratar a mulher e a filha e a sua sbita deciso de pr fim a 
tudo! A sada

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honrosa. Afiano-lhe, foi uma exposio tocante; a voz do Depleach fez vir lgrimas aos olhos. Viu-se o 
pobre diabo como um homem dilacerado pelas suas paixes, mas basicamente decente. O efeito foi 
estupendo. S que, quando acabou e o encanto se quebrou, ningum conseguiu encaixar aquela figura 
mtica na pessoa do Amyas Crale. Toda a gente sabia demasiadas coisas sobre o Crale. Ele no era, de 
maneira nenhuma, esse gnero de homem. E o Depleach no tinha conseguido deitar a mo a quaisquer 
provas que demonstrassem que o era. Devo dizer que o Crale surgiu aos olhos de todos praticamente como 
um homem que nem uma conscincia incipiente possua. Era um egosta implacvel, centrado em si 
prprio, bem-disposto e alegre. Qualquer sentido tico que tivesse, t-lo- aplicado na pintura. No teria 
pintado, estou convicto, um quadro srdido e de m qualidade... por mais estimulado que se sentisse. Mas, 
quanto ao resto, era um homem vigoroso e amava a vida... retirava prazer dela. Suicdio? Ele no!

Uma linha de defesa talvez infeliz? Fogg encolheu os ombros magros.

Que outra alternativa havia? perguntou. Ele no podia baixar os braos e alegar que no tinha argumentos 
para oferecer aos jurados... que a acusao tinha de provar o seu caso contra a r. Provas no faltavam. 
Ela tinha manuseado o veneno... admitiu mesmo t-lo furtado. Existia o meio, o motivo, a oportunidade... 
tudo.

Podia ter-se tentado demonstrar que essas coisas tinham sido artificialmente preparadas?

Fogg disse sem evasivas:

Ela admitiu a maior parte delas. E, em todo o caso,  demasiado rebuscado. Est a sugerir, presumo, que 
outra pessoa o assassinou e arranjou as coisas de maneira a parecer que tinha sido ela.

Acha uma ideia insustentvel? Fogg disse pausadamente:

Infelizmente, acho. Est a sugerir o misterioso X. Onde  que o procuramos?

Obviamente num crculo restrito respondeu Poirot. Havia cinco pessoas, no  verdade, que podiam estar 
implicadas?

Cinco? Deixe ver. Havia o velho tonto que lidava com infuses de ervas. Um passatempo perigoso... mas 
uma criatura afvel. Um sujeito vago.

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No o vejo como o nosso X. Havia a rapariga... era capaz de dar conta da Caroline, mas do Amyas no, 
com certeza. Depois havia o corretor da bolsa... o melhor amigo do Crale. Seria popular nos romances 
policiais, mas na vida real custa-me a crer. No h mais ningum... ah, pois, a irm mais nova, mas essa 
no se pode considerar seriamente. Temos quatro. Hercule Poirot disse:

Est a esquecer-se da preceptora.

Sim, tem razo. Pobre gente, as preceptoras, nunca nos lembramos delas. Mas recordo-a vagamente. De 
meia-idade, simples, competente. Suponho que um psiclogo diria que ela tinha uma paixo criminosa por 
Crale e, portanto, o matou. A solteirona reprimida! No serve... pura e simplesmente no acredito. Tanto 
quanto a minha vaga memria me permite recordar, ela no era do tipo neurtico.

J l vai muito tempo.

Quinze ou dezasseis anos, julgo. Sim, muito tempo. No pode esperar que as minhas recordaes do 
processo sejam muito ntidas.

Pelo contrrio disse Hercule Poirot, lembra-se com grande clareza. Fico espantado.  capaz de ver toda a 
situao, no  verdade? Quando fala, a imagem forma-se diante dos seus olhos.

Fogg disse pausadamente:

Sim, tem razo... realmente vejo... com muita clareza.

Interessar-me-ia, meu amigo disse Poirot, se pudesse dizer-me porqu.

Porqu? Fogg ponderou sobre a pergunta. O seu rosto magro, de intelectual, estava alerta... interessado. 
Sim, ora porqu?

Poirot perguntou:

Que v com tanta nitidez? As testemunhas? Os advogados? O juiz? A r no banco?

Fogg disse calmamente:

Claro,  essa a razo! O senhor ps o dedo na ferida. Hei-de sempre v-la... E uma coisa estranha, o 
romance. Ela tinha essa qualidade. No sei se era realmente bonita... No era muito jovem... tinha um ar 
fatigado... olheiras em redor dos olhos. Mas tudo se centrava nela. O interesse... o drama. E, contudo, 
durante grande parte do tempo, ela no estava l. Tinha partido para qualquer lado, distante... tinha apenas 
deixado ficar o corpo, inerte, atento,

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com aquele sorrisinho delicado nos lbios. Toda ela era meios-tons, compreende, luz e sombra. E, no 
entanto, mesmo assim, era mais viva do que a outra... a rapariga do corpo perfeito e do rosto belo e do vigor 
vioso, em bruto. Eu admirei a Elsa Greer, porque ela tinha coragem, porque era capaz de dar luta, porque 
enfrentava os seus atormentadores e no se acobardava! Mas admirei Caroline Crale, porque ela no 
combatia, porque se refugiava no seu mundo de meias luzes e sombras. Ela nunca foi derrotada, porque 
nunca deu luta.

Fez uma pausa.

S tenho a certeza de uma coisa. Ela amava o homem que matou. Amava-o tanto que parte dela morreu 
com ele...

O Dr. Fogg, advogado da coroa, calou-se e limpou os culos.

Que  que me deu? disse. Acho que estou para aqui a dizer coisas muito estranhas! Na poca, eu era um 
rapaz muito novo, sabe. Um jovem ambicioso. Estas coisas impressionam. Mas, mesmo assim, estou 
certo de que a Caroline Crale era uma mulher notvel. Nunca a esquecerei. No... nunca a esquecerei...

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CAPTULO III

O JOVEM JURISCONSULTO

George Mayhew mostrou-se cauteloso e prudente.

Recordava o processo, naturalmente, mas no com nitidez. O responsvel tinha sido o pai; ele prprio tinha 
apenas dezanove anos na poca.

Sim o processo tinha sido muito badalado. Porque Crale era um homem muito conhecido. Os seus quadros 
eram de grande qualidade de grande qualidade, sim. Dois deles estavam na Tate. No que isso fosse de 
grande relevncia.

M. Poirot desculp-lo-ia, mas no via muito bem qual o interesse de M. Poirot na questo. Ah, afilha A 
srio! Na verdade? No Canad? Sempre tinha ouvido dizer que estava na Nova Zelndia.

George Mayhew tornou-se menos rgido. Comeou a descontrair.

Uma coisa chocante na vida de uma rapariga. Sentia a mais profunda simpatia por ela. Teria sido 
francamente muito melhor, se ela nunca tivesse sabido a verdade. Mesmo assim, agora no servia de nada 
diz-lo.

Ela queria saber? Sim, mas que havia para saber? Havia registos do julgamento, claro. Ele, pelo seu lado, 
no sabia realmente nada.

No, receava que no subsistissem muitas dvidas sobre a culpabilidade de Mrs. Crale. At certo ponto, 
podia-se desculp-la. Estes artistas gente com quem  difcil viver. Tanto quanto tinha percebido, sempre 
houvera uma ou outra mulher na vida de Crale.

E ela prpria tinha provavelmente sido uma mulher do gnero possessivo. Incapaz de aceitar os factos. Hoje 
em dia, ter-se-ia simplesmente divorciado dele e ultrapassado a situao. Acrescentou cautelosamente:

Deixe ver... hum... Lady Dittisham, creio, era a rapariga no processo. Poirot disse que assim julgava.

Os jornais falam do assunto de vez em quando disse Mayhew. Ela tem passado por vrios divrcios.  uma 
mulher muito rica, como deve

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saber. Esteve casada com esse sujeito, o explorador, antes de Dittisham. Est sempre mais ou menos na 
mira do pblico. O gnero de mulher que aprecia a celebridade, imagino.

Ou possivelmente que idolatra heris sugeriu Poirot.

A ideia perturbou George Mayhew. Aceitou-a com desconfiana.

Bem, possivelmente... sim, suponho que possa ser o caso. Pareceu ficar com a ideia s voltas na cabea.

A sua firma representou Mrs. Crale durante vrios anos? perguntou Poirot.

George Mayhew abanou a cabea.

Pelo contrrio, Jonathan e Jonathan eram os advogados dos Crales. Nas circunstncias, porm, o Dr. 
Jonathan achou que no podia representar Mrs. Crale e acordou connosco... com o meu pai... que 
pegssemos no caso. Seria boa ideia, julgo, M. Poirot, combinar um encontro com o velho Dr. Jonathan. 
Ele est reformado... est com mais de setenta anos... mas conhecia intimamente a famlia Crale, e poder 
dar-lhe informaes muito mais completas do que as minhas. Na realidade, eu, pela minha parte, no 
posso dizer-lhe absolutamente nada. Na poca, no passava de um rapaz. Acho que nem sequer cheguei a 
estar presente em tribunal.

Poirot levantou-se e George Mayhew, erguendo-se tambm, acrescentou:

Talvez fosse bom trocar umas impresses com o Edmunds, o nosso chefe de escritrio. Nessa altura, ele 
j trabalhava na firma e interessou-se profundamente pelo caso.

Edmunds era um homem que falava pausadamente. Os seus olhos cintilavam de prudncia jurdica. 
Demorou algum tempo a avaliar Poirot, antes de se deixar convencer a falar. Disse:

Sim, estou ao corrente do processo Crale. Acrescentou severamente: Foi uma histria vergonhosa. O seu 
olhar demorou-se apreciativamente em Hercule Poirot.

J passou muito tempo para estar a desenterrar tudo novamente disse.

Um veredicto em tribunal nem sempre representa um fim. A cabea angulosa de Edmunds aquiesceu 
lentamente.

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No diria que no tem a uma certa razo.

Hercule Poirot continuou: Mrs. Crale deixou uma filha.

Sim, eu sei que havia uma filha. Mandaram-na para o estrangeiro para junto de uns parentes, no  
verdade?

Poirot prosseguiu:

A filha acredita firmemente na inocncia da me.

Mr. Edmunds ergueu as enormes e fartas sobrancelhas.

 essa a situao?

Existe alguma coisa que me possa dizer que sustente essa convico? perguntou Poirot.

Edmunds reflectiu. Em seguida, lentamente, abanou a cabea.

No posso em conscincia dizer que exista. Eu admirava Mrs. Crale. Independentemente de tudo o mais 
que fosse, era uma senhora! No era como a outra. Uma cocote... nem mais, nem menos. Uma descarada! 
Uma nova-rica sem prstimo... era o que ela era... e ostentava-o! Mrs. Crale tinha distino.

Mas mesmo assim uma assassina?

Edmunds franziu o sobrolho e disse, com mais espontaneidade do que at a demonstrara:

Isso perguntei eu vezes sem conta a mim mesmo, dia aps dia. Ali sentada no banco com tanta calma e 
docilidade. No acredito, costumava eu dizer com os meus botes. Mas, no sei se me fao entender, 
M. Poirot, no havia mais nada em que acreditar. Aquela ansarina no foi parar  cerveja de Mr. Crale por 
obra e graa do Esprito Santo. Foi posta l. E se no foi Mrs. Crale que a ps l, quem foi?

A questo  essa disse Poirot. Quem foi?

Mais uma vez, aqueles olhos astutos perscrutaram o seu rosto.

Ento  essa a sua ideia? perguntou Mr. Edmunds.

E o senhor que acha?

Houve uma pausa, antes de o funcionrio responder. Em seguida, disse:

No havia nada que apontasse nesse sentido... absolutamente nada.

Esteve presente em tribunal durante a audincia do processo? Perguntou Poirot.

Todos os dias.

Ouviu os depoimentos das testemunhas?

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Ouvi.

Houve alguma coisa em especial que lhe tivesse chamado a ateno, alguma anomalia, alguma 
insinceridade?

Edmunds disse sem rodeios:

Est a perguntar se algum mentiu? Se algum tinha razes para desejar a morte de Mr. Crale? Queira 
desculpar-me, M. Poirot, mas essa ideia  muito melodramtica.

Pelo menos, considere-a instigou Poirot.

Observou o rosto astuto, os olhos semicerrados e meditativos. Lentamente, com pesar, Edmunds abanou a 
cabea.

Miss Greer disse era uma pessoa azeda e vingativa! Diria que passou das marcas em muitas das 
afirmaes que fez, mas era Mr. Crale vivo que ela pretendia. Morto no lhe servia de nada. Sem dvida que 
desejava ver Mrs. Crale enforcada... mas isso era porque a morte lhe tinha levado o homem que amava. Era 
como uma pantera pronta a saltar sobre a vtima! Mas, como digo, ela queria Mr. Crale vivo. Mr. Philip 
Blake, esse estava igualmente contra Mrs. Crale. Preconceituoso. Sempre que pde, espetou-lhe o punhal. 
Mas eu diria que, de acordo com os seus pontos de vista, foi honesto. Tinha sido o maior amigo de Mr. 
Crale. O irmo, Mr. Meredith Blake... m testemunha, esse... vago, hesitante... nunca me pareceu seguro 
das respostas que deu. J vi muitas testemunhas assim. Parece que esto a mentir e, afinal de contas, 
esto a falar verdade o tempo todo. No quis dizer mais do que foi preciso, Mr. Meredith Blake. S por isso, 
serviu s mil maravilhas os propsitos da acusao. Um desses cavalheiros sossegados que se perturbam 
facilmente. Agora a preceptora, essa fez-lhes frente. No desperdiou palavras e respondeu sem evasivas e 
com frontalidade. Ao ouvi-la, era impossvel dizer de que lado estava. Perfeito domnio das suas faculdades, 
essa. Uma mulher fina Edmunds fez uma pausa. No me admirava nada que soubesse muito mais sobre a 
questo do que aquilo que admitiu.

Eu tambm no me admirava comentou Hercule Poirot.

Olhou incisivamente para o rosto enrugado e astuto de Mr. Alfred Edmunds. A sua expresso era incua e 
impassvel. Mas Hercule Poirot desconfiou que talvez lhe tivesse sido dado um palpite.

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CAPTULO IV

O VELHO JURISCONSULTO

O Dr. Caleb Jonathan vivia no Essex. Aps uma corts troca de correspondncia, Poirot recebeu um 
convite, quase rgio na sua natureza, para jantar e passar a noite. O velho cavalheiro era decididamente um 
personagem. Depois da insipidez do jovem George Mayhew, o Dr. Jonathan era como um clice do seu 
prprio Porto vintage.

Tinha um mtodo muito pessoal de abordar os assuntos, e j era perto da meia-noite, quando o Dr. 
Jonathan, sorvendo pequenos tragos de um balo de fragrante aguardente velha, descontraiu 
verdadeiramente.  maneira oriental, havia apreciado a delicada recusa de Hercule Poirot em apress-lo, 
fosse de que forma fosse. Agora, quando entendeu chegado o momento, prontificou-se a desenvolver o 
tema da famlia Crale.

A nossa firma, naturalmente, conheceu muitas geraes de Crales. Eu conhecia o Amyas Crale e o pai, 
Richard Crale, e ainda recordo o Enoch Crale, o av. Proprietrios rurais, todos eles, pensavam mais nos 
cavalos do que nos seres humanos. Eram pessoas frontais, gostavam de mulheres e as ideias no eram 
com eles. Mas a mulher do Richard Crale fervilhava de ideias... mais ideias do que juzo. Tinha inclinaes 
poticas e musicais... tocava harpa, compreende. Gozava de fraca sade e tinha uma aparncia muito 
pitoresca, quando estava sentada no sof. Era admiradora de Kingsley. Foi por isso que ps ao filho o 
nome de Amyas. O pai escarneceu do nome, mas acabou por ceder.

O Amyas Crale foi favorecido por uma herana mista. Da doentia me herdou a vocao artstica, e do pai, 
uma forte impulsividade e um egosmo implacvel. Todos os Crales eram egostas. Nunca, em 
circunstncia alguma, admitiam qualquer ponto de vista que no fosse o seu.

Batendo com um dedo delicado no brao da poltrona, o velho lanou um olhar penetrante a Poirot.

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Corrija-me, se estiver errado, M. Poirot, mas creio que est interessado... digamos, em questes de 
carcter.

Essas, para mim replicou Poirot, constituem o interesse central de todos os meus casos.

Imagino perfeitamente. Pr-se na pele, por assim dizer, do seu criminoso. Muito interessante. Muito 
absorvente. A nossa firma, naturalmente, nunca se dedicou ao direito criminal. No tnhamos competncia 
para representar Mrs. Crale, ainda que eticamente o pudssemos ter feito. No entanto, os Mayhews eram 
uma firma perfeitamente  altura. Passaram a pasta ao Depleach... talvez no tenham revelado a grande 
imaginao... seja como for, ele cobrava-se bem e, naturalmente, era excessivamente dramtico! O que 
no foram suficientemente sagazes para compreender foi que a Caroline nunca alinharia da forma que ele 
pretendia. Ela no era uma mulher minimamente dramtica.

Que era ento? perguntou Poirot.  sobretudo isso que estou ansioso por saber.

Sim, sim... certamente. Como  que ela acabou a fazer o que fez? Essa  realmente a questo crucial. Eu 
conhecia-a, sabe, antes de casar. Caroline Spalding, chamava-se. Uma criatura turbulenta e infeliz. Muito 
viva. A me enviuvou cedo e a Caroline era muito dedicada  me. Mais tarde, a me voltou a casar... teve 
outra filha. Sim...sim, muito triste, muito doloroso. Estes cimes ardentes de jovem adolescente.

Ela tinha cimes?

Obsessivos, sim. Ocorreu um incidente lamentvel. Pobre rapariga, viria a culpar-se amargamente disso. 
Mas, sabe, M. Poirot, so coisas que acontecem. Nessas idades, existe a incapacidade para refrear as 
emoes.  uma coisa que vem... vem com a maturidade.

Que aconteceu? perguntou Poirot.

Ela agrediu a criana... a beb... arremessou um pesa-papis contra ela. A criana perdeu uma vista e 
ficou permanentemente desfigurada.

O Dr. Jonathan suspirou e disse:

Pode imaginar o impacto que uma simples pergunta sobre esta matria teve durante o julgamento.

Abanou a cabea:

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Deu a impresso de que a Caroline Crale era uma mulher de mau

gnio incontrolvel. Mas no era verdade. No, no era verdade.

Fez uma pausa, retomando depois o discurso:

A Caroline Spalding passava, com frequncia, temporadas em

Alderbury. Montava bem e era uma pessoa entusiasta. O Richard Crale gostava dela. Cuidava de Mrs. Crale 
e era capaz e meiga... Mrs. Crale tambm gostava dela. A rapariga no era feliz em casa. Em Alderbury, 
sentia-se feliz. Comeou a nascer uma amizade entre ela e a Diana Crale, a irm do Amyas. O Philip e o 
Meredith Blake, uns rapazes da propriedade vizinha, estavam frequentemente em Alderbury. O Philip 
sempre foi uma bestazinha desagradvel, agarrado ao dinheiro. Devo confessar que sempre senti averso 
por ele. Mas dizem-me que  um bom conversador e que tem a reputao de ser um amigo leal. O Meredith 
era o que os meus contemporneos costumavam chamar um piegas. Gostava de botnica e de borboletas, 
e de observar as aves e os animais. Estudo da natureza,  o que lhe chamam hoje em dia. Valha-me 
Deus... todos os jovens eram um desapontamento para os pais. Nenhum deles saa aos seus... caa, tiro, 
pesca. O Meredith preferia observar as aves e os animais a ca-los ou a abat-los, o Philip preferia 
definitivamente a cidade ao campo e meteu-se nas lides financeiras. A Diana casou com um sujeito de 
classe inferior um oficial miliciano durante a guerra. E o Amyas, o forte, o bem-parecido, o viril Amyas, 
entre tantas coisas, havia logo de se tornar pintor. Na minha opinio, o Richard Crale morreu do choque.

E, em devido tempo, o Amyas casou com a Caroline Spalding. Sempre tinham discutido e andado  
bulha, mas foi um casamento por amor, disso no h dvidas. Eram ambos loucos um pelo outro. E 
continuaram ligados por uma grande afeio. Mas o Amyas era como todos os Crales, um egosta 
implacvel. Amava a Caroline, mas nunca, em momento nenhum, pensava nela. Fazia o que muito bem lhe 
dava na gana. Na minha opinio, no podia nutrir mais afecto por ela... mas ela vinha muito atrs da sua 
arte. Esta estava em primeiro lugar. E devo dizer que nunca a sua arte foi substituda por uma mulher. Tinha 
aventuras com mulheres... elas estimulavam-no... mas, quando se fartava, deixava-as a chupar no dedo. 
No era uma pessoa sentimental, nem romntica. Nem to-pouco um homem sensual. A nica mulher por 
quem sentia algum apego era a prpria mulher. E ela, sabendo disso, aturava-lhe muita coisa. Ele era um 
pintor excelente, sabe. Ela compreendia e

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respeitava essa qualidade. Ele partia nas suas conquistas amorosas e voltava sempre... geralmente com 
um quadro a prov-lo.

Era capaz de ter continuado assim, se no tivesse entrado em cena a Elsa Greer. Elsa Greer...

O Dr. Jonathan abanou a cabea.

Fale-me da Elsa Greer pediu Poirot. O Dr. Jonathan disse inesperadamente:

Pobrezinha. Pobrezinha.

 esse sentimento que ela lhe suscita? inquiriu Poirot.

Talvez seja porque sou um velho, mas creio, M. Poirot disse Jonathan, que existe qualquer coisa na 
vulnerabilidade da juventude que me move at s lgrimas. Os jovens so to indefesos. To implacveis... 
to confiantes. To generosos e exigentes.

Levantando-se, dirigiu-se  estante. Retirando um volume, folheou as pginas e leu em voz alta:

Se a ndole, do teu amor  honrada,

O propsito o casamento, faz-me saber amanh

Por algum que mandarei ao teu encontro,

Onde e a que horas executars o ritual

E toda a minha sorte a teus ps deponho,

E te seguirei, meu senhor, at ao fim do mundo.

A est a voz do amor aliada  juventude, nas palavras de Julieta. Sem hesitaes, sem subterfgios, sem 
o recato, por assim dizer, de uma donzela.  a coragem, a insistncia, a implacvel fora da juventude. 
Shakespeare conhecia a juventude. Julieta escolhe Romeu. Desdmona reclama Otelo. No tm dvidas, 
os jovens, nem medo, nem orgulho.

Poirot comentou, pensativamente:

Ento, para si, Elsa Greer falou com a voz de Julieta?

Sim. Era uma herdeira mimada... jovem, bela, rica. Encontrou o homem dos seus sonhos e reclamou-o... 
no era um jovem Romeu, mas um pintor casado e de meia-idade. A Elsa Greer no tinha cdigos que a 
refreassem, o seu cdigo era o da modernidade. Leva o que quiseres, s temos uma vida!

Suspirou, reclinou-se e voltou a bater suavemente no brao da poltrona.

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Uma Julieta predadora. Jovem, implacvel, mas horrivelmente vulnervel! Apostando tudo num lance 
ousado. E aparentemente ganhou... mas depois... no ltimo momento... a morte faz a sua entrada... e a 
viva, alegre e fogosa Elsa morreu tambm. E apenas ficou uma mulher vingativa, fria e dura, odiando com 
todo o seu ser a mulher cuja mo perpetrara o crime.

O seu tom de voz alterou-se:

Valha-me Deus, valha-me Deus. Peo-lhe que me perdoe este breve

deslize no melodrama. Uma jovem agreste... com uma perspectiva agreste da vida. Uma personagem nada 
interessante, a meu ver. Juventude branca como uma rosa, apaixonada, plida, etc. Quando isso 
desaparece, que fica? Apenas uma mulher jovem, algo medocre, em busca de outro heri em tamanho 
natural, para colocar num pedestal vazio.

Se Amyas Crale no tivesse sido um pintor famoso... O Dr. Jonathan concordou imediatamente, dizendo:

Precisamente, precisamente. Compreendeu admiravelmente a ideia. As Elsas deste mundo so pessoas 
que idolatram heris. Um homem tem de ter feito alguma coisa, tem de ser algum... Mas a Caroline Crale 
era capaz de reconhecer mrito num empregado bancrio ou num agente de seguros! A Caroline amava 
Amyas Crale, o homem, e no Amyas Crale, o pintor. A Caroline Crale no era boal... a Elsa Greer era.

Mas era jovem e bela e, quanto a mim, infinitamente pattica acrescentou.

Hercule Poirot foi deitar-se, pensativo. Sentia-se fascinado com o problema da personalidade.

Para Edmunds, o empregado de escritrio, Elsa Greer era uma cocote, nem mais, nem menos.

Para o velho Dr. Jonathan, era uma eterna Julieta.

E Caroline Crale?

Cada pessoa a tinha visto de modo diferente. Montague Depleach tinha-a desprezado, chamando-lhe 
derrotista uma cobarde. Para o jovem Fogg, ela simbolizava o Romance. Edmunds via-a simplesmente 
como uma senhora. O Dr. Jonathan tinha-a caracterizado como uma criatura intempestiva e turbulenta.

Como a teria ele, Hercule Poirot, visto?

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Da resposta a esta pergunta dependia, a seu ver, o sucesso da sua investigao.

At ao momento, nenhuma das pessoas com quem tinha falado duvidava de que Caroline Crale, 
independentemente de tudo o mais que fosse, era tambm uma assassina.

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CAPTULO V

O INSPECTOR-CHEFE DA POLCIA

O ex-inspector-chefe Hale puxou pensativamente o fumo do seu cachimbo.

A sua pretenso  estranha, M. Poirot observou.

Talvez seja um tanto invulgar concordou cautelosamente Poirot.

 que j passou tanto tempo disse Hale.

Hercule Poirot anteviu que viria a cansar-se um pouco desta frase. Disse, suavemente:

A dificuldade  acrescida, naturalmente.

Desenterrar o passado ponderou o outro. Ainda se houvesse algum objectivo...

H um objectivo.
- Qual ?

 possvel tirar prazer da busca da verdade pela verdade. Eu tiro. E no deve esquecer-se da jovem 
senhora.

Hale assentiu.

Sim, sou capaz de entender o ponto de vista dela. Mas... desculpar-me-, M. Poirot... o senhor  um 
homem engenhoso. Podia congeminar uma histria para lhe contar.

No conhece a jovem em questo replicou Poirot.

Ora, ora... um homem com a sua experincia! Poirot empertigou-se.

Posso ser, mon cher, um mentiroso artificioso e capaz... ao que parece Pensar. Mas no  a minha ideia 
de uma conduta tica. Tenho os meus padres.

Desculpe, M. Poirot. No quis ofender os seus sentimentos. Mas seria Por uma boa causa, digamos.

Ah, isso gostava eu de saber, seria mesmo?

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Hale disse, pausadamente:

 um grande azar para uma rapariga inocente e feliz, que est prestes a casar, descobrir que a me era 
uma assassina. Se eu fosse ao senhor, ia ter com ela e dizia-lhe que, afinal, foi suicdio. Diga que o caso 
foi mal conduzido pelo Depleach. Diga que no existem quaisquer dvidas, na sua cabea, de que o Crale 
se envenenou!

Mas existem todas as dvidas na minha cabea! No acredito, nem por um momento, que Crale se 
envenenou. O senhor considera que seja sequer uma hiptese razoavelmente possvel?

Lentamente, Hale abanou a cabea.

Est a ver? No,  a verdade que tenho de descobrir... e no uma mentira plausvel... ou no muito 
plausvel.

Hale voltou-se e encarou Poirot. O seu rosto quadrado, bastante vermelho, ficou um pouco mais vermelho e 
at pareceu tornar-se um pouco mais quadrado.

Fala da verdade disse. Gostava de deixar muito claro que pensamos ter descoberto a verdade no processo 
Crale.

Poirot atalhou:

Essa sua afirmao tem um grande significado. Eu conheo-o pelo que , um homem honesto e capaz. 
Mas diga-me uma coisa, na poca existiu alguma dvida na sua cabea relativamente  culpa de Mrs. 
Crale?

A resposta do inspector no se fez esperar.

Absolutamente nenhuma, M. Poirot. As circunstncias apontaram imediatamente para ela e todos os 
factos, sem excepo, que descobrimos apoiaram esse ponto de vista.

Pode descrever-me as provas contra ela?

Posso. Quando recebi a sua carta, consultei o processo. Pegou num pequeno bloco de notas. Anotei aqui 
todos os factos de relevo.

Obrigado, meu amigo. Estou ansioso por ouvi-los.

Hale pigarreou. Ouviu-se no seu tom de voz uma entoao ligeiramente oficial.

s duas e quarenta e cinco da tarde do dia 18 de Setembro disse, o inspector Conway recebeu um 
telefonema do Dr. Andrew Faussett. O Dr. Faussett declarou que Mr. Amyas Crale, de Alderbury, tinha 
morrido subitamente e que, em resultado das circunstncias dessa morte e ainda de uma

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declarao que lhe fora prestada por um tal Mr. Blake, um hspede da casa, considerava tratar-se de um 
caso para a polcia.

O inspector Conway, acompanhado de um sargento e do mdico da polcia, deslocou-se de imediato a 
Alderbury. O Dr. Faussett encontrava-se ali e conduziu-o ao local onde o corpo de Mr. Crale se encontrava 
inviolado.

Mr. Crale estava a pintar num pequeno jardim vedado, conhecido como o jardim da Bateria, pelo facto de 
estar virado para o mar e ter alguns canhes em miniatura colocados em parapeitos. Situava-se a cerca de 
quatro minutos a p da casa. Mr. Crale no tinha ido a casa almoar, porque pretendia captar determinados 
efeitos da luz sobre a pedra... e, mais tarde, o sol estaria numa posio desfavorvel a esta pretenso. 
Tinha, portanto, ficado sozinho no jardim da Bateria, a pintar. A declarao indica que se tratava de uma 
ocorrncia comum. Mr. Crale ligava muito pouco s horas das refeies. Por vezes, era-lhe mandada uma 
sanduche, mas, o mais das vezes, ele preferia que no o incomodassem. As ltimas pessoas que o viram 
com vida foram Miss Elsa Greer (hspede da casa) e Mr. Meredith Blake (um vizinho prximo). Ambos 
entraram na casa juntos e almoaram com os restantes residentes. Depois do almoo, foi servido o caf no 
terrao. Mrs. Crale acabou de tomar o caf e comentou que ia at ao jardim ver como Amyas estava, 
Miss Cecilia Williams, a preceptora, levantou-se e acompanhou-a. Ia procurar uma camisola perdida, que 
pertencia  sua pupila, Miss Angela Warren, irm de Mrs. Crale, e que ela achava possvel ter sido deixada 
na praia.

As duas partiram juntas. O caminho descia atravs de uma mata, desembocando na porta de entrada para 
o jardim da Bateria. Podia-se entrar no jardim da Bateria ou continuar pelo mesmo caminho, que ia dar  
praia.

Miss Williams continuou e Mrs. Crale entrou no jardim da Bateria. Quase imediatamente, porm, Mrs. 
Crale gritou e Miss Williams voltou atrs a correr. Mr. Crale estava reclinado num banco e estava morto.

A pedido urgente de Mrs. Crale, Miss Williams saiu do jardim da Bateria e correu  casa para telefonar a 
um mdico. Pelo caminho, no entanto, encontrou Mr. Meredith Blake e confiou-lhe essa incumbncia, 
regressando para junto de Mrs. Crale, que entendeu poder necessitar de apoio. O Dr. Faussett chegou ao 
local um quarto de hora mais tarde. Constatou de imediato que Mr. Crale estava morto h algum tempo... 
situou o momento provvel da

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morte entre a uma e as duas horas. No havia nada que indicasse a causa da morte. No havia sinal de 
qualquer ferimento e a atitude de Mr. Crale era de perfeita naturalidade. No entanto, o Dr. Faussett, que 
conhecia bem o estado de sade de Mr. Crale e sabia, sem sombra de dvida, que ele no sofria de 
qualquer doena ou achaque, sentiu-se inclinado a considerar a situao muito grave. Foi neste ponto que 
Mr. Philip Blake fez uma certa declarao ao Dr. Faussett.

O inspector Hale calou-se, respirou fundo e passou, por assim dizer, ao Captulo Dois.

Subsequentemente, Mr. Blake repetiu esta declarao ao inspector Conway. Rezava assim: Nessa manh, 
ele tinha recebido uma mensagem telefnica do irmo, Mr. Meredith Blake (que vivia em Handcross Manor, 
a dois quilmetros e meio de distncia). Mr. Meredith Blake era boticrio amador... ou talvez ervanrio seja 
uma descrio mais adequada. Quando entrou no seu laboratrio, nessa manh, Mr. Meredith Blake tinha 
ficado surpreendido ao reparar que um frasco, contendo um preparado de ansarina, que no dia anterior 
estava praticamente cheio, se encontrava agora quase vazio. Preocupado e alarmado com este facto, tinha 
telefonado ao irmo a pedir conselho sobre o procedimento a tomar. Mr. Philip Blake tinha instado o irmo 
a deslocar-se a Alderbury de imediato, para discutirem o assunto. Ele prprio foi ao encontro do irmo, a 
meio do caminho, e tinham chegado  casa juntos. No tinham chegado a qualquer concluso sobre que 
linha de aco adoptar e tinham deixado o assunto para nova discusso depois do almoo.

Em resultado de mais averiguaes, o inspector Conway apurou os seguintes factos: Na tarde do dia 
anterior, cinco pessoas tinham ido tomar ch a Handcross Manor. Foram eles Mr. e Mrs. Crale, Miss 
Angela Warren, Miss Elsa Greer e Mr. Philip Blake. Durante o tempo que ali passaram, Mr. Meredith Blake 
tinha dado uma autntica palestra sobre o seu passatempo e tinha levado o grupo ao seu pequeno 
laboratrio, numa visita guiada. Durante esta visita, tinha mencionado algumas drogas especficas... uma 
delas sendo a conina, o princpio activo da ansarina malhada. Tinha explicado as suas propriedades, 
lamentado o facto de que tinha agora desaparecido da Farmacopeia e referido que, em pequenas doses, 
era extremamente eficaz contra a tosse convulsa e a asma. Mais tarde, tinha mencionado as suas

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propriedades letais e tinha mesmo lido aos convidados uma passagem de um autor grego que descrevia os 
seus efeitos.

O inspector Hale fez uma pausa, voltou a encher o cachimbo e passou ao Captulo Trs.. -;-,

- O coronel Frere, o chefe da polcia, confiou-me o caso. O resultado da autpsia no deixou margem para 
dvidas. A conina, ao que me foi dado entender, no deixa qualquer trao definitivo aps a morte, mas os 
mdicos sabiam o que procuravam, e foi recuperada uma boa dose do veneno. O mdico foi de opinio de 
que tinha sido administrada duas ou trs horas antes da morte. Diante de Mr. Crale, sobre a mesa, estava 
um copo vazio e uma garrafa de cerveja vazia. Foram analisados os resduos de ambos. No havia conina 
na garrafa, mas havia no copo. Averiguei e vim a saber que, embora fosse costume guardar uma grade de 
cerveja e copos num pequeno pavilho no jardim da Bateria, caso Mr. Crale sentisse sede, enquanto 
pintava, naquela manh, em particular, Mrs. Crale tinha trazido de casa uma garrafa de cerveja gelada. Mr. 
Crale estava absorvido na pintura, quando ela chegou, e Miss Greer estava a posar para ele, sentada num 
dos parapeitos.

Mrs. Crale abriu a cerveja, serviu-a e colocou o copo na mo do marido que estava em p diante do 
cavalete. Ele emborcou-a de um trago... um hbito seu, ao que apurei. Em seguida, fez um esgar, pousou o 
copo na mesa e disse: Hoje tudo me sabe mal!. Com isto, Miss Greer riu e disse: Fgado!. Mr. Crale 
disse: Bem, seja como for, estava fresca. 
Hale calou-se. Poirot perguntou: 
- A que horas se passou isso?

- Cerca das onze e um quarto. Mr. Crale continuou a pintar. Segundo Miss Greer, mais tarde disse sentir 
os membros rgidos, queixando-se de que devia ter uma ponta de reumatismo. Mas era o tipo de homem 
que detestava admitir sentir-se doente e procurou, sem dvida, esconder a sua indisposio. A sua 
exigncia mal-humorada de que os outros o deixassem sozinho e fossem almoar era muito tpica do 
indivduo, devo dizer.

Poirot assentiu.

- Portanto, deixaram Crale sozinho no jardim da Bateria - continuou Hale. - De certeza que se deixou cair 
na cadeira e descontraiu, assim que se achou sozinho. Deve ter sido ento acometido de paralisia 
muscular. Como no teve ajuda imediata, sobreveio a morte.

45Mais uma vez, Poirot assentiu. Bem disse Hale, eu procedi segundo a rotina. No tive grand dificuldade 
em determinar os factos. No dia anterior, tinha havido uma discusso entre Mrs. Crale e Miss Greer. Esta 
ltima tinha, com grande insolncia, referido que ia introduzir uma mudana qualquer no arranjo da moblia 
quando c viver. Mrs. Crale respondeu-lhe e disse: Que queres dizer?! Quando c viveres?. Miss Greer 
ripostou: No faas de conta que no sabes! o que eu quero dizer, Caroline. No passas de uma avestruz 
que enterra a cabea na areia. Sabes muito bem que eu e o Amyas gostamos um do outro e que vamos 
casar. Mrs. Crale disse ento: No sei rigorosamente nada. Aps o que, ao que parece, Mrs. Crale se 
virou para o marido, que acabava de entrar na sala, e disse:  verdade, Amyas, que vais casar-te com a 
Elsa?.,

Poirot perguntou, interessado: |

E que respondeu Mr. Crale a isso? ]

Aparentemente, virou-se para Miss Greer e gritou-lhe: Onde diabo pretendes chegar ao espalhar isso aos 
quatro ventos? No tens juzo para estares calada?. Miss Greer disse: Acho que a Caroline tem de 
admitir a verdade. Depois Mrs. Crale disse ao marido:  verdade, Amyas?. Parece que ele se recusou a 
olhar para ela, desviou os olhos e murmurou qualquer coisa. E ento ela disse: Fala. Preciso de saber. 
Ao que ele respondeu:  verdade... mas no quero discutir isso agora. Depois, saiu rapidamente da sala 
e Miss Greer disse: Ests a ver! Continuou... dizendo que no adiantava nada a Mrs. Crale adoptar uma 
atitude de empata-vazas em relao ao assunto. Deviam comportar-se todos| como pessoas racionais. Ela 
prpria esperava que a Caroline e o Amyas continuassem bons amigos. E que disse a isso Mrs. Crale? 
perguntou Poirot, curioso. Segundo as testemunhas, riu e disse: Sobre o meu cadver, Elsa. Dirigiu-se 
para a porta e Miss Greer exclamou: Que queres dizer? Mrs. Crale olhou para trs e disse: Antes de 
deixar que o Amyas seja teu, mato-o. Hale calou-se. Mais incriminatrio no podia ser, hein? No. Poirot 
pareceu pensativo. Quem assistiu a essa cena? |

Miss Williams e Philip Blake estavam presentes. Muito embaraoso para ambos. ]

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Os seus relatos da cena so concordantes?

Praticamente... nunca h duas testemunhas que se lembrem de uma coisa exactamente do mesmo modo. 
Sabe disso to bem como eu, M. Poirot. Poirot anuiu e disse, pensativamente:

Sim, ser interessante ver... Deteve-se, sem acabar a frase.

Hale continuou: Ordenei uma busca  casa. No quarto de Mrs. Crale, encontrei, numa gaveta de fundo, 
escondido debaixo de umas meias de Inverno, um pequeno frasco com um rtulo que dizia fragrncia de 
jasmim. Estava vazio. Tirei-lhe as impresses digitais. As nicas que encontrei foram as de Mrs. Crale. 
Depois de analisado, descobriu-se que continha vestgios tnues de leo de jasmim e uma forte soluo de 
hidrobrometo de conina.

Adverti Mrs. Crale e mostrei-lhe o frasco. Ela respondeu sem hesitaes. Tinha andado, disse, numa 
disposio muito instvel. Depois de ouvir a descrio que Mr. Meredith Blake fez da droga, tinha voltado 
sorrateiramente ao laboratrio, esvaziado um frasco de fragrncia de jasmim que trazia na carteira e 
enchido o frasco com soluo de conina. Perguntei-lhe por que razo o fizera e ela disse: No pretendo 
falar de determinados assuntos mais do que o necessrio, mas recebi um choque terrvel. O meu marido 
tencionava trocar-me por outra mulher. Se tal viesse a verificar-se, a minha vida deixaria de fazer sentido. 
Foi por isso que peguei no frasco.

Hale fez uma pausa.

Afinal...  bastante plausvel comentou Poirot.

Talvez, M. Poirot. Mas no encaixa no que a ouviram dizer. E depois, na manh seguinte, ocorreu outra 
cena. Mr. Philip Blake ouviu-a em parte. Miss Greer ouviu uma parte diferente. Teve lugar entre Mr. e Mrs. 
Crale na biblioteca. Mr. Blake estava no corredor e captou um ou dois fragmentos. Miss Greer estava 
sentada no exterior, junto da janela aberta da biblioteca, e ouviu bastante mais.

E que ouviram eles?

Mr. Blake ouviu Mrs. Crale dizer: Tu e as tuas mulheres. D-me vontade de te matar. Um dia destes, 
mato-te.

Nenhuma referncia a suicdio?

Exacto. Absolutamente nenhuma. Nada do gnero: Se me fizeres

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uma coisa destas, mato-me. A declarao de Miss Greer foi muito semelhante. Segundo ela, Mr. Crale 
disse: Tenta ser razovel acerca disto, Caroline. Tenho-te muita afeio e quero o melhor para ti... para ti e 
para a criana. Mas vou casar-me com a Elsa. Sempre concordmos em dar liberdade um ao outro. A 
isto, Mrs. Crale respondeu: Muito bem, no digas que no te avisei. Ele disse: Que queres dizer?. E 
ela disse: Quero dizer que te amo e que no te vou perder. Antes matar-te do que deixar-te nas mos 
dessa rapariga. Poirot esboou um leve gesto.

Ocorre-me murmurou que Miss Greer foi estranhamente imprudente ao mencionar essa questo. Mrs. Crale 
podia facilmente recusar o divrcio ao marido.

Temos alguns testemunhos nessa matria retorquiu Hale. Mrs. Crale, ao que parece, fez algumas 
confidncias a Mr. Meredith Blake. Era um velho amigo em que confiava. Ele ficou muito perturbado e 
conseguiu trocar impresses com Mr. Crale sobre o assunto. Devo dizer que isto teve lugar na tarde do dia 
anterior. Mr. Blake protestou delicadamente com o amigo, disse que ficaria muito desgostoso se o 
casamento entre Mr. e Mrs. Crale se rompesse de modo to desastroso. Sublinhou ainda o facto de Miss 
Greer ser uma rapariga muito nova e de ser uma coisa muito sria coagir uma jovem a aparecer em tribunal, 
num caso de divrcio. A isto, Mr. Crale replicou, com uma gargalhada (um bruto sem sentimentos,  o que 
ele deve ter sido): A ideia da Elsa no  de todo essa. Ela no vai aparecer. Havemos de resolver as 
coisas da forma habitual.

Portanto, ainda mais imprudente da parte de Miss Greer ter explodido da maneira como o fez observou 
Poirot.

O inspector Hale disse:

Ah, j sabe como so as mulheres! Tm de andar sempre  bulha. Em todo o caso, deve ter sido uma 
situao difcil. No compreendo como Mr. Crale consentiu que acontecesse. Segundo Mr. Meredith Blake, 
ele queria acabar o quadro. Isso faz-lhe algum sentido?

Sim, meu amigo, creio que faz.

A mim, no faz. O homem andava a pedi-las!

 provvel que tenha ficado seriamente aborrecido com a jovem por ter explodido assim.

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Pois ficou. O Meredith Blake disse o mesmo. Se tinha de acabar o
quadro, nO vejo pOr que razo no podia tirar fotografias e trabalhar a partir delas. Conheo um sujeito... 
pinta aguarelas de paisagens... e  assim que ele faz.

Poirot abanou a cabea.

No... eu sou capaz de compreender Crale, o artista. Deve compreender, meu amigo, que, naquele 
momento, o quadro era provavelmente a nica coisa que tinha importncia para Crale. Por mais que 
quisesse casar com a rapariga, o quadro vinha em primeiro lugar. Por essa razo, tinha esperana de 
chegar ao fim da visita dela, sem que o assunto se tornasse pblico. Claro que a rapariga no entendeu 
assim as coisas. Com as mulheres, o amor vem sempre em primeiro lugar.

Como se eu no soubesse! exclamou enfaticamente o inspector Hale.

Os homens continuou Poirot, e especialmente os artistas, so diferentes.

A arte! disse o inspector com desdm. Tanta conversa sobre Arte. Nunca a compreendi e nunca hei-de 
compreender! Devia ter visto o quadro que Crale estava a pintar. Todo cambado. Fez a rapariga parecer que 
estava com dores de dentes, e as ameias estavam todas de travs. Uma coisa feiosa, tudo aquilo. No me 
saiu da ideia, durante muito tempo a seguir. At cheguei a sonhar com ele. E o pior foi que me afectou a 
vista... comecei a ver ameias e muros e coisas sadas do desenho. Sim, e mulheres tambm!

Poirot sorriu e disse:

Embora no o saiba, o senhor est a prestar um tributo  grandeza da arte de Amyas Crale.

Tretas. Porque  que um pintor no pode pintar uma coisa bonita e alegre de se ver? Para qu tanto esforo 
para retratar a fealdade?

Alguns de ns, mon cher, vem beleza nos lugares mais estranhos.

A rapariga era uma beldade, no h dvida disse Hale. Camadas de maquilhagem e um mnimo de roupa. 
No  decente a forma como estas raparigas se comportam. E foi h dezasseis anos, repare. Hoje em dia, 
nem se d grande ateno a estas coisas. Mas, naquela poca... bem, fiquei chocado. Calas e uma 
dessas camisas de lona, aberta no pescoo... e mais nada, acredite!

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Parece recordar esses aspectos com muita clareza murmurou Poirot, com alguma malcia.

O inspector Hale corou. Estou s a transmitir-lhe as impresses com que fiquei disse, num tom austero.

Claro... claro disse Poirot, apaziguador, continuando: Ento, ao que parece, as principais testemunhas 
contra Mrs. Crale foram Philip Blake e Elsa Greer?

Sim. Foram veementes, os dois. Mas a preceptora tambm foi chamada a depor pela acusao e o que ela 
disse teve mais peso do que os outros dois.  que ela nunca tinha sado de junto de Mrs. Crale. Defendeu-
a com unhas e dentes. Mas era uma mulher honesta e fez um depoimento verdadeiro, sem tentar, de forma 
nenhuma, minimiz-lo.

E Meredith Blake?

Ficou perturbado com a histria toda, pobre senhor. E com razo! Censurou-se pelas suas infuses de 
mezinhas... e o coronel tambm o censurou por isso. Conina e Sais Txicos figuram na Tabela.  da Lei 
dos Produtos Txicos. Foi alvo de violenta censura. Era amigo de ambas as partes, e o choque foi duro... 
alm de ser o tipo de fidalgo rural a quem no agrada a popularidade, nem estar na mira do pblico.

A jovem irm de Mrs. Crale no prestou depoimento?

No. No foi necessrio. No estava presente quando Mrs. Crale ameaou o marido, e no havia nada que 
tivesse a dizer-nos que no pudssemos obter, com o mesmo rigor, de outra pessoa. Ela viu Mrs. Crale 
dirigir-se ao frigorfico e retirar a cerveja gelada e, claro, a defesa podia t-la intimado a dizer que Mrs. Crale 
a levou imediatamente, sem interferir, de maneira nenhuma, com ela. Mas esse ponto no era relevante, 
porque ns nunca afirmmos que a conina estava na garrafa de cerveja.

Como  que ela conseguiu introduzi-la no copo, com os outros dois a olhar?

Bem, antes de mais, eles no estavam a olhar. Quer isto dizer que Mr. Crale estava a pintar... a olhar para 
a sua tela e para o modelo. E Miss Greer estava em pose, sentada, de costas praticamente viradas para o 
ponto onde Mrs. Crale se encontrava, olhando por cima do ombro de Mr. Crale.

Poirot assentiu.

Como digo, nenhum deles estava a olhar para Mrs. Crale. Ela tinha o

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veneno numa pipeta... que usava para encher canetas de tinta permanente. Descobrimo-la em estilhaos no 
caminho que levava  casa.

O senhor tem resposta para tudo murmurou Poirot.

Ora, ento, M. Poirot! No tenho preconceitos. Ela ameaa mat-lo.

Rouba o produto do laboratrio. O frasco vazio  encontrado no seu quarto ningum o manuseou, alm 
dela. Leva-lhe deliberadamente cerveja gelada... uma coisa estranha, na verdade, quando sabemos que 
estavam zangados um com o outro...

Muito curioso. Eu prprio j tinha reparado.

Sim. Uma atitude reveladora. Por que razo ficou ela to amigvel de repente? Ele queixa-se do gosto da 
coisa... e a conina tem um sabor horrvel. Arranja maneira de descobrir o corpo e manda a outra mulher 
telefonar. Porqu? Para poder limpar a garrafa e o copo e depois pressionar os dedos dele  volta da 
garrafa. Em resultado, pode comear a dizer que foi o remorso e que ele se suicidou. Uma histria 
plausvel.

Uma coisa  certa, no prima pela imaginao.

No. Se quer a minha opinio, ela no se deu ao trabalho de pensar. Estava roda de dio e cime. S 
pensou em liquid-lo. E depois, quando est tudo acabado, quando o v ali morto... bem, nesse momento, 
devo dizer, cai subitamente em si e compreende que cometeu um assassnio... e que o assassnio d 
direito  forca. E agarra-se desesperadamente, sem pensar duas vezes,  nica coisa que lhe ocorre... o 
suicdio.

O que est a dizer faz todo o sentido... sim disse Poirot.  possvel que ela tenha raciocinado assim.

Por um lado, foi um crime premeditado, mas, por outro lado, no observou Hale. No creio que ela o tenha 
efectivamente planeado. Limitou-se a ir em frente, s cegas.

Pergunto-me... murmurou Poirot. Hale olhou-o com curiosidade e disse:

Convenci-o, M. Poirot, de que se tratou de um caso muito simples?

Quase. No totalmente. H um ou dois aspectos peculiares...!

 capaz de sugerir uma soluo alternativa... com ps e cabea?

Quais foram os movimentos das outras pessoas nessa manh? perguntou Poirot.

Passmo-los a pente fino, pode crer. Verificmos toda a gente.

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Ningum tinha aquilo a que se pode chamar um alibi... num caso de envenenamento,  impossvel. Repare, 
no h nada que impea um assassino de administrar veneno numa cpsula e entreg-la  vtima, dizendo-
lhe no dia anterior que  um remdio especial para a indigesto e que deve tom-lo antes do almoo... e de 
ir, a seguir, para a outra ponta de Inglaterra.

Mas o senhor no acha que foi o que se passou neste caso?

Mr. Crale no sofria de indigesto. E, de qualquer maneira, no vejo uma coisa dessas a acontecer.  certo 
que Mr. Meredith Blake tinha o hbito de recomendar mezinhas de curandeiro de sua inveno, mas no 
vejo Mr. Crale a experiment-las. E se o fizesse, provavelmente falava e ria-se do assunto. Alm disso, que 
razo tinha Mr. Meredith Blake para querer matar Mr. Crale? Tudo leva a crer que mantinha com ele uma 
excelente relao. Todos mantinham. Mr. Philip Blake era o seu melhor amigo. Miss Greer estava 
apaixonada por ele. Miss Williams reprovava-o, imagino, com bastante veemncia... mas a reprovao 
moral no conduz ao envenenamento. A jovem Miss Warren discutia muito com ele... estava numa idade 
cansativa... prestes a entrar para o colgio, creio, mas ele gostava bastante dela e ela dele. Era tratada 
naquela casa, compreende, com uma afeio e considerao especiais. Devem ter-lhe dito porqu. Foi 
terrivelmente ferida em criana... ferida por Mrs. Crale, numa espcie de ataque de clera desaustinado. O 
que demonstra que ela era um tipo de pessoa bastante descontrolada, no lhe parece? Atacar uma 
criana... e mutil-la para o resto da vida!

Poder demonstrar disse, pensativamente, Poirot que Angela Warren tinha boas razes para guardar rancor 
a Caroline Crale.

Talvez... mas no ao Amyas Crale. E, em todo o caso, Mrs. Crale era dedicada  sua jovem irm... deu-lhe 
um tecto, quando os pais dela morreram, e, como digo, tratava-a com afeio especial... mimava-a 
demasiado, ao que dizem. A rapariga obviamente sentia afecto por Mrs. Crale. Foi afastada do julgamento 
e, o mais possvel, protegida de tudo... Mrs. Crale insistiu particularmente nesse ponto, julgo. Mas a 
rapariga ficou terrivelmente angustiada e ansiava por que a levassem a visitar a irm na priso. Caroline 
Crale no concordou. Disse que esse tipo de coisa podia perturbar mentalmente uma jovem para toda a 
vida. Tomou providncias para que ela fosse estudar para o estrangeiro.

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Acrescentou:
Miss Warren veio a tornar-se uma mulher muito reputada. Viagens a lugares exticos. Palestras na Royal 
Geographical... esse gnero de coisa. E ningum recorda o julgamento?

Bem, para comear, o nome  diferente. Nem sequer tm o mesmo nome de solteiras. Tiveram a mesma 
me, mas pais diferentes. O apelido de Mrs. Crale era Spalding.

Essa Miss Williams, era a preceptora da filha, ou de Angela Warren?

De Angela. A filha tinha uma ama... mas creio que costumava ter algumas aulas dirias com Miss 
Williams.

Onde estava a criana na altura?

Tinha ido com a ama visitar a av. Uma tal Lady Tressillian. Uma senhora viva que tinha perdido duas filhas 
pequenas e que era muito dedicada a esta menina.

Poirot anuiu. Compreendo.

Quanto aos movimentos das outras pessoas no dia do assassnio continuou Hale, posso inform-lo.

Miss Greer sentou-se no terrao, junto  janela da biblioteca, depois do pequeno-almoo. Ali, como disse, 
ouviu a discusso entre Crale e a mulher. Em seguida, acompanhou Crale at ao jardim da Bateria e posou 
para ele at  hora de almoo, com algumas pausas para descontrair os msculos.

Philip Blake estava na casa, depois do pequeno-almoo, e ouviu parte da discusso. Depois de Crale e de 
Miss Greer sarem, ficou a ler o jornal, at o irmo lhe telefonar. Em seguida, foi ao encontro do irmo na 
praia. Caminharam juntos novamente at ao trilho, passando pelo jardim da Bateria. Miss Greer tinha 
acabado de ir  casa buscar uma camisola, porque sentiu frio, e Mrs. Crale estava com o marido a discutir 
questes relativas  partida de Angela para o colgio.

Ah, uma conversa amistosa.

Bem, no, amistosa no. Crale estava a gritar bastante com ela, ao que percebi. Irritado por ser 
incomodado com assuntos domsticos. Suponho que ela desejava esclarecer as coisas, caso houvesse 
uma ruptura.

Poirot assentiu.

Os dois irmos prosseguiu Hale trocaram algumas palavras com Amyas Crale. Em seguida, Miss Greer 
reapareceu e retomou o seu lugar,

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e Crale pegou novamente no pincel, querendo obviamente desembaraar-se deles. Eles perceberam e 
dirigiram-se  casa. A propsito, foi quando estavam no jardim que Amyas Crale se queixou de que a 
cerveja, ali guardada, estava quente e a mulher prometeu que lhe levaria cerveja gelada. -Ah!

Precisamente, ah! Mais simptica no podia ser. Subiram at  casa e sentaram-se no terrao exterior. 
Mrs. Crale e Angela Warren serviram-lhes ali cerveja.

Mais tarde, Angela Warren foi tomar banho e Philip Blake acompanhou-a.

Meredith Blake desceu at uma clareira onde havia um banco imediatamente por cima do jardim da 
Bateria. Dali via Miss Greer posar nas ameias e ouvia a sua voz e a de Crale que conversavam. Ficou ali 
sentado, pensando na histria da conina. Continuava muito preocupado com a situao e no sabia o que 
fazer. Elsa Greer lobrigou-o e acenou-lhe com a mo. Quando tocou o sino para o almoo, ele desceu at 
ao jardim e dirigiu-se com Elsa Greer para a casa. Reparou, nesse momento, que Crale estava com um ar, 
como ele o caracterizou, muito esquisito, mas na altura no lhe atribuiu grande importncia. Crale era o tipo 
de pessoa que nunca estava doente... e portanto nunca ningum imaginava que estivesse. Por outro lado, 
tinha realmente acessos de raiva e prostrao, quando a pintura no corria a seu contento. Nessas 
ocasies, deixavam-no sozinho e falavam com ele o menos possvel. Foi o que ambos fizeram naquela 
ocasio.

Quanto aos outros, os criados estavam ocupados com as lides domsticas e com a preparao do 
almoo. Miss Williams esteve na sala de estudo durante parte da manh, a corrigir alguns exerccios. Em 
seguida, foi para o terrao pontear roupa. Angela Warren passou quase toda a manh a passear pelo 
jardim, trepando s rvores e comendo coisas... sabe como  uma rapariga de quinze anos! Ameixas, 
mas cidas, pras verdes, etc. A seguir, voltou para casa e, como disse, foi para a praia com o Philip 
Blake e tomou banho antes do almoo.

O inspector Hale fez uma pausa.

Ento perguntou, num tom aguerrido, v aqui algum ardil?

Absolutamente nenhum respondeu Poirot.

A tem!

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As duas palavras exprimiram muita coisa.

- Mas, seja como for disse Hercule Poirot, eu prprio terei de me certificar.

Que tenciona fazer?

Vou visitar essas cinco pessoas... e vou obter a verso de cada uma delas.

O inspector-chefe Hale suspirou com profunda melancolia.

 homem, o senhor  doido! disse. Nenhuma das verses vai condizer! No percebe esse facto elementar? 
No h duas pessoas que recordem uma coisa pela mesma ordem. E logo ao fim de tanto tempo! No v 
que vai ouvir cinco relatos de cinco homicdios diferentes?

 precisamente com isso disse Poirot que estou a contar. Ser muito instrutivo.

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CAPTULO VI

ESTE PORQUINHO FOI AO MERCADO...

Philip Blake correspondia, de forma reconhecvel,  descrio que Montaeue Depleach fizera dele. Um 
homem prspero, astuto, de aparncia jovial ligeiramente para o gordo.

Hercule Poirot tinha marcado este encontro para as seis e meia de um sbado  tarde. Philip Blake tinha 
precisamente terminado os seus dezoito buracos e o jogo tinha-lhe corrido bem tinha ganho cinco libras ao 
seu adversrio. Estava na disposio de ser amigvel e expansivo.

Hercule Poirot explicou ao que vinha. Pelo menos, nesta ocasio, no revelou o menor apetite pela verdade 
pura. Tratava-se, depreendeu Blake, de uma srie de livros sobre crimes famosos.

Philip Blake franziu o sobrolho e disse:

Deus do Cu, porqu inventar essas coisas?

Hercule Poirot encolheu os ombros. Hoje, estava na sua pose mais estrangeira. Queria ser desdenhado, 
mas tratado com condescendncia.

 o pblico murmurou. Devora essas histrias... sim, devora-as.

Necrfilos disse Philip Blake.

Mas disse-o humoradamente, e no com o desagrado e a averso que um homem mais sensvel poderia ter 
demonstrado. Hercule Poirot disse, encolhendo os ombros:

 a natureza humana. Eu e o senhor, Mr. Blake, que conhecemos o mundo, no temos iluses acerca dos 
nossos semelhantes. No so ms Pessoas, na sua maioria, mas o certo  que no merecem ser 
idealizados.

Blake disse com sinceridade:

H muito que abandonei qualquer iluso.

Mas  um excelente conversador, pelo que ouvi dizer. Ah! Os olhos de Blake brilharam. J conhece esta?

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Poirot riu no momento certo. No era uma anedota edificante, mas tinha graa.

Philip Blake reclinou-se na cadeira, os msculos relaxados, os olhos contrados com a boa disposio.

Hercule Poirot pensou subitamente que ele se parecia bastante com um porco satisfeito.

Um porco. Este porquinho foi ao mercado...

Que tipo de homem era ele, este homem, este Philip Blake? Um homem, dava a ideia, sem preocupaes. 
Prspero, satisfeito. No alimentava remorsos, no era acometido por incmodos ataques de conscincia 
do passado, no o perseguiam as recordaes. No, um porco bem alimentado que tinha ido ao mercado e 
arrebanhado o preo mximo.

Mas talvez, no passado, Philip Blake tivesse sido outras coisas. Em novo, deve ter sido um homem bem-
parecido. Os olhos um tudo nada pequenos de mais, um nadinha demasiado prximos, talvez mas de resto 
um homem bem constitudo, bem-apessoado. Que idade tinha agora?  primeira vista, entre cinquenta e 
sessenta anos. Perto dos quarenta, portanto, na altura da morte de Crale. Menos estupidificado, nessa 
poca, menos preso s recompensas do momento presente. Exigindo mais da vida, talvez, e recebendo 
menos...

Poirot murmurou uma frase batida:

Compreende a minha posio.

No, francamente, sabe, palavra que no compreendo. O corretor endireitou-se na cadeira, o olhar tomando 
de novo uma expresso sagaz. Porqu o senhor? No  escritor?

No exactamente... no. Por sinal, sou detective. Provavelmente, nunca at ento, em conversa, Poirot 
fizera esta observao com tanta modstia.

Claro que . Toda a gente sabe disso. O famoso Hercule Poirot!

Mas o seu tom continha uma subtil nota de escrnio. Intrinsecamente, Philip Blake era demasiado ingls 
para levar a srio as pretenses de um estrangeiro.

Aos amigos teria dito: Pitoresco vendedorzinho da banha da cobra. Enfim, imagino que as histrias dele 
tenham sada com as mulheres.

E, embora essa atitude desdenhosa de superioridade fosse exactamente

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o que Hercule Poirot tinha desejado induzir, sentia-se, todavia, irritado com ela.

Este homem, este homem de negcios bem sucedido, no se deixava impressionar por Hercule Poirot! Era 
um escndalo.

Muito me apraz ver que me conhece to bem disse Poirot, mentindo. O meu sucesso, deixe que lhe diga, 
tem-se fundado na psicologia... o eterno porqu do comportamento humano. Isso, Mr. Blake,  aquilo em 
que as pessoas esto hoje interessadas, em termos de crime. Costumava ser o romance. Os crimes 
famosos eram narrados unicamente de um ponto de vista... a histria de amor que lhes estava associada. 
Hoje em dia,  muito diferente. As pessoas lem com interesse que o Dr. Crippen assassinou a mulher, 
porque ela era uma mulher grande e robusta e ele era pequeno e insignificante e, portanto, ela fazia-o 
sentir-se inferior. Lem sobre uma clebre criminosa que matou, porque o pai a repreendeu quando ela 
tinha trs anos. Como digo,  o porqu do crime que tem interesse hoje em dia.

Philip Blake disse, com um bocejo reprimido:

O porqu da maioria dos crimes  suficientemente bvio, na minha opinio. Geralmente,  o dinheiro.

Poirot exclamou:

Ah, meu caro senhor, o porqu nunca deve ser bvio.  precisamente essa a questo!

E  a que o senhor entra?

E, como diz,  a que eu entro! A proposta  rescrever as histrias de determinados crimes passados... do 
ponto de vista psicolgico. A psicologia no crime  a minha especialidade. Aceitei a incumbncia.

Philip Blake sorriu.

Deve ser lucrativo, imagino.

Espero que sim... espero bem que sim.

Parabns. Ento, agora, talvez possa dizer-me onde  que eu entro.

Com certeza. O processo Crale, Monsieur.
Fhilip Blake no pareceu surpreendido. Mas assumiu um ar reflexivo e

disse:

Poirot.

Sim, claro, o processo Crale...

No o aborrece, Mr. Blake? perguntou, ansiosamente, Hercule
Poirot.
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Bem, quanto a isso Philip Blake encolheu os ombros, no adianta guardar ressentimento contra uma coisa 
a que j no se tem o poder de pr cobro. O julgamento da Caroline Crale  do domnio pblico. Qualquer 
pessoa pode escrever sobre ele. No serve de nada eu objectar. De certo modo... no me importo de dizer-
lhe... desagrada-me bastante. O Amyas Crale era um dos meus melhores amigos. Lamento que toda essa 
histria repulsiva tenha de ser novamente desenterrada. Mas so coisas que acontecem.

 filsofo, Mr Blake?

No, no Apenas tenho experincia suficiente para no malhar em ferro frio. Estou convencido de que o 
senhor o far menos agressivamente do que muitos outros.

Pelo menos, espero escrever com subtileza e bom gosto observou Poirot.

Philip Blake emitiu uma gargalhada sonora, mas sem denotar ter achado graa. D-me vontade de rir ouvi-lo 
dizer isso

Estou genuinamente interessado, Mr. Blake, garanto-lhe. No se trata apenas de uma questo de dinheiro, 
no meu caso. Pretendo efectivamente recriar o passado, para sentir e ver as ocorrncias que tiveram lugar, 
para ver para l do bvio e visualizar as ideias e os sentimentos dos intervenientes no drama

No sei se houve muita subtileza na histria disse Philip Blake. Foi tudo muito evidente. Cime feminino em 
bruto, foi o que foi e mais nada.

Interessar-me-ia muitssimo, Mr Blake, se me falasse das suas prprias reaces ao sucedido.

Philip Blake disse, bruscamente exaltado, a cor subindo-lhe s faces

Reaces, reaces! No fale com tanta presuno. Eu no me limitei a ficar ali e a reagir. Parece que no 
entende isso, meu amigo... oua bem, o meu amigo tinha sido assassinado... envenenado! E se eu tivesse 
agido mais depressa, poderia t-lo salvo.

Como  que chega a essa concluso, Mr. Blake?

Assim. Depreendo que j leu os factos do processo? Poirot anuiu. Muito bem. Pois nessa manh, o meu 
irmo Meredith telefonou-me. Estava num grande estado de agitao. Tinha desaparecido uma das suas 
infernais infuses... e era uma infuso relativamente mortfera. E que fiz eu?

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Disse-lhe que aparecesse para falarmos do assunto. Para decidirmos qual a melhor atitude a tomar. Decidir 
qual a melhor atitude a tomar. Surpreendeme agora como pude ser to idiota, to cheio de hesitaes! 
Devia ter percebido que no havia tempo a perder. Devia ter ido imediatamente ter com o Amyas e t-lo 
avisado. Devia ter dito: A Caroline surripiou um dos venenos fabricados pelo Meredith e  melhor que tu e a 
Elsa se acautelem. Blake levantou-se. Na sua excitao, comeou a dar grandes passadas de um lado 
para o outro.

Valha-me Deus, homem. Voc julga que eu no ruminei sobre isto mil vezes na minha cabea? Eu sabia. 
Tive a oportunidade de salv-lo... e perdi tempo...  espera do Meredith! Porque  que no tive o bom senso 
de perceber que a Caroline no teria quaisquer escrpulos ou hesitaes. Ela tinha pegado na mistela para 
us-la... e, sejamos claros, us-la-ia na primeira oportunidade. No ia ficar  espera que o Meredith desse 
pela falta dela. Eu sabia... claro que sabia... que o Amyas corria perigo de morte... e no fiz nada!

Creio que se culpa injustificadamente, Monsieur. No disps de muito tempo...

O outro interrompeu-o:

Tempo? Tempo no me faltou. Tive muitas possibilidades de aco. Podia ter ido ter com o Amyas, como 
disse... mas havia, naturalmente a hiptese de ele no acreditar em mim. O Amyas no era o tipo de 
homem que acreditasse facilmente que corria perigo. Ter-se-ia rido da ideia. E nunca compreendeu 
inteiramente o gnero de demnio que a Caroline era. Mas podia ter ido ter com ela. Podia ter dito: Eu sei 
o que andas a tramar. Sei o que planeias fazer. Mas se o Amyas ou a Elsa morrerem envenenados com 
conina, tu hs-de morrer na forca!. Isso t-la-ia impedido. Ou podia ter contactado a polcia. Oh! Houve 
vrias coisas que eu podia ter feito... mas preferi deixar-me influenciar pelos mtodos morosos e prudentes 
do Meredith.
Temos de ter a certeza... discutir o assunto... determinar sem sombra de dvidas quem poder t-lo 
levado... Grande imbecil... nunca tomou uma deciso rpida na vida! Tem sorte, porque, sendo o filho mais 
velho, tem uma Propriedade onde viver. Se alguma vez tivesse tentado ganhar dinheiro, teria Perdido tudo o 
que tinha at ao ltimo tosto.

O senhor no tinha qualquer dvida sobre quem tinha levado o veneno? perguntou Poirot.

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Claro que no. Percebi imediatamente que devia ter sido a Caroline.  que eu conhecia muito bem a 
Caroline.

Isso  muito interessante comentou Poirot. Gostava de saber Mr. Blake, que espcie de mulher era 
Caroline Crale.

Philip Blake respondeu bruscamente:

No era a inocente ofendida que as pessoas julgaram que era na altura do julgamento!

Ento que era?

Blake sentou-se novamente e disse, com gravidade:

Quer mesmo saber?

Gostaria muito de saber, sim.

Caroline era ruim. Ruim dos ps  cabea. Repare, era uma pessoa encantadora. Tinha esse tipo de 
brandura de modos que engana completamente os outros. Exibia um ar frgil e desamparado que tocava o 
lado cavalheiresco das pessoas. Por vezes, quando leio alguma passagem histrica, imagino que Mary, 
Rainha da Esccia, deve ter sido um pouco como ela. Sempre meiga, infeliz e magntica, mas, no fundo, 
uma mulher fria e calculista, uma mulher cheia de estratagemas que planeou o assassnio de Darnley e 
saiu impune. A Caroline era assim... uma conspiradora fria e calculista. E tinha um gnio terrvel.

No sei se lhe disseram... no  um aspecto vital do julgamento, mas revela quem ela era... o que ela fez 
 irm, quando esta era beb? Tinha cimes, compreende. A me tinha voltado a casar e todas as 
atenes e afectos iam para a pequena Angela. Era uma situao que a Caroline no conseguia suportar. 
Tentou matar a beb com um p-de-cabra... esmagar-lhe a cabea. Felizmente, o golpe no foi fatal. Mas 
foi um acto absolutamente horrvel.

Sim, de facto.

Bem, era essa a verdadeira Caroline. Tinha de ser sempre a primeira. Era uma coisa que ela simplesmente 
no conseguia tolerar... no ser a primeira. E dentro dela escondia-se um demnio frio e egosta, capaz de 
despertar e ser levado a violentos extremos.

Parecia impulsiva, sabe, mas era realmente calculista. Quando ia a Alderbury, ainda jovem, tirou-nos o 
retrato a todos e fez os seus planos. No tinha fortuna pessoal. Eu nunca estive na corrida... filho mais 
novo ainda

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um caminho a percorrer na vida. (Tem graa, porque hoje em dia provavelmente estou em posio de 
comprar os bens do Meredith e do Crale, se este fosse vivo!) Durante algum tempo, considerou o Meredith, 
mas acabou por se concentrar no Amyas. O Amyas herdaria Alderbury e, embora com a propriedade no 
viesse muito dinheiro, ela compreendeu que o seu talento como pintor era realmente uma coisa fora do 
vulgar. Apostou em que ele no era simplesmente um gnio, mas que seria tambm um sucesso 
financeiro.

E ganhou a aposta. No tardou que o Amyas fosse publicamente aclamado. No era exactamente um 
pintor em voga... mas o seu gnio era reconhecido e os seus quadros vendiam. Viu alguma das suas 
pinturas? Tenho c uma. Venha ver.

Indicou o caminho at  sala de jantar e apontou para a parede do lado esquerdo.

A tem. Esse  o Amyas.

Poirot observou em silncio. Ocorreu-lhe, com um pasmo renovado, que um homem podia realmente imbuir 
um tema convencional de uma magia muito prpria. Uma jarra de rosas sobre uma mesa de mogno polido. 
Um lugar-comum velho e estafado. Como  que Amyas Crale conseguia fazer as suas rosas fulgurar e arder 
com uma vida tumultuosa e quase obscena? A madeira polida da mesa tremeluzia e assumia uma vida 
consciente. Como explicar a emoo que o quadro suscitava? Porque era emocionante. As propores da 
mesa teriam abalado o inspector-chefe Hale, que se teria queixado de que no havia rosas, em lado 
nenhum, com aquela forma ou cor. E, a partir da, ter-se-ia interrogado vagamente sobre a razo por que as 
rosas no lhe enchiam as medidas, e as mesas de mogno redondas t-lo-iam incomodado, por nenhuma 
razo identificvel.

Poirot emitiu um leve suspiro, murmurando:

Sim... est todo a.

Blake indicou novamente o caminho de volta.

Eu, por mim, nunca entendi muito de arte resmungou. No sei por que razo gosto tanto de admirar aquele 
quadro, mas gosto. ... ora, que Se lixe,  excelente.

Poirot assentiu, enfaticamente.

Blake ofereceu um cigarro ao seu convidado e acendeu um para si.

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E foi este homem disse, o homem que pintou aquelas rosas... O homem que pintou a Mulher com 
Shaker... o homem que pintou essa espantosa e dolorosa Natividade, foi este o homem cuja vida foi 
ceifada na flor da idade, o homem que foi privado de uma vida viosa e intensa, por causa de uma mulher 
vingativa e maldosa!

Fez uma pausa.

Dir que sou amargo... que tenho preconceitos injustificados contra a Caroline. Ela era encantadora... eu 
prprio o senti. Mas sabia... sempre soube... quem era a verdadeira mulher sob essa capa. E essa mulher, 
M. Poirot, era ruim. Era cruel e malfica e uma oportunista!

E, contudo, houve quem me dissesse que Mrs. Crale aturou muitas contrariedades, durante a sua vida de 
casada?

Sim, e alardeou o facto alto e bom som a quem a quis ouvir! Sempre a mrtir! Coitado do Amyas. O seu 
casamento foi um inferno prolongado... ou antes, teria sido, se no fosse o seu talento excepcional. A sua 
arte, compreende... foi uma coisa que ele sempre teve. Era uma evaso. Quando pintava, no queria saber, 
afastava a Caroline e o azucrinar permanente e as brigas e as quezlias que no tinham fim. Ela deleitava-
se com aquilo. Discutir estimulava-a, na minha opinio. Era uma escapatria. Podia dizer todas as coisas 
duras, amargas e ofensivas que lhe apetecia dizer. Depois de uma discusso, ela ronronava positivamente 
de prazer... saa com o ar luzidio e bem nutrido de um gato. Mas fatigava-o. Ele queria paz... repouso... 
uma vida tranquila. Claro que um homem assim nunca devia casar... no est talhado para a vida familiar. 
Um homem como Crale devia ter aventuras amorosas sem criar vnculos. Os vnculos acabam por 
desgast-lo.

Ele fazia-lhe confidncias?

Bem, ele sabia que eu era um amigo dedicado. Dava-me a entender certas coisas. No se queixava. No 
era esse gnero de homem. Por vezes, dizia: Diabos levem as mulheres!. Ou dizia: Nunca te cases, 
meu amigo. Espera pelo inferno na outra vida.

Sabia da sua ligao com Miss Greer?

Certamente... pelo menos, assisti ao seu nascimento. Ele disse-me que tinha conhecido uma rapariga 
maravilhosa. Disse que era diferente das pessoas que tinha conhecido. No  que eu prestasse muita 
ateno. O Amyas estava sempre a conhecer mulheres diferentes. Normalmente, um ms

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depois,
ficava a olhar-nos esgazeado, quando falvamos nelas, sem saber a quem nos referamos! Mas esta Elsa 
Greer era realmente diferente. Compreendi isso, durante a minha estadia em Alderbury. Ela tinha-o 
apanhado por completo, sabe. Tinha o desgraado praticamente na mo.

Tambm no gostava de Elsa Greer?

No, no gostava. Era definitivamente uma criatura voraz. Tambm

ela queria possuir o corpo e a alma de Crale. Mas, mesmo assim, penso que ela teria sido melhor para ele 
do que a Caroline. Imagino que o teria deixado em paz, depois de t-lo no papo. Ou talvez se cansasse 
dele e fosse atrs de outro qualquer. O melhor para o Amyas teria sido estar totalmente livre do estorvo que 
eram as mulheres.

Mas, ao que parece, no era essa a sua propenso. Philip Blake disse com um suspiro:

O estouvado estava sempre a envolver-se com uma ou outra mulher. E, no entanto, de certo modo, as 
mulheres significavam realmente muito pouco para ele. As duas nicas mulheres que, de facto, 
representaram alguma coisa na sua vida foram a Caroline e a Elsa.

Ele gostava da pequena? perguntou Poirot.

Da Angela? Oh, todos gostvamos da Angela. Era to divertida. Estava sempre pronta a alinhar em tudo. 
Que vida a daquela maldita preceptora que ela tinha. Sim, o Amyas gostava da Angela, sim... mas, por 
vezes, ela ia longe de mais e a ele ficava realmente zangado com ela... e depois a Caroline interferia... a 
Caro tomava sempre o partido da Angela, o que desesperava completamente o Amyas. Ele detestava que a 
Caro tomasse o partido da Angela contra ele. Havia uma certa dose de cime pelo meio, compreende. O 
Amyas tinha cimes da forma como a Caro punha sempre a Angela em primeiro lugar e fazia tudo por ela. 
E a Angela tinha cimes do Amyas e revoltava-se contra os seus modos prepotentes. Foi ele que decidiu 
que ela devia entrar para o colgio no Outono seguinte e ela ficou furiosa. No, julgo eu, Por no gostar da 
ideia do colgio, creio que ela queria realmente ir... mas eram os processos despticos com que o Amyas 
resolvia as coisas, abruptamente, que a enfureciam. Para se vingar, pregava-lhe todo o gnero de partidas- 
Uma vez, ps dez lesmas na cama dele. No geral, penso que o Amyas tinha razo. Tinha chegado a altura 
de ela ser disciplinada. Miss Williams era

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muito competente, mas at ela confessou que comeava a no ter mo na Angela.

Fez uma pausa.

Quando perguntei se o Amyas gostava da pequena, referia-me  sua prpria filha disse Poirot.

Ah, a pequena Carla? Sim, ela era muito acarinhada. Ele gostava de brincar com ela, quando estava para a 
virado. Mas o seu afecto por ela no o teria impedido de casar com a Elsa, se  a isso que se refere. No 
nutria esse tipo de sentimento pela menina.

Caroline Crale era muito apegada  filha?

Uma espcie de espasmo distorceu o rosto de Philip, que disse:

No posso afirmar que no fosse uma boa me. No, no posso afirmar isso.  a nica coisa...

Sim, Mr. Blake?

Philip disse, pausada e penosamente:

 a nica coisa que eu realmente... lamento... nesta histria. A ideia dessa criana. Um passado to 
trgico no princpio da vida. Mandaram-na para o estrangeiro, para casa da prima do Amyas e do marido. 
Espero... espero sinceramente... que tenham conseguido esconder-lhe a verdade.

Poirot abanou a cabea e disse:

A verdade, Mr. Blake, tem o hbito de se dar a conhecer. Mesmo ao fim de muitos anos.

O corretor murmurou: No sei.

No interesse da verdade, Mr. Blake prosseguiu Poirot, vou pedir-lhe que faa uma coisa.

O que ?

Vou pedir-lhe que ponha por escrito um relato preciso do que aconteceu, durante esses dias, em Alderbury. 
Isto , vou pedir-lhe que escreva um relato completo do assassnio e das circunstncias que o rodearam.

Mas, meu caro amigo, ao fim deste tempo todo? De certeza que vou ser desesperadamente impreciso.

No necessariamente.

Com toda a certeza.

No, para comear, com a passagem do tempo, a mente retm os aspectos essenciais e rejeita as 
questes secundrias.

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Ah! Quer dizer uma simples viso geral?
De maneira nenhuma. Quero dizer um relato minucioso e consciencioso de cada ocorrncia, tal como se 
passou, e de todas as conversas de que conseguir lembrar-se.

E imagine que as recordo incorrectamente?

Pode frase-las, pelo menos, o melhor que a sua memria permitir. Poder haver lacunas, mas isso  
inevitvel.

Blake olhou-o com curiosidade.

Mas qual  a ideia? Os arquivos da polcia registaram tudo com muito mais rigor.

No, Mr. Blake. Estamos agora a falar do ponto de vista psicolgico. Eu no pretendo factos descarnados. 
Pretendo a sua prpria seleco dos factos. O tempo e a sua memria so responsveis por essa 
seleco. Poder-se-o ter feito coisas, trocado palavras, que eu nunca encontraria nos arquivos da polcia. 
Coisas e palavras que o senhor nunca mencionou, porque as julgou irrelevantes, talvez, ou porque preferiu 
no as repetir.

Esse meu relato  para ser publicado? perguntou Blake abruptamente.

Com certeza que no.  para minha consulta exclusiva. Para me ajudar a fazer as minhas prprias 
dedues.

E compromete-se a no citar nada sem o meu consentimento?

Absolutamente.

Hum disse Philip Blake. Sou um homem muito ocupado, M. Poirot.

Estou consciente de que envolver tempo e maada. Estou disposto a negociar consigo uma... 
remunerao razovel.

Instalou-se um breve silncio. Em seguida, Philip Blake disse inesperadamente:

No, se o fizer... ser gratuitamente.
- E f-lo-?

Lembre-se disse Philip, em tom de advertncia que no respondo pela exactido da minha memria.

Nesse ponto, estamos perfeitamente entendidos. Nesse caso disse Philip Blake, acho que at terei prazer 
em fazlo. Sinto que o devo... de algum modo... ao Amyas Crale.

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CAPTULO VII

ESTE PORQUINHO FICOU EM CASA

Hercule Poirot no era homem para negligenciar pormenores.

A sua abordagem a Meredith Blake foi cuidadosamente pensada. Meredith Blake era, estava j certo, uma 
pessoa com quem teria de lidar de forma muito diferente de Philip Blake. Com ele, tcticas precipitadas 
no produziriam resultados. O assalto devia ser vagaroso.

Hercule Poirot sabia que s existia uma maneira de penetrar na fortaleza. Teria de abordar Meredith Blake 
com as credenciais adequadas. Essas credenciais deviam ser sociais e no profissionais. Felizmente, ao 
longo da sua carreira, Hercule Poirot tinha feito amigos em muitos condados. O Devonshire no era 
excepo. Sentou-se para rememorar os recursos que possua no Devonshire. Ento descobriu duas 
pessoas que eram conhecidas ou amigas de Mr. Meredith Blake. Apareceu-lhe, portanto, munido de duas 
cartas, uma de Lady Mary Lytton-Gore, uma delicada viva de meios limitados, a mais recatada das 
criaturas; e a outra de um almirante reformado, cuja famlia se fixara no condado h quatro geraes.

Meredith Blake recebeu Poirot num estado de relativa perplexidade.

Como sentia com frequncia nos ltimos tempos, as coisas j no eram o que costumavam ser. Com mil 
diabos, os detectives privados costumavam ser detectives privados sujeitos que se contratava para guardar 
presentes de casamento em copos-dagua no campo, sujeitos com quem se ia ter com algum embarao 
quando andava no ar alguma histria srdida e uma pessoa tinha de saber como lidar com ela.

Mas esta era uma carta de Lady Mary Lytton-Gore: Hercule Poirot  um amigo muito estimado e de longa 
data. Agradecia que fizesse tudo ao seu alcance para ajud-lo. E Mary Lytton-Gore no era no, 
decididamente
no era o gnero de mulher que se associa a detectives privados e a tudo o
que eles representam. E o almirante Cronshaw escreveu: Um sujeito

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excelente de absoluta confiana. Ficaria grato se o ajudasse naquilo que puder. Uma pessoa muito bem 
disposta,  capaz de lhe contar muitas histrias divertidas.

E agora c estava o homem em pessoa. Uma criatura francamente impossvel; o vesturio errado, botas de 
abotoar! um bigode incrvel! No era de todo um indivduo do seu de Meredith Blake agrado. No tinha ar de 
quem alguma vez tivesse caado ou disparado uma arma ou to-pouco jogado um jogo decente. Um 
estrangeiro.

Ligeiramente divertido, Hercule Poirot interpretou correctamente os pensamentos que passavam pela 
cabea do outro.

Havia sentido o seu interesse recrudescer consideravelmente, enquanto vinha no comboio para a regio 
oeste. Veria agora, com os seus prprios olhos, o lugar fsico onde, h tantos anos, tinham tido lugar estes 
acontecimentos.

Foi aqui, em Handcross Manor, que dois jovens irmos viveram, visitando Alderbury, onde se divertiam, 
jogavam tnis e confraternizavam com um jovem Amyas Crale e uma rapariga chamada Caroline. Foi daqui 
que Meredith partiu para Alderbury naquela manh fatal. Tinha sido h dezasseis anos. Hercule Poirot olhou 
com interesse para o homem que o confrontava com uma delicadeza algo desconfortvel.

Correspondia, em traos essenciais, quilo que tinha esperado. Na aparncia, Meredith Blake 
assemelhava-se a qualquer outro fidalgo rural ingls de meios restritos e gosto pela vida ao ar livre.

Um velho casaco pudo de tweedde Harris, um rosto agradvel, de meia-idade, curtido pelo tempo, com 
olhos de um azul algo esbatido, uma boca flcida, semi-escondida por um bigode um pouco desgrenhado. 
Poirot achou que Meredith Blake era o oposto do irmo. Os seus modos eram hesitantes, os processos 
mentais visivelmente lentos. Era como se o seu ritmo tivesse abrandado com os anos, da mesma forma 
que os do irmo se haviam acelerado.

Como Poirot j tinha calculado, era um homem que no se podia apressar. Corria-lhe nas veias a vida 
tranquila da Inglaterra rural.

Parecia, considerou o detective, bastante mais velho do que o irmo, embora, pelo que o Dr. Jonathan 
dissera, a diferena entre ambos fosse aparentemente de um par de anos.
70 

Hercule Poirot prezava-se de saber como lidar com um conservador tradicional ingls. No era o momento 
prprio para tentar parecer um deles. No,  imperativo ser estrangeiro - abertamente estrangeiro - e ser 
magnanimamente desculpado pelo facto. Claro, estes estrangeiros no conhecem muito bem as regras. 
Apertam a mo ao pequeno-almoo. Mas, no fundo,  um tipo decente...

Poirot esforou-se por criar esta impresso de si prprio. Os dois homens falaram, prudentemente, de Lady 
Mary Lytton-Gore e do almirante Cronshaw. Foram mencionados outros nomes. Felizmente, Poirot 
conhecia o primo de algum e tinha sido apresentado  cunhada de outra pessoa. Sentiu uma espcie de 
entusiasmo despontar nos olhos do proprietrio rural. O sujeito parecia conhecer as pessoas certas.

Com elegncia, insidiosamente, Poirot foi-se aproximando do propsito da sua visita. No demorou a 
contrariar a inevitvel retraco. Infelizmente, este livro ia ser escrito. Miss Crale - Miss Lemarchant, como 
agora se chamava - estava ansiosa por que ele exercesse um controle editorial criterioso. Os factos, 
tristemente, eram do domnio pblico. Mas podia melhorar-se muito a sua apresentao, para evitar ferir 
susceptibilidades. Poirot murmurou que, no passado, conseguira usar uma influncia discreta para evitar 
certas passagens demasiado retricas num livro de memrias.

A raiva fez subir a cor s faces de Meredith Blake. A sua mo tremeu um pouco, enquanto enchia o 
cachimbo. Disse, gaguejando ligeiramente:

- ...  m-mrbido como desenterram estas coisas. P-passados dezasseis anos. Porque no deixam ficar 
as coisas como esto?

Poirot encolheu os ombros, dizendo:

- Concordo consigo. Mas que quer o senhor? Existe uma procura para este gnero de coisa. E qualquer 
pessoa tem a liberdade de reconstituir um crime provado e tecer comentrios  sua volta.

- Do meu ponto de vista,  uma falta de gosto.

- Infelizmente - murmurou Poirot -, no vivemos numa poca de urbanidade... Ficaria surpreendido, M. 
Blake, se conhecesse as desagradveis publicaes que consegui... digamos... atenuar. Estou muito 
interessado em fazer tudo ao meu alcance para proteger os sentimentos de Miss Crale sobre a matria. 
71Meredith Blake murmurou: A pequena Carla! Essa menina! Uma mulher adulta. At custa a crer.

Eu sei. O tempo voa, no  verdade?

Meredith Blake suspirou e disse: Demasiado depressa.

Como deve ter visto na carta de Miss Crale que lhe entreguei disse Poirot, ela est muito ansiosa por saber 
o mximo possvel sobre os tristes acontecimentos do passado.

Meredith Blake disse, levemente irritado:

Porqu? Para qu desenterrar tudo novamente? Seria muito melhor esquecer o que se passou.

O senhor diz isso, Mr. Blake, porque conhece muito bem o passado. Lembre-se que Miss Crale nada sabe. 
Melhor dizendo, conhece apenas a histria que consta dos registos oficiais.

Meredith Blake estremeceu e disse:

Sim, j me esquecia. Pobre criana. Que posio terrvel a dela. O choque de saber a verdade. E depois... 
aqueles relatrios insensveis e cruis sobre o julgamento.

Nunca  feita justia  verdade disse Hercule Poirot num simples relato jurdico. As coisas que importam 
so as que so omitidas. As emoes, os sentimentos... o carcter dos intervenientes no drama. As 
circunstncias atenuantes...

Fez uma pausa e o outro homem falou entusiasticamente, como um actor a quem tivesse sido dada a 
deixa.

Circunstncias atenuantes!  precisamente isso. Se alguma vez houve circunstncias atenuantes, foi neste 
processo. O Amyas Crale era um velho amigo... a sua famlia e a minha eram amigas h geraes, mas  
preciso admitir que a sua conduta era, francamente, escandalosa. Era um artista, claro, e presumivelmente 
isso explica tudo. Mas l est... ele permitiu que se avolumasse um conjunto extraordinrio de situaes. 
Era uma posio que nenhum homem normal e decente podia ter, por um momento, considerado.

Esse seu comentrio disse Hercule Poirot interessa-me. J me tinha sentido intrigado com essa situao. 
No  maneira de um homem bem-educado, um homem bem vivido, conduzir a sua vida.

O rosto magro e hesitante de Blake iluminou-se vivamente.

Sim disse. Mas a questo  que o Amyas nunca foi um homem

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normal! Era um pintor, compreende, e para ele a pintura estava em primeiro lugar... por vezes, da forma 
mais extraordinria, acredite! Eu pessoalmente no compreendo estes ditos artistas... nunca compreendi. 
Compreendia Crale um pouco, porque, naturalmente, tinha-o conhecido durante toda a minha vida. 
Vnhamos de famlias da mesma classe. E, sob muitos aspectos, Crale saa aos seus... era unicamente no 
captulo da arte que ele no encaixava nos padres normais. No era, de maneira nenhuma, amador, 
compreende? Era de primeira gua... primeirssima gua. H quem diga que era um gnio. Talvez com 
razo. Mas, no fundo, sempre foi o que eu descrevo como desequilibrado. Quando pintava um quadro... 
nada mais importava, no admitia que nada interferisse. Era como um homem num sonho. Completamente 
obcecado pelo que estava a fazer. S quando a tela estava concluda  que ele saa da sua obsesso e 
comeava a retomar o fio da vida normal.

Olhou interrogativamente para Poirot e este assentiu.

Vejo que me compreende. Bom, isso explica, creio eu, por que razo surgiu esta situao em particular. 
Ele estava apaixonado por essa rapariga. Queria casar com ela. Estava disposto a abandonar a mulher e a 
filha por ela. Mas tinha comeado a pint-la aqui e queria acabar o quadro. E o facto de a situao ser 
absolutamente insustentvel para as duas mulheres implicadas, parece no lhe ter ocorrido.

Alguma delas compreendia o seu ponto de vista?

Sim, sim... num determinado sentido. A Elsa compreendia, suponho. Era uma entusiasta fervorosa da sua 
pintura. Mas era uma posio difcil para ela... naturalmente. E quanto  Caroline...

Calou-se. Poirot disse:

Caroline... sim, efectivamente.

Meredith Blake, falando com alguma dificuldade, disse:

A Caroline... eu sempre... enfim, sempre tinha gostado muito da Caroline. Houve um tempo em que... em 
que tive esperana de vir a casar com ela. Mas essa esperana morreu  nascena. Contudo, permaneci, 
se  que posso exprimir-me assim, dedicado ao seu servio.

Poirot anuiu pensativamente. Aquela frase ligeiramente antiquada tipificava, na sua opinio, o homem que 
tinha diante de si. Meredith Blake era o tipo de homem que se dedicaria prontamente a uma devoo 
romntica e

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honrosa. Serviria a sua dama fielmente e sem esperana de retribuio. Sim, condizia perfeitamente com o 
seu carcter. Pesando cuidadosamente as palavras, disse:

Deve ter sido uma... atitude que lhe desagradou... por causa dela?

Claro. Desagradou e muito. Eu... cheguei mesmo a protestar com Crale a propsito do assunto.

Quando foi isso?

Por acaso, no dia anterior... antes de tudo acontecer. Vieram c tomar ch, compreende. Chamei Crale  
parte e... falei-lhe do assunto. Disse mesmo, lembro-me muito bem, que no era justo para nenhum deles.

Ai disse isso?

Sim. Parecia-me que ele no se dava conta, compreende?

Possivelmente no dava.

Disse-lhe que ele estava a colocar a Caroline numa posio completamente insustentvel. Se era sua 
inteno casar com a rapariga, no devia t-la hospedada em casa e... enfim... alarde-la na cara da 
Caroline. Era, disse eu, um insulto insuportvel.

Poirot perguntou, com curiosidade: E que respondeu ele a isso? Meredith Blake respondeu com 
repugnncia:

Disse: A Caroline tem de gramar. Hercule Poirot ergueu as sobrancelhas.

No foi disse uma resposta muito simptica.

Eu achei-a abominvel. Perdi as estribeiras. Disse-lhe que, j que no tinha considerao pela Caroline, 
sem dvida que no se importava de faz-la sofrer, mas, disse eu, e a rapariga? No tinha ele percebido 
que era uma situao medonha para ela? A sua resposta foi que a Elsa devia gramar tambm!

E depois continuou: Parece que no compreendes, Meredith, que este quadro que eu estou a pintar  a 
melhor coisa que j fiz.  bom, garanto-te. E um par de mulheres quezilentas e rodas de cime no vo 
dar cabo dele... no vo, com mil diabos!.

Era intil falar com ele. Disse-lhe que ele parecia ter abandonado todo o sentido normal de decncia. A 
pintura, disse eu, no era tudo. A interrompeu-me e disse: Ah, mas para mim .

Continuei zangado. Disse que a forma como sempre tratara a Caroline

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era uma autntica vergonha. A vida dela com ele sempre fora um inferno. Ele disse que sabia disso e que 
lamentava. Lamentava! Disse: Eu sei, Merry, tu no acreditas... mas  a verdade. Tenho tornado a vida  
Caroline num inferno e ela tem sido uma santa. Mas acho que ela tinha conscincia daquilo em que se 
estava a meter. Expliquei-lhe, com toda a sinceridade, que tipo de indivduo egosta e licencioso eu era.

Fiz-lhe ver, com grande veemncia, que no devia destruir o seu casamento. Havia a criana a considerar 
e tudo o mais. Disse que era capaz de compreender que uma rapariga, como a Elsa, desse volta  cabea 
dum homem, mas que, at por ela, ele devia acabar com a relao. Ela era muito nova. Estava a meter-se 
naquilo irreflectidamente, mas podia lament-lo amargamente mais tarde. Pedi-lhe que casse em si, 
comeasse do zero e voltasse para a mulher.

E que disse ele?

Limitou-se a olhar... disse Blake embaraado. Deu-me uma palmada no ombro e disse: s um tipo 
decente, Merry. Mas s demasiado sentimental. Espera que eu acabe o quadro e vais admitir que eu tinha 
razo.

Eu disse: Que se lixe o quadro!. E ele sorriu e retorquiu que nem todas as mulheres neurticas de 
Inglaterra juntas seriam capazes disso. Ento eu disse que teria sido mais decente ter poupado a Caroline 
a toda a situao, at o quadro estar terminado. Ele disse que a culpa no era sua. Tinha sido a Elsa que 
insistira em despejar o saco. Eu perguntei porqu. E ele respondeu que ela considerava que, de outro 
modo, no seria correcto. Queria que tudo ficasse claro e que no houvesse segredos. Bem,  claro que, 
num certo sentido, era uma coisa compreensvel e a rapariga merecia respeito por isso. Por mais reprovvel 
que fosse o seu comportamento, pelo menos, queria ser honesta.

A honestidade pode causar muita dor e mgoa acrescidas observou Hercule Poirot.

Meredith Blake olhou-o com uma expresso de dvida. No era um sentimento que lhe agradasse muito. 
Suspirou: - Foi... uma poca trgica para todos ns.

A nica pessoa que no parece ter sido afectada foi Amyas Crale comentou Poirot.

E porqu? Porque era um egosta consumado. Parece que estou a

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v-lo. A sorrir-me, enquanto dizia: No te preocupes, Merry. Tudo se vai compor pelo melhor.

O incurvel optimista murmurou Poirot.

Era o tipo de homem que no levava as mulheres a srio disse Meredith Blake. Eu podia ter-lhe dito que a 
Caroline estava desesperada.

Ela disse-lhe que estava?

No explicitamente. Mas hei-de sempre ver a sua cara naquela tarde. Branca e tensa, com uma espcie de 
jovialidade desesperada. Conversava e ria muito. Mas os olhos... revelavam uma espcie de dor angustiada 
que era a coisa mais comovente que alguma vez vi. E era, alm do mais, uma criatura muito meiga.

Hercule Poirot olhou-o, por uns momentos, sem falar. Claramente, o homem  sua frente no considerava 
uma incongruncia falar assim de uma mulher que, no dia seguinte, tinha intencionalmente assassinado o 
marido. Meredith Blake prosseguiu. Agora tinha ultrapassado a sua inicial hostilidade provocada pela 
suspeita. Hercule Poirot tinha o dom de ouvir. Para homens como Meredith Blake, reviver o passado possui 
um fascnio concreto. Falava agora quase mais consigo mesmo do que com o seu visitante.

Suponho que devia ter suspeitado de qualquer coisa. Foi a Caroline quem desviou a conversa para... para o 
meu passatempo. Era, devo confessar, um entusiasmo meu. Sabe, os herbanrios ingleses de outros 
tempos constituem um estudo muito interessante. Existe um sem-nmero de plantas que eram usadas 
antigamente na medicina e que agora desapareceram da Farmacopeia oficial. E  realmente espantoso 
como uma simples mistela de uma coisa ou outra opera verdadeiros milagres. Em metade dos casos, os 
mdicos so desnecessrios. Os Franceses compreendem muito bem estas coisas... algumas das suas 
tisanas so de primeira categoria. Agora estava completamente lanado a discorrer sobre o seu 
passatempo.

O ch de dente-de-leo, por exemplo, uma infuso fabulosa. E uma fervura de bagas de roseira-brava... 
reparei outro dia, algures, que est novamente a entrar na moda no seio da profisso mdica. Ah, tenho de 
confessar, sim, que as minhas infuses costumavam dar-me imenso prazer. Colher as plantas na altura 
prpria, sec-las, macer-las, tudo. Cheguei at a tornar-me supersticioso, em certas situaes, e colhia 
as minhas razes no pico da lua cheia ou seguia outros mtodos aconselhados pelos antigos. Lembro-me 
de

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que, nesse dia, fiz aos meus convidados uma exposio especial sobre a ansarina malhada. Floresce de 
dois em dois anos. Colhem-se os frutos, quando comeam a amadurecer, imediatamente antes de ficarem 
amarelos. A conina, sabe,  uma droga que foi posta de lado... no creio que exista qualquer preparado 
oficial com ela na ltima Farmacopeia... mas eu provei a sua utilidade na cura da tosse convulsa, e da 
asma tambm, alis...

- Falaram de tudo isso no seu laboratrio?

- Sim, mostrei-lhes as instalaes, expliquei-lhes as diferentes drogas, a valeriana e a forma como atrai os 
gatos... basta-lhes cheirar uma vez! Depois eles fizeram perguntas acerca da beladona e eu falei-lhes desta 
e da atropina. Mostraram-se muito interessados.

- Eles? Quem  que a palavra abrange?

Meredith Blake pareceu levemente surpreendido, como se se tivesse esquecido de que o seu ouvinte no 
possua um conhecimento em primeira mo da cena.

- Ah, o grupo todo. Deixe-me ver, o Philip estava presente, o Amyas tambm, e a Caroline, claro. A Angela 
e a Elsa Greer.

- Mais ningum?

- No... julgo que no. Tenho a certeza, alis - Blake olhou-o com curiosidade. - Quem mais havia de estar? 
Pensei que talvez a preceptora...

- Ah, compreendo. No, ela no esteve presente nessa tarde. Acho que me esqueci do nome dela. Boa 
pessoa. Levava muito a srio as suas obrigaes. Ao que sei, a Angela dava-lhe imensas consumies.

- Por que razo? - Bem, ela era boa rapariga, mas tinha o diabo no corpo. Sempre metida em sarilhos. Um 
dia, enfiou uma lesma ou coisa assim pelas costas do Amyas, quando ele estava concentrado a pintar. Ele 
foi aos arames. Deu-lhe uma corrida de primeira. Foi depois disso que insistiu nessa ideia do colgio.

- Queria mand-la para um colgio?

- Sim. No digo que no lhe tivesse afeio, mas s vezes achava-a um estorvo. E penso... sempre 
pensei...

-Sim?

- Que tinha cimes.  que a Caroline era uma escrava da Angela. Num
77certo sentido, talvez, a Angela, para ela, estava em primeiro lugar... o que no agradava ao Amyas. Havia 
uma razo, claro. No vou entrar nisso, mas... Poirot interrompeu.

A razo era que a Caroline Crale se sentia culpada por um acto que tinha desfigurado a rapariga?

Ah, tem conhecimento? exclamou Blake. No ia mencionar o assunto. guas passadas. Mas, sim, a 
causa da sua atitude era essa, na minha opinio. Dava a ideia que ela sentia permanentemente que nada 
que pudesse fazer seria de mais para... enfim, para compens-la.

Poirot aquiesceu, pensativamente, perguntando:

E a Angela? Guardava rancor  sua meia-irm?

No, no, no fique com essa ideia. A Angela era muito dedicada  Caroline. Estou certo de que nunca 
ligou a essa histria antiga. A Caroline  que no era capaz de perdoar a si prpria.

A Angela aceitou pacificamente a ideia de ir para um colgio interno?

No, no aceitou. Ficou furiosa com o Amyas. A Caroline tomou o partido dela, mas o Amyas tinha tomado 
uma deciso irreversvel. Apesar do seu mau gnio, o Amyas era um homem brando em quase tudo, mas, 
quando lhe chegava a mostarda ao nariz, toda a gente tinha de ceder. A Caroline e a Angela tiveram de 
transigir.

Ela ia para o colgio quando?

No Outono... recordo que estavam a preparar-lhe o equipamento. Imagino que, se no se tivesse dado a 
tragdia, ela teria partido uns dias mais tarde. Ouvi qualquer coisa a propsito de ela fazer as malas na 
manh desse dia.

E a preceptora? perguntou Poirot.

Que quer dizer, a preceptora?

Como  que ela recebeu a ideia? Ficava sem emprego, no  assim?

Sim... bem, suponho que seria o caso. A pequena Carla costumava ter algumas aulas, mas  claro que s 
tinha... quantos anos? Seis ou por a. Tinha uma ama. Eles no tencionavam manter a Miss Williams por 
causa dela.  isso, o nome, Williams.  curioso como as coisas nos vm  ideia, quando comeamos a 
falar nelas. Sim,  um facto. Agora deu um mergulho, no  verdade, um

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mergulho no passado? Revive as cenas... as palavras que as pessoas disseram, os gestos, as expresses 
dos seus rostos. Meredith Blake disse, pausadamente:

Num determinado sentido,  verdade... Mas h lacunas, sabe... Faltam grandes fragmentos. Lembro-me, 
por exemplo, do choque que tive quando soube, pela primeira vez, que o Amyas ia deixar a Caroline... mas 
no me recordo se foi ele quem mo disse ou se foi a Elsa. Lembro-me de discutir com a Elsa acerca do 
assunto, quero dizer, de tentar mostrar-lhe que era uma coisa indecente. E ela limitou-se a rir-se na minha 
cara, daquele seu modo desprendido, e a dizer que eu era um bota-de-elstico. Bem,  possvel que eu 
seja um bota-de-elstico, mas continuo a pensar que tinha razo. O Amyas tinha mulher e uma filha... era 
com elas que devia ficar.

Mas Miss Greer considerava esse ponto de vista antiquado?

Sim. Repare, h dezasseis anos, o divrcio no era aceite como uma coisa banal, como agora. Mas a Elsa 
era o gnero de rapariga que adorava ser moderna. Na sua opinio, quando duas pessoas no eram felizes 
juntas, era melhor que cada uma fosse  sua vida. Disse que o Amyas e a Caroline estavam 
constantemente pegados e que seria muito melhor para a filha no ser educada num ambiente de discrdia.

E esse argumento no o impressionou? Meredith Blake disse, pausadamente:

Dava-me a sensao que ela no sabia realmente do que falava. Debitava essas coisas... coisas que tinha 
lido em livros ou ouvido da boca dos amigos... parecia um papagaio. Ela era... no ser bonito diz-lo... 
mas era algo pattica. To jovem e to presumida. Fez uma pausa. H qualquer coisa na juventude, M. 
Poirot, que ... que pode ser... terrivelmente tocante.

Hercule Poirot disse, olhando-o com algum interesse: Sei muito bem o que quer dizer...

Falando mais consigo do que com Poirot, Blake continuou: Penso que foi, em parte, por isso que me atirei 
ao Crale. Ele era quase vinte anos mais velho do que a rapariga. No parecia justo.

Infelizmente murmurou Poirot,  raro que nos dem ouvidos. Quando uma pessoa est determinada em 
seguir um caminho, no  fcil desvi-la dele.

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 bem verdade disse Meredith Blake. O seu tom deixava transparecer mais azedume. A minha interferncia 
no adiantou nada. Mas, por outro lado, eu no sou uma pessoa muito convincente. Nunca fui.

Poirot lanou-lhe um breve olhar de soslaio. Interpretou aquela ligeira acidez de tom como a insatisfao de 
um homem sensvel perante a sua prpria falta de personalidade. E reconheceu interiormente a verdade do 
que Blake acabara de dizer. Meredith Blake no era pessoa para persuadir quem quer que fosse a fazer ou 
a no fazer alguma coisa. As suas tentativas bem-intencionadas seriam sempre ignoradas em geral, com 
indulgncia, sem rancor, mas definitivamente ignoradas. No teriam qualquer peso. Na essncia, ele era 
um homem ineficaz.

Transmitindo a impresso de mudar de um assunto penoso, Poirot disse: Continua a ter o seu laboratrio 
de remdios e estimulantes?

No.

A palavra foi proferida abruptamente; com uma rapidez quase angustiante, Meredith Blake disse, a 
expresso inflamada:

Abandonei tudo... desmantelei-o. No podia continuar com ele... como era possvel?... depois do que tinha 
acontecido.  que podia bem dizer-se que tinha sido tudo por culpa minha, compreende.

No, no, Mr. Blake, o senhor  demasiado sensvel.

No compreende? Se eu no tivesse cultivado aquelas malditas drogas. Se no tivesse chamado a ateno 
para elas, se no me tivesse vangloriado, obrigado as pessoas a ouvirem-me discorrer sobre elas, naquela 
tarde? Mas nunca imaginei... nunca me passou pela cabea... como fui capaz?

Sim, na verdade.

Mas continuei a arengar sobre elas. Orgulhoso dos meus insignificantes conhecimentos. Cego, tonto 
presumido. Mencionei aquela maldita conina. Cheguei mesmo, na minha tontice, a lev-los  biblioteca e a 
ler-lhes a passagem de Fdon que descreve a morte de Scrates. Um belo texto, sempre o admirei. Mas 
nunca mais deixou de me perseguir.

Encontraram impresses digitais no frasco de conina? perguntou Poirot.

As dela.

De Caroline Crale?

Sim.

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As suas no?

No.  que eu no manuseei o frasco. Limitei-me a indic-lo. Mas decerto que tambm o tinha manuseado.

Sim, claro, mas de vez em quando limpava o p aos frascos... no

autorizava os criados a entrarem ali, naturalmente... e tinha-o feito cerca de quatro ou cinco dias antes.

Mantinha o laboratrio fechado  chave?

Permanentemente.

Quando  que a Caroline Crale tirou a conina do frasco? Meredith Blake respondeu com relutncia:

Ela foi a ltima a sair. Lembro-me de ter chamado por ela e ela apareceu, um pouco esbaforida. Tinha as 
faces ligeiramente coradas, e os olhos arregalados e brilhantes. Oh, meu Deus, parece que estou a v-la 
agora.

Conversou com ela durante essa tarde? perguntou Poirot. Quero dizer, discutiu a situao entre ela e o 
marido?

Blake disse, pausadamente, num tom de voz baixo:

No directamente. Ela parecia, como lhe disse, muito transtornada. A certa altura, quando estvamos mais 
ou menos sozinhos, disse-lhe: Passa-se alguma coisa, minha querida?. Ela respondeu: Passa-se 
tudo.... S queria que tivesse ouvido o desespero na sua voz. Aquelas palavras eram a verdade literal e 
absoluta. No havia volta a dar-lhe... o Amyas Crale era o mundo da Caroline. Disse ela: Perdi tudo... tudo 
acabou. Eu estou acabada, Meredith. E, a seguir, riu-se, virou-se para os outros e, subitamente, ficou 
excitadssima e alegre, de um modo artificial.

Hercule Poirot acenou com a cabea, lentamente. A sua postura lembrava a de um mandarim de porcelana.

Sim, compreendo... foi ento assim... disse ele.

Meredith Blake deu um murro inesperado com o punho. A sua voz subiu de volume, quase se 
transformando num grito:

E digo-lhe uma coisa, M. Poirot, quando a Caroline Crale disse no julgamento que tinha levado o veneno, 
juro que estava a dizer a verdade! Nessa altura, no alimentava qualquer ideia de assassnio. Garanto-lhe 
que no. Isso surgiu depois.

Tem a certeza de que surgiu realmente depois? perguntou Hercule Poirot.

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Blake olhou-o fixamente e disse:

Pode repetir? No estou a compreender...

Pergunto-lhe se tem a certeza de que a ideia de assassnio chegou realmente a surgir disse Poirot. Est 
absolutamente convencido, na sua mente, de que Caroline Crale cometeu homicdio deliberado?

Meredith Blake pareceu ter dificuldade em respirar. Mas se no... se no... est a sugerir um... enfim, um 
acidente qualquer?

No necessariamente.

Que ideia extraordinria!

Ser? O senhor disse que a Caroline Crale era uma criatura meiga. As criaturas meigas cometem 
assassnios?

Era uma criatura meiga... mas, seja como for... bem, as brigas entre eles eram muito violentas, sabe.

Ento, no era uma criatura assim to meiga?

No, era... oh, so coisas muito difceis de explicar.

Estou a tentar compreender.

A Caroline no tinha papas na lngua... tinha um modo veemente de falar. Era capaz de dizer Odeio-te. 
Quem me dera que morresses. Mas no significava nada... no implicava qualquer... aco.

Ento, na sua opinio, era completamente atpico de Mrs. Crale cometer um assassnio?

Tem uma forma extraordinria de colocar as questes, M. Poirot. A nica coisa que posso dizer...  que 
sim, parece-me atpico dela. A nica explicao que me ocorre  que a provocao foi num grau extremo. 
Ela adorava o marido. Nessas circunstncias, uma mulher  capaz... enfim... de matar.

Poirot aquiesceu. Sim, estou de acordo...

De incio, fiquei perplexo. Achava que no podia ser verdade. E no foi... se  que me est a entender... no 
foi a verdadeira Caroline quem fez aquilo.

Mas tem a certeza absoluta de que... no sentido legal... a Caroline Crale cometeu o acto?

Mais uma vez, Meredith Blake olhou-o fixamente. 

Meu caro, se no foi ela... Bem, e se no foi ela? M

82

No sou capaz de imaginar qualquer soluo alternativa. Acidente? Impossvel, de certeza.

Diria que totalmente impossvel.

E no consigo acreditar na teoria do suicdio. Tinha de ser trazida a lume, mas no convenceu ningum que 
tivesse conhecido o Crale.

Precisamente.

Ento que fica? perguntou Meredith Blake.

Poirot disse friamente: Fica a possibilidade de Amyas Crale ter sido assassinado por outra pessoa.

Mas isso  absurdo!

Acha?

Tenho a certeza. Quem havia de querer mat-lo? Quem podia t-lo matado?

O senhor est em melhor posio para saber do que eu.

No pode seriamente acreditar...

Talvez no. Mas interessa-me examinar a possibilidade. Pondere sobre ela seriamente. D-me a sua 
opinio.

Meredith ficou a olh-lo, por uns momentos, baixando, em seguida, os olhos. Decorridos alguns instantes, 
abanou a cabea e disse:

No consigo imaginar nenhuma alternativa possvel. Bem gostaria de imaginar. Se houvesse motivo para 
suspeitar de outra pessoa, seria o primeiro a acreditar na inocncia da Caroline. Mas quem mais poderia 
ser? Quem mais l estava? O Philip? Era o melhor amigo de Crale. A Elsa? Ridculo. Eu prprio? Tenho ar 
de assassino? Uma preceptora respeitvel? Dois criados antigos e dedicados? Talvez queira sugerir que a 
rapariga, a Angela, o fez? No, M. Poirot, no existe alternativa. Ningum podia ter assassinado o Amyas 
Crale, a no ser a mulher. Mas foi ele que a levou a isso. Suponho que, de algum modo, acabou por ser 
suicdio.

Querendo dizer que ele morreu em resultado das suas prprias aces e no pela sua mo?

Sim,  um ponto de vista rebuscado, talvez. Mas... bem... causa e efeito, compreende?

J alguma vez pensou, Mr. Blake perguntou Hercule Poirot, que O motivo dum crime pode quase sempre 
determinar-se atravs da anlise da Pessoa assassinada?

83

Nunca tinha propriamente... mas sim, suponho que compreendo onde quer chegar. Enquanto no 
soubermos exactamente que tipo de pessoa era a vtima disse Poirot, no podemos sequer entrever com 
clareza as circunstncias dum crime. E acrescentou:  isso que eu procuro...  o que o senhor e o seu 
irmo me ajudarem a obter... uma reconstituio do homem Amyas Crale.

Meredith Blake ignorou a ideia principal contida no comentrio. A sua ateno recaiu numa nica palavra. O 
Philip? perguntou imediatamente.

Sim.

Tambm falou com ele?

Com certeza.

Meredith Blake disse, bruscamente: Devia ter vindo falar comigo primeiro.

Sorrindo levemente, Poirot esboou um gesto de deferncia.

Segundo as leis de primogenitura, assim  disse. Sei perfeitamente que o senhor  o mais velho. Mas deve 
compreender que, vivendo o seu irmo prximo de Londres, foi mais fcil visit-lo em primeiro lugar.

Meredith Blake continuava com uma expresso carrancuda. Puxou, inquieto, pelo lbio.

Devia ter vindo falar comigo primeiro repetiu.

Desta vez, Poirot no respondeu. Esperou. Meredith no demorou a retomar o fio  conversa:

O Philip disse,  parcial? -?

Para ser franco,  um poo de parcialidade... sempre foi. Lanou um olhar breve e inquieto a Poirot. Deve 
ter tentado vir-lo contra a Caroline.

Tem assim tanta importncia, passado tanto tempo? Meredith Blake suspirou profundamente.

Eu sei. s vezes esqueo-me que j passou tanto tempo... que tudo acabou. A Caroline j no pode ser 
molestada. Mas, mesmo assim, no queria que ficasse com uma impresso errada.

E acha que o seu irmo poder ter-me dado uma impresso errada?

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Sinceramente, acho.  que... compreende... houve sempre um certo... como hei-de dizer?... antagonismo 
entre ele e a Caroline.

Porqu?

A pergunta pareceu irritar Blake, que disse: Porqu? Eu  que sei
porqu? Estas coisas acontecem. O Philip criticava-a sempre que podia. Ficou
aborrecido, creio eu, quando o Amyas casou com ela. Apesar do Amyas ser
praticamente o seu melhor amigo. Suponho que a razo era essa. Achava que nenhuma mulher estava  
altura dele. E provavelmente considerava que a influncia da Caroline arruinaria a amizade entre ambos.

E arruinou?

No, claro que no. O Amyas continuou sempre muito ligado ao Philip.- at ao fim. Estava sempre a meter-
se com ele, por ser um sovina e por estar a constituir uma empresa e por ser, em geral, um filisteu. O 
Philip no ligava. Limitava-se a sorrir e a dizer que era bom para o Amyas ter um amigo respeitvel.

Como reagiu o seu irmo ao caso com Elsa Greer?

Sabe, tenho grandes dificuldades em dizer-lhe. A sua atitude no era realmente fcil de definir. Ficou 
aborrecido, julgo, com o facto de o Amyas andar a fazer figura de parvo com a rapariga. Disse, mais do que 
uma vez, que no ia resultar e que o Amyas viria a arrepender-se amargamente. Ao mesmo tempo, tenho a 
sensao... sim, tenho definitivamente a sensao de que ficou vagamente satisfeito por ver a Caroline 
humilhada.

Foi isso realmente o que ele sentiu? perguntou Poirot, franzindo o sobrolho.

Bem, no me interprete mal. No pretendo dizer mais do que isso, que julgo que tinha esse sentimento de 
algum modo latente. No sei se ele prprio alguma vez se deu conta dele. Eu e o Philip no temos muito 
em comum, mas existe um lao, compreende, entre pessoas do mesmo sangue. Muitas vezes, um irmo 
sabe o que vai na cabea do outro.

E depois da tragdia?

Meredith Blake abanou a cabea. Perpassou-lhe o rosto um espasmo de dor.

Pobre Phil disse. Ficou terrivelmente abalado. Destroado. Era muito amigo do Amyas, compreende. Creio 
que havia um elemento de idolatria na relao. O Amyas Crale tinha a mesma idade que eu. O Philip era 
dois

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anos mais novo. E sempre admirou o Amyas. Sim.. foi um golpe enorme para ele. Ficou... ficou 
profundamente ressentido com a Caroline. Ento, pelo menos ele no teve qualquer dvida? Nenhum de 
ns teve qualquer dvida respondeu Meredith Blak. Instalou-se um silncio. Quando Blake falou, o seu tom 
denotava a tristeza irritvel de um homem fraco. Estava tudo acabado... esquecido,.e agora veio o senhor., 
desenterrar tudo...

Eu no. Caroline Crale.

Meredith olhou-o fixamente- A Caroline? Que pretende dizer?

A segunda Caroline Crale disse Poirot, observando-o.

A expresso de Meredith abrandou. Sim, pois, a criana. A pequena Carla. Eu... por um momento, 
interpretei-o mal.

Pensou que me referia  Caroline Crale original? Pensou que seria ela quem no... como hei-de dizer?... 
quem no teria descanso na sepultura?

Cale-se, homem disse Meredith Blake, estremecendo.

Sabe que ela escreveu  filha... as ltimas palavras que escreveu... dizendo que estava inocente?

Meredith olhou-o intensamente. Num tom de absoluta incredulidade, perguntou- A Caroline escreveu isso?

Escreveu. Poirot fez uma pausa e acrescentou: Surpreende-o?

Surpreend-lo-ia a si, se a tivesse visto no tribunal. Uma criatura infeliz, acossada, indefesa. Tinha desistido 
de lutar.

Uma derrotista?

No, no. No foi isso. Penso que foi antes a conscincia de que tinha morto o homem que amava... pelo 
menos, foi o que eu pensei.

E agora no tem a certeza?

Escrever uma coisa dessas. solenemente... s portas da morte.

Uma mentira piedosa, talvez sugeriu Poirot.

Talvez Mas Meredith estava vacilante. Mas no ... no diz com a Caroline..

Hercule Poirot assentiu. Carla Lemarchant havia dito o mesmo. Carla no possua mais do que a memria 
obstinada de uma criana Mas Meredith Blake tinha conhecido bem Caroline. Era a primeira confirmao 
que Poirot obtinha de que a convico de Carla inspirava confiana.

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Meredith Blake olhou-o e disse pausadamente:

- Se... se a Caroline estava inocente... porqu,  tudo uma loucura! No vejo... qualquer outra soluo 
possvel... - Voltando-se abruptamente para Poirot: - E o senhor? Qual  a sua opinio?

Fez-se um silncio.

- Por enquanto - disse, por fim, Poirot -, no tenho opinio. Limito-me a recolher impresses. O perfil de 
Caroline Crale. O perfil de Amyas Crale. O perfil das restantes pessoas presentes na altura. O que 
aconteceu ao certo nesses dois dias.  isso que pretendo. Passar todos os factos em revista, 
meticulosamente, um a um. O seu irmo vai dar-me uma ajuda nesse captulo. Vai enviar-me um relato dos 
acontecimentos, tal como os recorda.

Meredith Blake disse, bruscamente:

- No h-de ir muito longe com isso. O Philip  um homem ocupado. Esquece as coisas, assim que elas 
passam e no exigem mais a sua ateno. Provavelmente vai lembrar-se de tudo ao contrrio.

- Haver lacunas certamente. Tenho conscincia disso.

- Oua... - Meredith calou-se bruscamente, continuando em seguida, com um leve rubor nas faces. - Se 
quiser, posso fazer o mesmo. Quer dizer, seria uma forma de comparar verses, no acha?

Poirot retorquiu, calorosamente:

- Seria extremamente til. Uma ideia de primeira qualidade!

- Exactamente. Assim farei. Tenho algures uns dirios antigos. Mas ateno... - riu, embaraado - no 
tenho muito jeito para a linguagem literria. A minha ortografia no  perfeita. No... no vai alimentar 
muitas expectativas, espero.

- Ah, no  o estilo que me preocupa. Apenas uma narrativa de tudo aquilo de que conseguir lembrar-se. O 
que as pessoas disseram, que aspecto tinham... simplesmente o que se passou. No faz mal, se no lhe 
parecer relevante. Tudo contribui para estabelecer um ambiente, por assim dizer.

- Sim, estou a ver. Deve ser difcil visualizar pessoas e lugares que nunca se viu.

Poirot fez um gesto de concordncia.

- H uma outra coisa que queria pedir-lhe. Alderbury  a propriedade contgua a esta, no  verdade? Seria 
possvel l ir... ver com os meus prprios olhos onde se deu a tragdia?

87Posso lev-lo l imediatamente disse, pausadamente, Meredith Blake. Mas  claro que est muito 
mudada.

No foi reconstruda?

No, graas a Deus... no est assim to mudada. Mas agora  uma espcie de residencial... foi uma 
empresa qualquer que a adquiriu. No Vero,  ocupada por hordas de gente nova e, naturalmente, as 
divises foram reduzidas e divididas em cubculos e os jardins foram bastante modificados.

Deve reconstitu-la na sua exposio, para me ajudar.

Farei os possveis. Gostava que a tivesse conhecido nos velhos tempos. Era uma das propriedades mais 
bonitas que conheo.

Indicou o caminho atravs da porta envidraada e comeou a descer um declive relvado.

Quem foi responsvel pela venda?

Os executores testamentrios, em nome da filha. Ela herdou todos os bens de Crale. Como ele no deixou 
testamento, imagino que seria automaticamente dividida entre a mulher e a filha. A Caroline deixou tambm 
em testamento tudo o que tinha  filha.

Nada  meia-irm?

A Angela tinha algum dinheiro seu que o pai lhe tinha deixado.

Compreendo anuiu Poirot. Em seguida, proferiu uma exclamao: Mas aonde  que me est a levar? Estou 
a ver ali a praia  nossa frente!

Ah, tenho de lhe explicar a nossa geografia. Vai j ver. H um riacho, Camel Creek,  o nome, que corre 
para o interior... parece quase um esturio, mas no ...  simplesmente o mar. Para chegar a Alderbury 
por terra,  necessrio ir at ao interior e contornar o riacho, mas o caminho mais curto de uma casa  
outra  atravessar de barco esta parte estreita do riacho. Alderbury fica imediatamente do outro lado... 
alm, pode ver a casa por entre as rvores.

Antigamente, amos sempre por aqui explicou Meredith. Salvo se houvesse uma tempestade, claro, ou se 
estivesse a chover... a amos de carro. Mas o trajecto em volta  de quase cinco quilmetros.

Fez deslizar habilidosamente o barco ao longo de um cais de pedra do outro lado. Lanou um olhar 
depreciativo a um grupo de cabanas de madeira e superfcies de beto.

Isto  tudo novo. Costumava ser uma casa de barcos... um stio a cair

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de velho... nada mais. E uma pessoa tinha de caminhar pela beira-mar e tomava banho junto daquelas 
rochas ali.

Ajudou o seu convidado a desembarcar, amarrou o barco e foi  frente subindo por um caminho ngreme.

Acho que no nos vamos cruzar com ningum disse, por cima do ombro. Em Abril, est deserto,  
excepo da Pscoa. No faz mal se nos cruzarmos. Mantenho boas relaes com os meus vizinhos. 
Est um dia de sol magnfico. Parece Vero. Aquele dia, estava tambm estupendo. Mais como Julho do 
que Setembro. Um sol brilhante... mas um vento frio.

O caminho emergiu das rvores, contornando um afloramento rochoso. Meredith apontou com a mo.

Ali fica o chamado jardim da Bateria. Estamos mais ou menos por baixo... vamos contorn-lo.

Embrenharam-se novamente nas rvores e, em seguida, o caminho descreveu outra curva apertada e eles 
emergiram junto a uma porta instalada num muro alto. O caminho continuava a subir em ziguezague, mas 
Meredith abriu a porta e os dois homens passaram.

Por um momento, Poirot, vindo da sombra, ficou encandeado. O jardim da Bateria era um terrao 
artificialmente criado, com parapeitos onde assentavam canhes. Dava a impresso de estar suspenso 
sobre o mar. De um lado havia rvores, mas do lado do mar no havia nada, a no ser a gua 
deslumbrantemente azul em baixo.

Um lugar atraente disse Meredith. Fez um sinal desdenhoso de cabea na direco de uma espcie de 
pavilho posicionado contra o muro do fundo. Aquilo no estava ali, evidentemente... apenas uma casinhota 
degradada onde o Amyas guardava os materiais de pintura, umas garrafas de cerveja e algumas cadeiras 
de praia. Nesse tempo, tambm no estava revestido a beto. Havia um banco e uma mesa... de ferro 
pintado. Era tudo. Ainda assim, no est muito alterado.

O tom da sua voz denotava insegurana. Poirot disse: E foi aqui que aconteceu? Meredith anuiu.

O banco estava ali... contra a casinhota. Ele estava estendido nele. Por vezes, quando estava a pintar, 
costumava estender-se ali... sentava-se

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simplesmente e ficava a olhar o vazio... e, depois, de repente, levantava-sen um salto e comeava a encher 
a tela de tinta, como um louco. Fez uma pausa.

Foi por isso, sabe, que ele parecia... quase natural. Como se estivesse a dormir... como se se tivesse 
deixado adormecer. Mas tinha os olhos abertos e o corpo... tinha-se tornado rgido. O veneno provoca uma 
espcie de para lisia, sabe. No se sente dor... eu... sempre me consolou a ideia de que...

Poirot fez uma pergunta cuja resposta j conhecia.

Quem o encontrou?

Foi ela. A Caroline. Depois do almoo. Eu e a Elsa fomos os ltimos a v-lo com vida, suponho. Devia estar 
a comear a sentir os efeitos nesse momento. Tinha um ar... esquisito. Prefiro no falar no assunto. Vou 
pr tudo por escrito.  menos penoso.

Voltou-se abruptamente e saiu do jardim. Poirot seguiu-o, sem falar Os dois homens subiram o caminho 
em ziguezague. A um nvel mais alto, em relao ao jardim da Bateria, havia outro pequeno terrao. Estava 
 sombra das rvores e tinha um banco e uma mesa.

No mudaram muito isto disse Meredith. Mas o banco no era uma imitao do rstico, mas um objecto 
em ferro pintado. Um pouco duro para se estar sentado, mas a vista era uma beleza.

Poirot concordou. Atravs de uma abertura nas rvores, podia ver-se o jardim da Bateria em baixo at ao 
esturio do riacho.

Estive aqui sentado durante parte da manh explicou Meredith. As rvores no estavam to crescidas na 
altura. Podia-se ver claramente as ameias do jardim. Era onde a Elsa estava a posar, compreende. Sentada 
numa delas com a cabea voltada de lado.

Os seus ombros tremeram ligeiramente.

As rvores crescem mais depressa do que se pensa murmurou. Enfim, devo estar a ficar velho. Venha da 
at  casa.

Continuaram pelo caminho at este emergir junto da casa. Via-se que esta tinha sido uma esplndida casa 
antiga, em estilo georgiano. Tinha agora extenses e, num relvado verde ao lado, tinham sido instaladas 
cerca de cinquenta pequenas barracas de praia.

Os rapazes dormem a e as raparigas na casa explicou Meredith. Julgo que no h aqui nada que lhe 
interesse. Todas as divises foram

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subdivididas. Aqui, costumava haver um pequeno pavilho de Vero. Esta gente construiu uma galeria. 
Enfim, suponho que se divertem nas frias. No se pode manter tudo como antes...  uma pena. Voltou-se, 
abruptamente.
- Vamos descer por outro caminho. Comea... comea tudo a vir-me novamente  memria, sabe. 
Fantasmas. Fantasmas por todo o lado. i Regressaram ao cais por um percurso mais longo e mais 
convoluto. Nenhum deles falou. Poirot mostrou-se respeitoso para com o estado de esprito do seu 
companheiro.

Quando chegaram a Handcross Manor, Meredith Blake disse inesperadamente:

- Comprei aquele quadro, sabe. O que o Amyas estava a pintar. No fui capaz de suportar a ideia de ele ser 
vendido por... bem... por causa da publicidade... de ser admirado por uma srie de gente insensvel, a 
pensar o pior. O Amyas disse que era a melhor coisa que j tinha pintado. No me admirava nada se ele 
tivesse razo. Estava praticamente acabado. Ele s queria trabalhar nele mais um ou dois dias. Gostaria... 
gostaria de v-lo? - Com certeza! - respondeu imediatamente Hercule Poirot.

Blake indicou o caminho atravs do corredor e tirou uma chave do bolso. Abriu uma porta e entraram para 
uma sala razoavelmente grande, cheirando a p. As portadas das janelas estavam fechadas. Blake abriu-as 
e, em seguida, com alguma dificuldade, subiu a vidraa de uma janela e uma lufada de fragrante ar 
primaveril invadiu a sala.

- Assim est melhor - disse Meredith.

Permaneceu junto da janela a respirar o ar e Poirot aproximou-se. No era necessrio perguntar o que a 
sala fora noutros tempos. As prateleiras estavam vazias, mas ainda continham as marcas dos frascos. 
Contra uma das paredes, encontrava-se um aparelho qumico deteriorado e uma pia. A sala estava coberta 
de p.

Meredith Blake olhava atravs da janela.

- Vem tudo  memria facilmente - disse. - Aqui, a inalar o odor do jasmim... e a conversar, a conversar... 
como um idiota... sobre as minhas preciosas poes e essncias!

Distraidamente, Poirot estendeu uma mo atravs da janela. Arrancou
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um tufo de folhas de jasmim que estavam quase a separar-se do caul lenhoso.

Meredith Blake atravessou resolutamente a sala. Na parede, encontrava -se um quadro tapado com um 
lenol, a fim de proteg-lo do p, que ele arrancou com um puxo.

Poirot susteve a respirao. At ao momento, tinha visto quatro pinturas de Amyas Crale: duas na Tate, 
outra num galerista londrino, e a quarta era a natureza-morta com rosas. Mas agora estava diante do que o 
prprio artista tinha considerado o seu melhor quadro, e Poirot compreendeu imediatamente que o homem 
tinha sido um artista soberbo.

A pintura possua um verniz antigo superficial.  primeira vista, poderia ser um cartaz, pela crueza aparente 
dos contrastes. Uma rapariga, uma rapariga com uma blusa amarelo-canrio e calas soltas azuis-escuras, 
sentada num muro cinzento,  luz do sol, contra um fundo de mar violentamente azul. Exactamente o tema 
indicado para um cartaz.

Mas a primeira aparncia era enganadora; havia uma subtil distoro uma fulgncia e claridade admirveis 
na luz. E a rapariga...

Sim, estava impregnada de vida. Tudo quanto existia, tudo quanto podia existir de vida, de juventude, de 
simples vitalidade explosiva. O rosto era vivo e os olhos...

Tanta vida! Tanta juventude arrebatada! Foi isto ento que Amyas Crale viu em Elsa Greer, o que o tornou 
cego e surdo  doce criatura que era a sua mulher. Elsa era a vida. Elsa era a juventude.

Uma criatura soberba, esbelta, esguia, arrogante, a cabea voltada, os olhos insolentes de triunfo. Olhando-
nos, vigiando-nos... esperando...

Hercule Poirot abriu os braos e disse:

 um magnfico... sim,  magnfico... Meredith Blake disse, a voz embargada pela emoo:

Ela era to jovem...

Poirot anuiu, pensando consigo mesmo: Que querem dizer as pessoas, em geral, com isso? To jovem. 
Uma coisa inocente, fascinante, desamparada. Mas a juventude no  assim! A juventude  crua, forte, 
poderosa... sim, e desapiedada! E uma coisa mais... a juventude  vulnervel.

Seguiu o seu anfitrio at  porta. Agora, sentia um interesse mais

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premente por Elsa Greer, que planeara visitar em seguida. Que teria feito o tempo quela rapariga 
apaixonada, triunfante e crua?

Voltou-se para olhar para o quadro.

Aqueles olhos, vigiando-o, vigiando-o... Dizendo-lhe qualquer coisa.

E se no fosse capaz de entender o que lhe diziam? Seria a verdadeira mulher capaz de lho dizer? Ou 
diziam aqueles olhos algo que a mulher verdadeira desconhecia?

Uma tal arrogncia, uma premonio to triunfante.

E ento a Morte tinha interferido e arrebatado a presa daquelas jovens mos vidas e firmes...

E a luz tinha abandonado aqueles olhos apaixonadamente premonitrios. Como seriam agora os olhos de 
Elsa Greer?

Saiu da sala, olhando uma ltima vez e pensando: Ela tinha vida a mais.

Sentiu-se um pouco assustado...

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CAPTULO VIII

ESTE PORQUINHO COMEU ROSBIFE

A casa em Brook Street tinha tulipas Darwin nas floreiras das janelas. No trio de entrada, proveniente de 
uma enorme jarra de lilases brancos, circulava uma aragem fragrante em direco  porta aberta.

Um mordomo de meia-idade pegou no chapu e na bengala de Poirot. Surgiu um criado de libr que os 
levou e o mordomo murmurou deferentemente:

Importa-se de me acompanhar, excelncia?

Poirot seguiu-o pelo corredor, descendo trs degraus. Abriu-se uma porta e o mordomo anunciou o seu 
nome, pronunciando todas as slabas correctamente.

Em seguida, a porta fechou-se nas suas costas e um homem alto e magro levantou-se de uma poltrona 
junto  lareira e avanou na sua direco.

Lord Dittisham era um homem de trinta e muitos anos. No s era Par do Reino, como era igualmente 
poeta. Dois dos seus fantasiosos dramas poticos tinham sido levados  cena, a custos astronmicos, 
tendo sido bem recebidos pela crtica. Tinha uma fronte proeminente, um queixo que denotava impacincia 
e os olhos e boca surpreendentemente atraentes.

Sente-se, M. Poirot disse.

Poirot sentou-se e aceitou um cigarro do seu anfitrio. Lord Dittisham fechou a caixa, riscou um fsforo e 
estendeu-o a Poirot para que este acendesse o cigarro, sentando-se ento e olhando pensativamente para 
o seu visitante.

Veio falar com a minha mulher, no  assim? perguntou.

Lady Dittisham teve a amabilidade de me conceder uma entrevista respondeu Poirot.

Sim.

Fez-se uma pausa. Poirot arriscou comentar:

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Espero que no objecte, Lord Dttisham.

O rosto magro e sonhador transformou-se com um sorriso brusco breve.

Hoje em dia, as objeces dos maridos nunca so levadas a srio, M Poirot.

No objecta ento?

No. No posso dizer que objecte. Mas estou, devo confessar, um pouco receoso do efeito que poder ter 
sobre a minha mulher. Deixe-me falar com franqueza. H muitos anos, quando era ainda jovem, a minha 
mulher passou por um terrvel sofrimento. Espero que tenha recuperado desse choque. Acredito que j o 
esqueceu. Agora o senhor aparece e as suas perguntas vo necessariamente acordar essas recordaes 
do passado.

 lamentvel disse Hercule Poirot, delicadamente.

No sei muito bem qual possa ser o resultado.

Apenas lhe posso garantir, Lord Dittisham, que serei o mais discreto possvel e que farei tudo para no 
afligir Lady Dittisham. , estou certo, uma pessoa de temperamento delicado e nervoso.

Subitamente e de forma inesperada, Lord Dittisham desatou a rir.

A Elsa? A Elsa  uma mulher resistente! disse.

Ento... Poirot fez uma interrupo diplomtica. A situao intrigava-o.

Lord Dittisham esclareceu:

A minha mulher  capaz de aguentar todos os choques. Sabe por acaso por que razo ela aceitou falar 
consigo?

Poirot respondeu placidamente: Curiosidade?

A expresso do olhar do outro homem traiu uma espcie de respeito.

Ah, apercebeu-se disso?

 inevitvel disse Poirot. As mulheres nunca recusam falar com um detective privado! Os homens, por outro 
lado, mand-lo-o para o diabo.

H mulheres capazes de mand-lo para o diabo tambm.

Depois de falarem com ele, antes no.

Talvez Lord Dittisham fez uma pausa. Qual  a ideia que preside a esse livro?

Hercule Poirot encolheu os ombros.

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Ressuscitam-se as velhas melodias, os velhos dramas, os velhos fatos. Tambbm se ressuscitam os 
velhos assassnios.

Ora! comentou Lord Dittisham.

Ora! Como queira. Mas no  com oras que vai mudar a natureza humana. O assassnio  um drama. A 
raa humana sente um desejo compulsivo de dramas.

Lord Dittisham murmurou:

Eu sei... eu sei...

Como v disse Poirot, o livro vai ser escrito. O meu papel  garantir que no haja imprecises gritantes nem 
deturpaes dos factos conhecidos.

Quer-me parecer que os factos so do domnio pblico.

Sim, mas no a sua interpretao. Dittisham disse, incisivamente:

Que quer dizer exactamente com isso, M. Poirot?

Meu caro Lord Dittisham, h muitas formas de considerar, digamos, um facto histrico. Repare neste 
exemplo: escreveram-se muitos livros sobre Mary, Rainha da Esccia, que a retratam como uma mrtir, 
como uma mulher devassa e sem escrpulos, como uma santa fraca de esprito, como uma assassina e 
uma intriguista ou ainda como uma vtima das circunstncias e do destino! No falta por onde escolher.

E neste caso? Crale foi assassinado pela mulher...  um facto, naturalmente, inquestionvel. No 
julgamento, a minha mulher foi, na minha opinio, alvo de calnias imerecidas. No fim, teve de ser levada do 
tribunal s escondidas. A opinio pblica demonstrou uma grande hostilidade para com ela.

Os Ingleses disse Poirot so um povo muito moral.

Diabos os levem, sem dvida que so! disse Lord Dittisham, acrescentando, com o olhar fixo em Poirot: E 
o senhor?

- Eu? respondeu Poirot. Eu vivo uma vida muito moral. O que no equivale a ter ideias morais.

Lord Dittisham disse:

Por vezes, pergunto-me como seria realmente essa Mrs. Crale. Toda essa histria da mulher ferida... d-me 
a sensao de que havia qualquer coisa Por detrs disso.

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 possvel que a sua mulher saiba concordou Poirot.

A minha mulher nunca, nem uma vez, falou do caso disse Lord Dittisham.

Poirot olhou-o com interesse acrescido e disse:

Ah, comeo a entender...

A entender o qu? interrompeu o outro, abruptamente. Poirot replicou, com uma vnia: A imaginao 
criativa do poeta... Lord Dittisham levantou-se e tocou  campainha, dizendo bruscamente-

A minha mulher est  sua espera. A porta abriu-se

Chamou, excelncia?

Leva M. Poirot a Lady Dittisham.

Dois lances de escadas, os ps afundando-se no plo macio das carpetes. Luzes discretas. Dinheiro, 
dinheiro por toda a parte. Quanto a bom gosto, nem por isso. A sala de Lord Dittisham denotava uma 
austeridade sombria. Mas aqui, na casa, apenas se entrevia uma pesada prodigalidade. O melhor. No 
necessariamente o mais aparatoso nem o mais deslumbrante. Simplesmente um no olhar a despesas 
aliado a uma falta de imaginao.

Poirot disse com os seus botes: Rosbife? Sim, rosbife!.

No era ampla a sala em que o fizeram entrar. A grande sala de jantar ficava no primeiro andar. Esta era a 
sala de estar pessoal da dona da casa e a dona da casa estava encostada  lareira, quando Poirot foi 
anunciado e entrou.

Uma frase assaltou a sua mente agitada, recusando-se a abandon-la. Ela morreu nova...

Foi com este pensamento que olhou para Elsa Dittisham, noutro tempo Elsa Greer.

Nunca a teria reconhecido pelo quadro que Meredith Blake lhe mostrara. Neste, a sua imagem era 
sobretudo uma imagem de juventude, de vitalidade. Na mulher  sua frente, no existia juventude; era 
possvel que nunca tivesse existido juventude. E, no entanto, reparou, de uma forma que no tinha reparado 
no quadro de Crale, que Elsa era bela. Sim, era belssima a mulher que avanava ao seu encontro. E, de 
modo nenhum, velha. Que era ela, afinalNo teria agora mais de trinta e seis anos, se na altura da tragdia 
tinha vinte. O cabelo negro estava perfeitamente arranjado em torno da sua cabea bem

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modelada, as suas feies eram quase clssicas, a sua maquilhagem sofisticada.

Poirot sentiu uma angstia estranha. Talvez fosse culpa do velho Dr. Jonathan, quando falou de Julieta... 
Esta no era nenhuma Julieta - a no ser, talvez, que fosse possvel imaginar Julieta como uma 
sobrevivente continuando a viver, privada de Romeu... No era uma componente essencial da composio 
de Julieta que ela morresse nova?

Elsa Greer tinha ficado com vida...

Cumprimentou-o num tom de voz acromtico e montono.

- Estou muito interessada, M. Poirot. Sente-se e diga-me o que quer que eu faa.

Ele pensou: Mas ela no est interessada. No h nada que a interesse. Grandes olhos cinzentos - 
como lagos mortos. Poirot assumiu, como era seu hbito, uma postura declaradamente estrangeira.

- Sinto-me confuso, madame - exclamou -, verdadeiramente confuso.

- Oh, no, porqu?

- Porque me dou conta de que esta... esta reconstituio de um drama passado deve ser excessivamente 
penosa para a senhora!

Ela pareceu divertida. Sim, era divertimento. Divertimento absolutamente genuno.

- Suponho que o meu marido lhe meteu essa ideia na cabea - disse.
- Falou consigo quando chegou.  claro que ele no compreende nada. Nunca compreendeu. Eu no sou, 
de maneira nenhuma, o gnero de pessoa sensvel por quem ele me toma.

A sua voz continuava a denotar o tom divertido.

- O meu pai, sabe - continuou -, era operrio numa fbrica. Foi subindo na carreira e fez fortuna. Quando se 
 vulnervel, no se conseguem coisas dessas. Eu sou como ele.

Poirot pensou consigo mesmo: Sim, isso  verdade. Uma pessoa vulnervel no teria aceite ficar alojada 
em casa de Caroline Crale.

- Que pretende que eu faa? - perguntou Lady Dittisham.

- Tem a certeza, madame, de que rememorar o passado no lhe vai ser penoso? 99Ela ponderou durante 
um momento e, subitamente, ocorreu a Poirot que Lady Dittisham era uma mulher muito franca. Podia 
mentir por necessidade mas nunca por opo.

No, penoso no respondeu pausadamente Elsa Dittisham. Num certo sentido, gostava que fosse.

Porqu?

 to estpido nunca sentir nada... disse ela, impacientemente. E Hercule Poirot pensou: Sim, Elsa Greer 
est morta....

Seja como for, Lady Dittisham disse em voz alta, a minha misso torna-se muito mais fcil.

Que pretende saber? perguntou ela, alegremente.

Tem boa memria, madame?

Razoavelmente boa, julgo.

E tem a certeza de que no lhe  doloroso rever essa poca em pormenor?

No  de forma nenhuma doloroso. As coisas so apenas dolorosas, quando esto a acontecer.

Sim, eu sei que com algumas pessoas  esse o caso.

 o que o Edward, o meu marido, no consegue compreender disse Lady Dittisham. Est convencido de 
que o julgamento e tudo o resto representaram um terrvel sofrimento para mim.

E no representaram?

No, at gostei respondeu Elsa Dittisham. A sua voz continha uma nota de comprazimento. Continuou: 
Meu Deus, como aquele bruto do Depleach se atirou a mim. Um homem diablico, acredite. Adorei dar-lhe 
luta. Mas ele no me vergou.

Olhou para Poirot com um sorriso.

Espero no estar a destruir as suas iluses. Eu era uma rapariga de vinte anos, devia estar ali prostrada, 
suponho... consumida pela vergonha ou coisa parecida. Mas no estava. S queria uma coisa.

O qu?

Lev-la  forca, naturalmente disse Elsa Dittisham.

Ele reparou nas suas mos belas mos, mas com unhas longas e dobradas. Mos de predadora.

Considera-me vingativa? perguntou. E sou, sou vingativa em 

100
relao aos que me fizerem mal. Aquela mulher era, aos meus olhos, o gnero mais baixo de mulher que 
existe. Sabia que o Amyas gostava de mim... que ia deix-la, e matou-o s para que ele nunca fosse meu. 
Olhou na direco de Poirot.

- No acha que  uma grande maldade?

- No compreende ou no tolera o cime?

- No, creio que no. Quando se perde, perde-se. Quando no se  capaz de conservar um marido,  deix-
lo partir com elegncia.  o sentido de posse que eu no compreendo.

- Talvez o tivesse compreendido, se se tivesse casado com ele.

- No me parece. Ns no ramos... - Subitamente, sorriu a Poirot. O sorriso era um pouco assustador, 
pensou ele. Era to distante de qualquer sentimento real. - Quero que entenda bem isto - disse ela. - No 
pense que o Amyas Crale seduziu uma jovem rapariga inocente. As coisas no se passaram assim! Dos 
dois, fui eu a responsvel. Conheci-o numa festa e apaixonei-me por ele... sabia que tinha de conquist-lo...

Uma pardia... uma pardia grotesca, mas...

E toda a minha sorte a teus ps deponho

E te seguirei, meu senhor, at ao fim do mundo...

- Mesmo sendo ele casado?

- Propriedade privada, entrada proibida?  preciso mais do que uma tabuleta para nos afastar da 
realidade. Se ele era infeliz com a mulher e podia ser feliz comigo, porque no? S se vive uma vida.

- Mas h quem diga que ele era feliz com a mulher. Elsa abanou a cabea.

- No. Estavam constantemente a discutir. Ela dava-lhe cabo da cabea, era... oh, era uma mulher horrvel!

Levantou-se e acendeu um cigarro. - Provavelmente sou injusta para com ela - disse, com um leve sorriso. - 
Mas penso realmente que era uma mulher detestvel.

- Foi uma grande tragdia - disse Poirot, pausadamente.

- Sim, foi uma grande tragdia. - Voltou-se para ele subitamente, e algo na sua expresso exausta e 
montona animou-se com um frmito.

101Matou-me, compreende? Matou-me. Desde ento, a minha vida tem sido um vcuo... um vcuo total. A 
sua voz sumiu-se. Um vazio! Agitou as mos impacientemente. Como um peixe embalsamado numa vitrine.

Amyas Crale significava assim tanto para si?

Ela aquiesceu. Foi um ligeiro gesto de estranha confidncia... curiosamente pattico.

Creio que sempre tive uma mente obsessiva disse, numa sombria atitude meditativa. Creio que... 
realmente... uma pessoa devia espetar um punhal em si mesma... como Julieta. Mas... mas fazer isso  
reconhecer que se perdeu... que a vida nos venceu.

E em seu lugar?

Tudo deve continuar... como antes... quando nos recompomos. Eu recompus-me, sim. Deixou de ter 
qualquer significado para mim. Decidi avanar para o que viesse a seguir.

Sim, o que viesse a seguir. Poirot viu as suas tentativas esforadas para realizar essa firme determinao. 
Viu-a bela e rica, sedutora aos olhos dos homens, procurando com mos gananciosas de predadora 
preencher uma vida vazia. Idolatria... um casamento com um aviador famoso... depois um explorador, esse 
homem corpulento, Arnold Stevenson talvez no muito diferente fisicamente de Amyas Crale; um retorno s 
artes criativas: Dittisham!

Elsa Dittisham disse:

Nunca fui hipcrita! H um provrbio espanhol de que sempre gostei. Deus diz: leva o que quiseres e paga. 
Pois bem, foi o que eu fiz. Levei o que quis... mas sempre me dispus a pagar o preo.

O que a senhora no compreende  que existem coisas que no podem ser compradas disse Hercule 
Poirot.

No me refiro simplesmente ao dinheiro disse ela, fitando-o.

No, no, compreendo a que se refere interps Poirot. Mas nem tudo na vida tem uma etiqueta, custa 
tanto. H coisas que no esto  venda-

Disparate!

Ele sorriu levemente. A voz de Elsa denotava a arrogncia do operrio fabril de sucesso que tinha 
ascendido ao panteo dos ricos.

Hercule Poirot sentiu invadi-lo uma onda de piedade. Olhou para o rosto

102
intemporal, sem rugas, os olhos fatigados, e recordou a rapariga que Amyas Crale pintara...

Fale-me desse livro pediu Elsa Dittisham. Qual  a finalidade? De quem foi a ideia?

Ah, minha querida senhora, que outra finalidade existe seno pintar o passado com as cores do presente?

Mas o senhor no  escritor?

No, sou um especialista em criminalidade.

Quer dizer que o consultam sobre livros policiais?

Nem sempre. Neste caso, fui contratado.

Por quem?

Vou examinar esta publicao, numa perspectiva... qual  o termo... crtica, a pedido de uma pessoa 
interessada.

Que pessoa?

Miss Carla Lemarchant.

Quem  ela?

 a filha de Amyas e Caroline Crale.

Elsa fitou-o por um momento, dizendo em seguida:

Ah, claro, havia uma filha. J me lembro. Suponho que  adulta agora.

Sim, tem vinte e um anos.

Como ?
 alta e morena e bonita, julgo eu. E tem coragem e personalidade.

Gostava de falar com ela disse Elsa, pensativamente.

Talvez ela no queira falar com a senhora. Elsa pareceu surpreendida.

Porque no? Ah, compreendo. Mas que disparate!  impossvel que ela recorde seja o que for. No podia 
ter mais de seis anos.

Sabe que a me foi condenada pelo assassnio do pai.

E julga que a culpa  minha?

 uma interpretao possvel. Elsa encolheu os ombros e disse:

Que estupidez! Se a Caroline se tivesse comportado como um ser humano razovel...

~~ No aceita ento qualquer responsabilidade?

~~ Porque havia de aceitar? No tenho nada de que me envergonhe.


103Amava-o. T-lo-ia feito feliz. Olhou para Poirot. A sua expresso desfez-se, e ele viu subitamente, de 
forma surpreendente, a rapariga do quadro.

Se conseguisse faz-lo ver disse ela. Se pudesse ver com os meus olhos. Se soubesse...

Poirot inclinou-se para a frente.

Mas foi isso que eu quis dizer. Compreende, Mr. Philip Blake, que estava presente na altura, vai escrever-
me um relato minucioso de tudo o que aconteceu. Mr. Meredith Blake, a mesma coisa. Se a senhora...

Elsa Dittisham respirou fundo, dizendo com escrnio: Esses dois! O Philip sempre foi estpido. O Meredith 
andava sempre a toque de caixa atrs da Caroline... embora fosse um amor. Mas no vai ser pelos seus 
relatos que o senhor vai realmente compreender o que se passou.

Ele observou-a, viu a animao intensificar-se-lhe no olhar, viu uma mulher viva ganhar forma a partir de uma 
mulher morta. Ela disse, rapidamente e quase com ferocidade:

Quer saber a verdade? No para public-la. Para si...

Comprometo-me a no publicar nada sem o seu consentimento.

Gostava de pr a verdade por escrito... Ficou em silncio, durante alguns momentos, a pensar. Ele viu a 
dureza macia das suas faces ceder e assumir um contorno mais jovem, viu a vida insinuar-se nela  medida 
que o passado a reclamava.

Voltar atrs... escrever o que se passou... Mostrar-lhe como ela era... Os seus olhos faiscaram. O peito 
palpitou apaixonadamente.

Ela matou-o. Matou o Amyas. O Amyas que queria viver... que adorava a vida. O dio no devia ser mais 
forte do que o amor... mas o dio dela era. E o meu dio por ela ... odeio-a... odeio-a... odeio-a...

Aproximou-se dele. Baixou-se, agarrando-lhe na manga e dizendo num tom insistente:

Tem de compreender... tem de compreender... o que sentamos um pelo outro. Eu e o Amyas. Existe uma 
coisa... vou mostrar-lha.

Atravessou a sala como um furaco. Rodou a chave numa pequena escrivaninha, abrindo uma gaveta 
dissimulada dentro de um compartimento.

Quando voltou, trazia na mo uma carta amarrotada, com a tinta esbatida. Atirou-lha, trazendo  memria 
de Poirot a sbita recordao pungente de uma criana que conhecera que lhe tinha atirado um dos seus 
tesouros

104

uma concha especial apanhada  beira-mar e zelosamente guardada. Da mesma forma, essa criana tinha 
recuado e ficado a observ-lo. Altiva, receosa, atentamente crtica da sua reaco ao seu tesouro. 
Desdobrou as folhas desbotadas.

Elsa - criana maravilhosa! Nunca houve nada to belo. E, contudo, tenho medo - sou demasiado velho - 
um diabo feio e instvel, de mau feitio, na meia-idade. No confies em mim, no acredites em mim - no 
valho nada
-  excepo do meu trabalho.  ele que revela o melhor de mim. Pronto, no digas que no foste avisada.

Com mil diabos, minha amada, sers minha, acontea o que acontecer. Por ti, ia at ao fim do mundo e tu 
sabes. E hei-de pintar um quadro teu que far este mundo estpido abrir a boca de pasmo! Sou louco por 
ti - no consigo dormir - no consigo comer. Elsa - Elsa - sou teu para sempre - teu at  morte. Amyas.

Dezasseis anos. Tinta esbatida, papel amarrotado. Mas as palavras sempre vivas... sempre vibrantes...

Ele olhou para a mulher a quem tinham sido escritas. Mas j no era uma mulher que ele contemplava. Era 
uma jovem rapariga apaixonada.

Pensou mais uma vez em Julieta... 

105CAPTULO IX

ESTE PORQUINHO NO COMEU NENHUM

Posso perguntar a razo, M. Poirot?

Hercule Poirot ponderou a resposta  pergunta. Estava ciente de um par de olhos cinzentos perspicazes 
que o observavam de um pequeno rosto mirrado.

Tinha subido ao andar superior do modesto prdio e batido  porta do n 584 dos Gillespie Buildings, 
edifcios de TOs destinados s mulheres trabalhadoras.

Neste exguo espao cbico, residia Miss Cecilia Williams, numa sala que era simultaneamente quarto de 
dormir, sala de estar e de jantar e, atravs do uso criterioso de um bico de gs, cozinha; uma espcie de 
cubculo adjacente continha uma banheira de dimenso reduzida e a loua de casa de banho habitual.

Por mais pobre que fosse o ambiente, Miss Williams tinha-se esforado por lhe imprimir o seu toque 
pessoal.

As paredes estavam pintadas de um cinza-claro austero, e havia vrias reprodues suspensas nelas. 
Dante encontrando-se com Beatriz numa ponte e esse quadro que uma vez uma criana tinha descrito 
como uma rapariga cega sentada numa laranja e chamado, no sei porqu, Esperana. Havia ainda duas 
aguarelas de Veneza e uma cpia spia da Primavera de ootticelli. Sobre a cmoda baixa encontrava-se 
uma grande quantidade de fotografias amarelecidas que, pelo estilo dos penteados, datavam, na sua 
maioria, de h vinte a trinta anos.

A carpete quadrada estava puda, a moblia estava estragada e era de m qualidade. Era claro, para Hercule 
Poirot, que Cecilia Williams vivia com grandes dificuldades. Aqui no havia rosbife. Era o porquinho que no 
comeu nenhum.

Clara, incisiva e insistente, a voz de Miss Williams repetiu a pergunta.

107

Quer as minhas recordaes do processo Crale? Posso perguntar a razo?

Alguns dos amigos e associados de Hercule Poirot afirmaram que, nos momentos em que mais os 
enfurecia, ele preferia a mentira  verdade e que movia mundos e fundos para obter os seus fins atravs de 
falsas e elaboradas declaraes, em lugar de confiar na simples verdade.

Mas, neste caso, tomou rapidamente uma deciso. Hercule Poirot no era oriundo dessa classe de 
crianas belgas ou francesas que tiveram uma preceptora inglesa, mas reagia com a mesma simplicidade e 
inevitabilidade dos muitos rapazinhos a quem perguntavam: J lavaste os dentes esta manh, Harold (ou 
Richard ou Anthony)?. Considerando por um breve momento a possibilidade de mentir, rejeitavam-na de 
imediato e respondiam, humilhados: No, Miss Williams.

Porque Miss Williams possua aquilo que qualquer educadora infantil deve possuir, essa qualidade 
misteriosa a autoridade! Quando Miss Williams dizia: Vai lavar as mos, Joan ou Espero que leias este 
captulo sobre os poetas isabelinos e sejas capaz de responder s minhas perguntas, era invariavelmente 
obedecida. Nunca tinha passado pela cabea de Miss Williams no ser obedecida.

Assim, nesta instncia, Hercule Poirot no proferiu qualquer explicao plausvel acerca de um livro que 
seria escrito sobre crimes passados. Preferiu simplesmente narrar as circunstncias em que Carla 
Lemarchant solicitara os seus servios.

A pequena senhora de idade, no seu vestido asseado e gasto, ouviu atentamente:

Interessa-me muito saber notcias dessa criana disse, saber o que  feito dela.

 uma jovem muito encantadora e atraente, com imensa coragem e ideias muito prprias.

ptimo disse, secamente, Miss Williams.

E , se me  permitido diz-lo, uma pessoa muito persistente. No  pessoa que aceite facilmente uma 
evasiva ou uma recusa.

A ex-preceptora anuiu pensativamente. Tem tendncias artsticas? perguntou.

Julgo que no. 

108

A est uma boa coisa! comentou, secamente, Miss Williams. O tom do comentrio no deixou quaisquer 
dvidas quanto ao ponto de vista de Miss Williams sobre os artistas.

Pelo que diz dela, imagino que sai mais  me do que ao pai acrescentou.

 possvel. A senhora  que poder esclarecer-me quanto a isso quando a vir. Gostaria de v-la?

Gostaria muito de v-la.  sempre interessante ver a evoluo de uma criana que se conheceu.

Suponho que era muito pequena quando a viu pela ltima vez?

Tinha cinco anos e meio. Uma criana muito encantadora... um pouco sossegada de mais, talvez. 
Reflexiva. Dada a brincadeiras muito suas, em que no via com bons olhos a colaborao dos outros. 
Natural e nada mimada.

Foi uma felicidade ser to novinha disse Poirot.

Sim, com efeito. Se fosse mais velha, o choque da tragdia poderia ter tido um efeito desastroso.

No entanto disse Poirot, no se pode deixar de sentir que a situao no foi vantajosa... por pouco que a 
criana compreendesse ou lhe fosse dado a saber, deve ter existido uma atmosfera de mistrio e evaso, 
um desenraizamento abrupto. So coisas negativas para uma criana.

Miss Williams replicou reflexivamente:

Talvez tenham sido menos nefastas do que julga.

Antes de encerrarmos o assunto de Carla Lemarchant... ou seja, a pequena Carla Crale disse Poirot, h 
uma coisa que gostava de perguntar-lhe. Se h algum que possa explic-la, creio que  a senhora.

Sim? perguntou ela, num tom interrogativo e cauteloso. Poirot agitou as mos, num esforo para expressar 
a sua ideia.

Existe uma coisa... uma subtileza que no sou capaz de definir... mas fico sempre com a impresso, 
quando menciono a criana, de que nunca lhe  atribudo o seu justo valor. Quando a menciono, as 
respostas contm semPre uma vaga surpresa, como se a pessoa com quem falo se tivesse 
completamente esquecido de que existia uma filha. Com certeza, mademoiselle, que no  uma coisa 
natural. Uma criana, nestas circunstncias,  um ser importante, no em si mesma, mas como um eixo 
vital. Amyas Crale poder ter

109

tido razes para deixar a mulher... ou para no a deixar. Mas, normalmente quando um casamento se 
desfaz, um filho constitui um ponto muito importante. Neste caso, a criana parece contar muito pouco. A 
mim, enfim, parece-me... estranho.

Miss Williams retorquiu imediatamente:

Ps o dedo numa ferida vital, M. Poirot. Tem toda a razo. E, em parte foi por essa razo que eu disse o 
que acabei de dizer... que a transferncia da Carla para um ambiente diferente pode, sob certos aspectos, 
ter sido benfica para ela. Quando fosse mais velha, poderia vir a sofrer de instabilidade na sua vida familiar, 
compreende?

Inclinou-se para a frente e falou pausada e cuidadosamente:

Naturalmente, ao longo do meu trabalho, tenho assistido a um grande nmero de situaes no mbito do 
problema entre pais e filhos. Muitas crianas, quase todas as crianas, devo dizer, sofrem de um excesso 
de atenes por parte dos pais. Existe demasiado amor, demasiada vigilncia. A criana tem uma 
conscincia desconfortvel destes desvelos e procura libertar-se, escapar e passar despercebida. No caso 
dos filhos nicos,  ainda mais evidente e  claro que as mes so as prevaricadoras mais srias. O efeito 
sobre o casamento  muitas vezes negativo. O marido ressente-se do facto de passar a segundo plano, 
busca consolo... ou melhor, lisonja e ateno... noutro lado, e mais tarde ou mais cedo ocorre o divrcio. O 
melhor para uma criana, estou convencida,  aquilo a que eu chamo uma negligncia saudvel da parte de 
ambos os pais. No caso de uma grande famlia com muitos filhos e pouco dinheiro, isso acontece com 
naturalidade. Os filhos so ignorados, porque a me no dispe literalmente de tempo para se ocupar 
deles. Os filhos compreendem que ela os ama, mas no do importncia a manifestaes excessivas do 
facto.

Mas h um outro aspecto. Por vezes, temos um marido e uma mulher que se bastam to completamente 
um ao outro, que esto to absorvidos um pelo outro, que o filho do casamento quase parece irreal a 
ambos. E, nessas circunstncias, creio que a criana acaba por se ressentir do facto, por se sentir 
defraudada e esquecida. Compreenda que no , de forma alguma, de negligncia que estou a falar. Mrs. 
Crale, por exemplo, podia ser considerada uma me extremosa, sempre preocupada com o bem-estar da 
Carla, com a sua sade... brincando com ela nos momentos prprios e sempre bondosa e

110 alegre. Mas apesar de tudo isso, Mrs. Crale vivia completamente absorvida pelo marido. Pode-se dizer 
que existia unicamente atravs dele e para ele. Miss Williams calou-se, acrescentando em seguida, 
calmamente: -  essa, julgo, a justificao do que veio mais tarde a fazer.

- Quer dizer que eram mais como amantes do que como marido e mulher? - perguntou Hercule Poirot.

Miss Williams, franzindo ligeiramente o sobrolho, em sinal de desagrado com a fraseologia dos 
estrangeiros, respondeu:

- Pode-se certamente caracterizar assim a situao.

- Ele era-lhe to dedicado a ela como ela a ele?

- Eram um casal dedicado um ao outro. Mas ele, naturalmente, era homem.

Miss Williams esforou-se por carregar a ltima palavra de uma conotao inteiramente vitoriana.

- Os homens... - disse Miss Williams, calando-se.

Como um proprietrio abastado diz bolcheviques, como um comunista sincero diz capitalistas!, como 
uma boa dona de casa diz baratas, assim Miss Williams disse homens!

Da sua vida de solteirona, de preceptora, irrompeu uma exploso de feroz feminismo. Ningum que a 
ouvisse falar duvidaria de que, para Miss Williams, os Homens eram o Inimigo!

- No pegaria em armas por um homem? - perguntou Poirot.

Ela respondeu secamente: - Os homens ficam sempre com o melhor quinho. Espero que no seja sempre 
assim.

Hercule Poirot olhou-a, conjecturando. Podia visualizar facilmente Miss Williams acorrentar-se, eficiente e 
metodicamente, a uma grade e a dar incio a uma greve de fome com persistncia determinada. Passando 
do geral ao particular, perguntou:

- A senhora no gostava de Amyas Crale?

- No, efectivamente no gostava do Amyas Crale. Nem aprovava o seu comportamento. Se fosse sua 
mulher, t-lo-ia deixado. H coisas que uma mulher no devia ter de suportar.

- Mas Mrs. Crale suportou-as?

- Sim.

- Achou que era um erro?

111
Sim, e acho. Uma mulher deve ter algum amor-prprio e no se submeter a humilhaes.

Alguma vez expressou essa opinio a Mrs. Crale?

Com certeza que no. No me competia faz-lo. Fui contratada para educar a Angela e no para dar 
conselhos a Mrs. Crale, sem me serem pedidos. Se o fizesse, seria uma impertinncia.

Gostava de Mrs. Crale?

Gostava muito de Mrs. Crale. O tom de eficincia abrandou, revelando afecto e emoo. Gostava muito dela 
e sentia imensa pena dela

E a sua pupila, a Angela Warren?

Era uma rapariga muito interessante, uma das pupilas mais interessantes que j tive. Muito inteligente. 
Indisciplinada, temperamental, difcil de lidar em certos aspectos, mas um carcter francamente excelente. 
Fez uma pausa e prosseguiu. Sempre esperei que viesse a fazer coisas importantes. E veio! Leu o livro 
dela sobre o Saara? E escavou esses tmulos interessantes no Fayum! Sim, sinto orgulho na Angela. No 
estive muito tempo em Alderbury... dois anos e meio... mas sempre alimentei a convico de que ajudei a 
estimular o seu raciocnio e a encorajar o seu gosto pela arqueologia

Ao que sei murmurou Poirot, decidiram envi-la para o colgio, para continuar a sua educao. A senhora 
deve ter ficado ressentida com essa deciso

De maneira nenhuma, M. Poirot. Concordei plenamente com ela. Aps uma pausa, continuou. Deixe-me 
esclarecer uma coisa. A Angela era uma rapariga muito querida... muito querida mesmo... afectuosa e 
impulsiva... mas era tambm o que eu chamo uma rapariga difcil. Ou seja, estava numa idade difcil. H 
sempre uma fase em que as raparigas se sentem inseguras, a fase em que j no so crianas, nem so 
ainda mulheres. Num momento, a Angela era sensata e madura, bastante crescida at, mas no momento 
seguinte tinha as suas recadas de maria-rapaz, pregando partidas maldosas, sendo rude e perdendo o 
controle. Sabe, as raparigas parecem difceis nessa idade... so terrivelmente sensveis. Ressentem-se de 
tudo o que se lhes diz. Ficam aborrecidas, quando so tratadas como crianas, e de repente intimidam-se, 
quando so tratadas como adultas. A Angela atravessava essa fase. Tinha ataques de mau gnio, ofendia-
se, quando se metiam com ela, e zangava-se... e depois amuava durante dias a fio, sentada pelos cantos, 
de

112

mau humor... e a seguir, animava-se novamente, trepava s rvores, andava com os rapazes que ajudavam 
no jardim, recusando submeter-se a qualquer espcie de autoridade.

Miss Williams fez uma pausa e prosseguiu:

- Quando uma rapariga chega a essa idade, a escola  muito til. Faz-lhe falta o estmulo de outras 
mentalidades, alm da disciplina saudvel de uma comunidade que a ajudar a tornar-se um membro 
aceitvel da sociedade. O ambiente familiar da Angela no era ideal, na minha opinio. Para comear, Mrs. 
Crale estragava-a com mimos. Bastava que a Angela fosse a correr ter com ela e Mrs. Crale apoiava-a 
sempre. Em resultado, a Angela achava-se com direito a todo o tempo e ateno da irm e era este estado 
de esprito que a fazia entrar em conflito com Mr. Crale. Este considerava naturalmente que devia estar em 
primeiro lugar... e pretendia que tal acontecesse. Gostava muito da rapariga... eram bons companheiros e 
costumavam pegar um com o outro num tom amistoso, mas havia alturas em que a preocupao de Mrs. 
Crale com a Angela desagradava subitamente a Mr. Crale. Como todos os homens, era um menino 
mimado; esperava que toda a gente o cumulasse de atenes. Ento tinha zangas violentas com a Angela, 
e Mrs. Crale quase sempre acorria em defesa desta. Ele ficava furioso. Por outro lado, se ela o apoiasse a 
ele, a Angela ficava furiosa. Era nestas ocasies que a Angela retomava as suas atitudes infantis e lhe 
pregava alguma partida. Ele tinha o hbito de ingerir as bebidas de um trago e, uma vez, ela ps-lhe muito 
sal no copo. Aquilo actuou como um emtico e ele perdeu as estribeiras. Mas o que realmente provocou a 
crise foi quando ela lhe enfiou uma srie de lesmas na cama. Ele tinha uma repugnncia anormal por 
lesmas. Perdeu completamente a cabea e disse que a rapariga devia ir para o colgio. No estava 
disposto a continuar a aturar aqueles disparates. A Angela ficou terrivelmente perturbada, embora ela 
prpria tivesse expressado, numa ou noutra ocasio, a vontade de ir para um colgio interno, mas naquele 
momento decidiu fazer do caso uma ofensa imperdovel. Mrs. Crale no queria que ela fosse, mas deixou-
se convencer... em grande parte, julgo, resultante do meu ponto de vista sobre o assunto. Fiz-lhe ver que 
seria extremamente benfico para a Angela e que lhe traria, na minha opinio, grandes vantagens. Foi 
ento decidido que iria para Helston no Outono... um colgio excelente na costa sul. Mas, durante essas 
frias, Mrs. Crale continuava insatisfeita com

113a soluo. E Angela foi alimentando um certo rancor contra Mr. Cral sempre que se lembrava. No era 
nada de grave, compreenda, M. Poirot, mas criou uma espcie de pano de fundo latente, durante todo o 
Vero, para tudo... enfim, para tudo o mais que se passava.

Refere-se a Elsa Greer? perguntou Poirot.

Precisamente respondeu Miss Williams incisivamente, cerrando firmemente os lbios.

Que opinio tinha de Elsa Greer?

No me rebaixava ao ponto de ter uma opinio sobre ela. Uma mulher sem escrpulos dos ps  cabea.

Era muito jovem.

Tinha idade suficiente para ter juzo. No encontro qualquer desculpa para o seu comportamento... nem 
uma.

Imagino que se apaixonou por ele... Miss Williams interrompeu-o, resfolegando.

Apaixonou-se por ele, no h dvida. M. Poirot, na minha opinio, sejam quais forem os nossos 
sentimentos, devemos exercer sobre eles um controle razovel. E quanto s nossas aces, podemos 
definitivamente control-las. Essa rapariga no tinha uma ponta de moral. Para ela, o facto de Mr. Crale ser 
casado, no tinha a menor relevncia. No tinha qualquer vergonha em relao a isso... era calculista e 
determinada. Talvez tenha tido uma educao deficiente... mas, como desculpa, no posso ir mais longe.

A morte de Mr. Crale deve ter sido um choque terrvel para ela.

Foi, isso foi. E se h algum que tenha culpas,  ela. No vou ao ponto de desculpar um crime, M. Poirot, 
mas mesmo assim, se alguma mulher foi levada a um ponto de ruptura, essa mulher foi a Caroline Crale. 
Digo-lhe com toda a franqueza, houve momentos em que eu prpria senti vontade de assassin-los a 
ambos. A pavonear a rapariga nas barbas da mulher, ouvi-la, ter de suportar a sua insolncia... e olhe que 
insolncia no lhe faltava, M. Poirot. No, no, o Amyas Crale teve o que merecia. Nenhum homem deve 
tratar impunemente a mulher como ele tratou. A sua morte foi uma retaliao justa.

Fala com veemncia... observou Hercule Poirot.

A pequena Miss Williams olhou-o com os seus indmitos olhos cinzentos e disse:

114

Tenho opinies veementes em relao ao casamento, sim. A no ser que seja respeitado e mantido, um 
pas pode degenerar. Mrs. Crale era uma
esposa fiel e dedicada. O marido menosprezava-a e introduziu a amante em casa. Como disse, mereceu a 
sorte que teve. Provocou a pacincia que ela sempre demonstrara e, pela minha parte, no a censuro pelo 
que fez.

Poirot disse muito pausadamente: Ele agiu muito mal... admito... mas no se esquea de que era um 
grande artista.

Miss Williams resfolegou audivelmente: Sim, sim, eu sei. Hoje em dia, h sempre essa desculpa. Um 
artista! Uma desculpa para se ter uma vida desregrada, para a embriaguez, para a violncia, para a 
infidelidade. E que espcie de artista era Mr. Crale, quando se faz o balano final? Pode ser moda, durante 
alguns anos, admirar os seus quadros. Mas no vai durar. Ora, ele nem desenhar sabia! Tinha uma noo 
de perspectiva horrvel! At a anatomia estava toda errada. Eu sei do que estou a falar, M. Poirot. Estudei 
pintura durante algum tempo, em jovem, em Florena, e, para quem conhece e aprecia os grandes 
mestres, esses borres de Mr. Crale so realmente ridculos. Espichar umas tintas na tela... sem 
composio... sem um desenho apurado. No abanou a cabea, no me pea que admire a pintura de Mr. 
Crale.

Dois dos seus quadros esto na Tate Gallery recordou-lhe Poirot.

 possvel disse Miss Williams, desdenhosa. E tambm uma esttua de Epstein, creio.

Poirot apercebeu-se de que, para Miss Williams, estava dita a ltima palavra. Abandonou o tpico da arte.

Estava com Mrs. Crale quando ela descobriu o corpo? perguntou.

Estava. Eu e ela samos da casa juntas depois do almoo. A Angela tinha deixado ficar a camisola na 
praia, ou no barco, depois de tomar banho. Era sempre muito descuidada com as suas coisas. Quando 
chegmos  porta do jardim da Bateria, separei-me de Mrs. Crale, mas ela voltou a chamar-me quase de 
imediato. Creio que Mr. Crale estava morto h mais de uma hora. Estava estendido no banco junto ao 
cavalete.

Ela ficou muito perturbada com a descoberta?

Que quer exactamente dizer com isso, M. Poirot?

Estou a perguntar-lhe quais foram as suas impresses na altura.

Ah, compreendo. Sim, pareceu-me bastante aturdida. Mandou-me

115

chamar o mdico. Afinal, no podamos ter a certeza absoluta de que ele

estava morto... podia ter sido um ataque de catalepsia.

Ela sugeriu essa possibilidade?

No me recordo.

E a senhora foi telefonar?

O tom de Miss Williams foi seco e brusco.

J ia a meio do caminho, quando me cruzei com Mr. Meredith Blak. Confiei-lhe essa incumbncia e 
regressei para junto de Mrs. Crale. Pensei compreende, que ela pudesse ter desmaiado... e os homens no 
sabem lidar com esse tipo de situaes.

E tinha?

Mrs. Crale estava com perfeito controle disse secamente Miss Williams. Era uma pessoa muito diferente 
de Miss Greer, que fez uma fita histrica e muito desagradvel.

Que gnero de fita?

Tentou atacar Mrs. Crale.

Quer dizer que ela compreendeu que Mrs. Crale era a responsvel pela morte de Mr. Crale?

Miss Williams reflectiu por momentos.

No, era impossvel que ela tivesse a certeza disso. Essa... hum... suspeita terrvel ainda no tinha sido 
levantada. Miss Greer limitou-se a gritar: A culpa  toda tua, Caroline. Mataste-o. A culpa  tua. Ela no 
disse de facto: Envenenaste-o, mas penso que foi sem dvida o que pensou.

E Mrs. Crale?

Miss Williams mexeu-se, inquieta. Ser preciso sermos hipcritas, M. Poirot? No lhe posso dizer o que 
Mrs. Crale sentiu ou pensou naquele momento. Se foi horror perante o que tinha feito...

Pareceu-lhe horror?

N-no, n-no, no posso dizer que tenha parecido. Aturdida, sim... e assustada, creio. Sim, estou certa, 
assustada. Mas isso  perfeitamente natural

Hercule Poirot disse, num tom de voz pouco convencido:

Sim, talvez seja perfeitamente natural... Que posio adoptou oficialmente em relao  morte do marido?

116

Suicdio. Disse determinantemente, desde o incio, que s podia ser suicdio. Disse-lhe o mesmo quando 
falou consigo em privado, ou avanou jauma teoria diferente?

No. Ela... ela... fez um esforo enorme para me convencer de que s podia ter sido suicdio.

Miss Williams pareceu embaraada.

E a senhora que respondeu a isso?

Francamente, M. Poirot, que importncia tem o que eu disse?

Creio que tem muita.

No vejo porqu...

Mas, como se o silncio expectante de Poirot a tivesse hipnotizado, disse, com relutncia:

Creio que disse: Com certeza, Mrs. Crale, deve ter sido suicdio.

Estava convencida do que disse?

No, no estava disse resolutamente Miss Williams, erguendo a cabea. Mas peo-lhe que compreenda, 
M. Poirot, que eu estava inteiramente do lado de Mrs. Crale, se quiser pr as coisas nesses termos. A 
minha simpatia ia para ela, no para a polcia.

Gostaria que ela tivesse sido absolvida?

Sim, gostaria respondeu Miss Williams, em tom desafiador.

Ento tambm simpatiza com os sentimentos da filha? perguntou Poirot.

Tenho uma grande simpatia pela Carla.

Poria alguma objeco a escrever-me um relato minucioso da tragdia?

Para ela ler?

Sim.

No disse Miss Williams, pausadamente, no ponho qualquer objeco. Ela est determinada em 
investigar o assunto, no est?

Sim. Atrevo-me a dizer que teria sido prefervel se lhe tivessem escondido a verdade...

Miss Williams interrompeu-o:

No.  sempre melhor encarar a verdade. No adianta fugir  infelicidade, deturpando os factos. A Carla 
recebeu um choque ao saber da

117

verdade... agora quer compreender exactamente como se deu a tragdia. Parece-me a atitude correcta que 
uma jovem corajosa deve tomar. Quando estiver de posse de todos os factos, poder esquecer tudo e 
continuar a viver a sua vida. |||

Talvez tenha razo comentou Poirot. Estou certa de que tenho razo. Mas a questo tem mais que se lhe 
diga, compreende. Ela no quer apenas conhecer a verdade... quer provar a inocncia da me. Pobre 
rapariga disse Miss Williams.  o que acha? Agora compreendo por que razo disse que seria melhor se 
ela nunca soubesse disse Miss Williams. Mesmo assim, acho melhor que saiba. Desejar provar a 
inocncia da me  uma esperana natural... e difcil, perante a descoberta que poder fazer, mas creio 
que, pelo que diz dela, a Carla  suficientemente corajosa para suportar a verdade e no fugir dela.

Est certa de que  a verdade?

No compreendo.

No v nenhuma abertura que permita acreditar na inocncia de Mrs. Crale?

Julgo que essa possibilidade nunca foi seriamente considerada.

E, no entanto, ela prpria insistiu na teoria do suicdio?

A pobre senhora tinha de dizer alguma coisa disse secamente Miss Williams.

Sabe que, quando Mrs. Crale estava s portas da morte, deixou uma carta  filha, em que jura solenemente 
estar inocente?

No devia t-lo feito disse bruscamente Miss Williams, fitando Poirot.

Acha?

Sim, acho. Ora, o senhor  um sentimentalista como a maioria dos homens...

Poirot interrompeu, indignado:

Eu no sou sentimentalista.

Mas os falsos sentimentos existem. Para qu escrever uma coisa dessas, uma mentira, num momento to 
solene? Para poupar a dor da filha? Sim. muitas mulheres fariam o mesmo. Mas nunca teria julgado Mrs. 
Crale capaz

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disso. Era uma mulher corajosa e sincera. Consideraria mais prprio dela ter dito  filha que no fizesse 
juzos.

Poirot disse, num tom ligeiramente exasperado:

No considera sequer a possibilidade de que Caroline Crale tenha escrito a verdade?

De maneira nenhuma!

E contudo afirma ter nutrido afecto por ela.

E nutri. Uma enorme afeio e uma compaixo profunda.

Bem, ento...

Miss Williams olhou-o com uma expresso estranha.

No est a compreender, M. Poirot. Agora no tem importncia que eu o diga... j passou muito tempo. 
Mas, sabe, acontece que eu sei que Caroline Crale foi culpada!

Como?

 verdade. No sei se fiz bem em guardar para mim o que sabia na altura... mas o facto  que guardei. Tem 
de acreditar na minha palavra, definitivamente, eu sei que Caroline Crale foi culpada...

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CAPTULO X

ESTE PORQUINHO GUINCHOU Hi Hi Hi

O apartamento de Angela Warren era virado para Regents Park. Neste dia primaveril, entrava pela janela 
aberta uma leve aragem, transmitindo a iluso de se estar no campo, se no fosse o estrpito constante e 
ameaador do trfego que circulava em baixo.

Poirot, que estava junto da janela, voltou-se, quando a porta abriu e Angela Warren entrou na sala.

No era a primeira vez que a via. Tinha aproveitado uma oportunidade para assistir a uma palestra que ela 
proferira na Royal Geographical. Tinha sido, na sua opinio, uma palestra excelente. Talvez maadora, do 
ponto de vista do gosto popular. Miss Warren possua um estilo de discurso esplndido, sem pausas nem 
hesitaes  procura das palavras. No se repetia. Os seus tons de voz eram claros e harmoniosos. No 
fazia concesses ao gosto romntico, nem ao amor de aventura. O interesse humano da palestra era 
reduzido. Foi uma exposio admirvel de factos concisos, apropriadamente ilustrada com diapositivos 
excelentes e com dedues inteligentes dos factos expostos. Seca, precisa, clara, lcida, altamente 
tcnica.

Mereceu a profunda aprovao de Hercule Poirot. Estava perante uma mente ordenada.

Agora que a via de perto, apercebeu-se de que Angela Warren podia facilmente ter sido uma mulher muito 
bela. As suas feies eram regulares, ainda que austeras. Tinha sobrancelhas escuras finamente 
marcadas, olhos castanhos lcidos e inteligentes e uma pele fina e clara. Tinha ombros quadrados e um 
andar levemente masculino.

A sua figura no sugeria, de maneira alguma, o porquinho que guincha hi hi hi. Mas, na face direita, 
desfigurando e arrepanhando a pele, exibia essa cicatriz sarada. O olho direito era ligeiramente torto, o 
canto puxado Para baixo, mas ningum daria conta de que a viso desse olho fora destruda.


121

Pareceu quase certo a Hercule Poirot que vivera com esta deficincia durante tanto tempo que no tinha 
agora qualquer conscincia dela. E ocorreu-lhe, que, das cinco pessoas por quem se tinha interessado em 
resultado das suas investigaes, aquelas que se poderia dizer terem  partida as maiores vantagens no 
eram as que realmente usufruam de maior sucesso e felicidade na vida. Elsa, de quem se poderia dizer 
dispor  partida de todas as vantagens juventude, beleza, fortuna era a que pior se sara. Era como uma flor 
submergida por uma geada prematura ainda em boto mas sem vida. Cecilia Williams, em matria de 
aparncia no possua trunfos de que pudesse vangloriar-se. No entanto, aos olhos de Poirot, no 
demonstrava desnimo, nem um sentido de fracasso. A vida de Miss Williams tinha sido, para ela, 
estimulante; era uma pessoa que continuava a interessar-se pelas outras pessoas e por aquilo que se 
passava  sua volta. Possua essa enorme vantagem mental e moral de uma severa educao vitoriana que 
nos  negada nos dias de hoje. Havia cumprido o seu dever na vida para que fora chamada pela vontade de 
Deus, e essa certeza encapsulava-a numa armadura impregnvel aos golpes da inveja, do 
descontentamento e do remorso. Tinha as suas recordaes, os seus pequenos prazeres, possibilitados 
por rigorosas economias, e sade e vigor suficientes para poder manter o seu interesse pela vida.

J em Angela Warren esta jovem criatura debilitada pela desfigurao e pela humilhao decorrente, Poirot 
julgava entrever um esprito fortalecido por uma luta necessria para conquistar segurana e autoconfiana. 
A indisciplinada menina de escola tinha dado lugar a uma mulher cheia de vitalidade e fora, uma mulher de 
considervel poder mental e dotada de abundante energia para realizar objectivos ambiciosos. Era uma 
mulher, Poirot estava certo, simultaneamente feliz e bem sucedida. Tinha uma vida preenchida, alegre e 
eminentemente agradvel.

Acontecia que no era o tipo de mulher que agradava realmente a Poirot. Embora admirasse a preciso 
objectiva da sua mente, achava-a possuidora de um toque de femme formidable, suficiente para alarm-lo, 
enquanto homem. O seu gosto sempre dera preferncia ao espaventoso e ao extravagante.

Com Angela Warren, era fcil ir directamente ao motivo da sua visita. No havia subterfgios. Limitou-se a 
relatar a conversa que Carla Lemarchant tivera com ele.

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O rosto austero de Angela Warren iluminou-se, em sinal de apreciao.

A pequena Carla? Ela est c? Gostava imenso de estar com ela. No manteve o contacto com ela?

No tanto quanto devia ter mantido. Ainda estava no colgio na poca em que ela partiu para o Canad, e 
sabia, naturalmente, que no espao de um ou dois anos j nos teria esquecido. Ultimamente, o nico elo 
entre ns tem sido uma prenda de Natal espordica. Imaginei que, por esta altura, estaria totalmente 
imbuda na atmosfera canadiana e que o seu futuro estaria a. Teria sido melhor, dadas as circunstncias.

Assim se poderia pensar, sem dvida disse Poirot. Uma mudana de nome, uma mudana de cenrio. 
Uma nova vida. Mas no estava destinado a ser assim to simples.

Falou ento do noivado de Carla Lemarchant, da sua descoberta, ao atingir a maioridade, e dos motivos da 
sua vinda para Inglaterra.

Angela Warren ouviu silenciosamente, a sua face desfigurada apoiada numa mo. No traiu qualquer 
emoo, durante este relato, mas quando Poirot terminou, disse calmamente:

Ainda bem para a Carla.

Poirot ficou admirado. Era a primeira vez que presenciava esta reaco.

Aprova, Miss Warren? perguntou.

Com certeza. Desejo-lhe as maiores felicidades. Farei o que puder para ajudar. Compreende, sinto-me 
culpada por no ter feito pessoalmente qualquer tentativa.

Cr ento que existe uma possibilidade de que o seu ponto de vista esteja certo?

Angela Warren disse rispidamente:

 evidente que est certo. No foi a Caroline. Sempre soube isso.

Devo dizer que me surpreende imenso, mademoiselle murmurou Hercule Poirot. As outras pessoas com 
quem falei, todas...

Ela atalhou, bruscamente:

No se deve fiar nisso. Estou ciente de que as provas circunstanciais so esmagadoras. A minha prpria 
convico baseia-se no conhecimento... io conhecimento da minha irm. Sei, muito simples e 
definitivamente, que a Caro no podia ter morto ningum.

123

Acha que se pode dizer isso com absoluta certeza sobre qualquer criatura humana?

Na maior parte dos casos, talvez no. Concordo que o ser humano est cheio de surpresas curiosas. Mas, 
no caso da Caroline, havia razes especiais... razes que eu estou em posio de avaliar melhor do que 
ningum.

Tocou na face deformada.

Est a ver isto? Provavelmente j conhece a histria. Poirot assentiu. Foi a Caroline que mo fez.  por isso 
que tenho a certeza... sei... que ela no o assassinou.

No seria um argumento convincente para a maioria das pessoas.

No, seria o contrrio. Foi, na verdade, usado dessa forma, julgo. Como prova de que a Caroline tinha um 
temperamento violento e indomvel! Por me ter ferido, quando eu era beb, homens cultos argumentaram 
que ela seria igualmente capaz de envenenar um marido infiel.

Eu, pelo menos, fui capaz de apreciar a diferena disse Poirot. Um acesso sbito de raiva incontrolvel no 
leva ningum, primeiro, a subtrair um veneno e, depois, a us-lo intencionalmente no dia seguinte.

Angela Warren agitou uma mo impaciente.

No foi, de modo nenhum, o que eu quis dizer. Tenho de tentar esclarecer. Supondo que  uma pessoa por 
norma afectuosa e de carcter bondoso... mas que  igualmente capaz de sentir cimes intensos. E 
supondo que, durante os anos da sua vida em que  mais difcil exercer o autocontrole, fica, num acesso 
de raiva, efectivamente perto de cometer o que , na realidade, assassnio. Pense no choque terrvel, no 
horror, no remorso que toma conta da pessoa. Para algum sensvel como a Caroline, esse horror e 
remorso nunca abandonam a pessoa. Nunca a abandonou. Penso que no tinha total conscincia disso na 
altura, mas em retrospectiva, reconheo-o perfeitamente. A Caro vivia assombrada, perpetuamente 
assombrada, pelo facto de me ter desfigurado. Esse sentimento nunca lhe deu descanso. Influenciava 
todos os seus actos. Explicava a sua atitude para comigo. Nada era bom de mais para mim. Aos seus 
olhos, eu tinha de estar sempre em primeiro lugar. Metade das discusses que tinha com o Amyas eram 
por minha causa. Eu era atreita a sentir cimes e pregava-lhe partidas de todo o gnero. Surripiava aquela 
coisa dos gatos para lhe meter nas bebidas e uma vez enfiei-lhe um ourio-cacheiro na cama. Mas a 
Caroline tomava sempre o meu partido. -~

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Fez uma pausa e prosseguiu: Claro que s me fazia mal. Tornei-me horivelmente mimada. Mas isso no  
para aqui chamado. Estamos a discutir o efeito sobre a Caroline. O resultado desse impulso violento foi a 
rejeio, que a acompanhou toda a vida, de qualquer outro acto semelhante. A Caro exercia uma vigilncia 
constante sobre si mesma, vivia num temor permanente de que qualquer coisa desse gnero pudesse voltar 
a acontecer. E tinha os seus processos para se precaver contra essa possibilidade. Um deles era uma 
grande extravagncia de linguagem. Ela achava (e eu creio que era psicologicamente verdade) que, se 
fosse violenta no discurso, no sentiria a tentao de ser violenta nos actos. Descobriu por experincia 
prpria que o mtodo funcionava. Foi por isso que ouvi a Caro dizer coisas como: Apetecia-me retalhar 
fulano de tal em pedaos e p-lo a ferver lentamente em leo. E dizia-me ou dizia ao Amyas: Se 
continuas a aborrecer-me, mato-te. Do mesmo modo, envolvia-se facilmente em violentas quezlias. 
Reconhecia, julgo, o impulso para a violncia da sua natureza e encontrou assim deliberadamente uma 
sada para ele. Ela e o Amyas costumavam ter brigas tremendas e chocantes.

Sim, recolhi depoimentos nesse sentido. Discutiam como co e gato, disseram-me assentiu Hercule 
Poirot.

Angela Warren disse:

Exactamente.  isso que  enganador e estpido nos depoimentos. Claro que a Caro e o Amyas discutiam! 
Claro que diziam um ao outro coisas azedas, ofensivas e cruis! O que ningum reconhece  que eles 
gostavam de discutir. Gostavam sinceramente! O Amyas tambm gostava. Eram um casal desse tipo. 
Gostavam ambos de drama e de cenas emocionais. A maior parte dos homens no gosta. Gosta de paz. 
Mas o Amyas era um artista. Gostava de berrar e de ameaar e de ser, em geral, ofensivo. Era assim que 
descarregava. Era o gnero de homem que, quando perdia o boto do colarinho, deitava a casa abaixo. Eu 
sei que parece estranho, mas era com essa vida de brigas permanentes, seguidas de reconciliaes, que o 
Amyas e a Caroline se divertiam!

Fez um gesto de impacincia.

Se no me tivessem mandado para longe e me tivessem deixado prestar o meu depoimento, ter-lhes-ia dito 
exactamente isso. Encolheu os ombros. Mas suponho que no teriam acreditado em mim. E, de qualquer 
forma, no seria to claro para mim na altura como  agora. Era o gnero de

125

coisa que eu sabia, mas em que no tinha pensado e muito menos sonhado em exprimir por palavras. 
Olhou para Poirot. Compreende o que quero dizer?

Compreendo perfeitamente anuiu ele com vigor. E compreendo a justeza absoluta do que disse. H 
pessoas para quem o consenso  uma monotonia. Precisam do estimulante da dissenso para criar drama 
nas suas vidas.

Precisamente.

Posso perguntar-lhe, Miss Warren, o que sentiu na altura? Angela Warren suspirou.

Sobretudo perplexidade e impotncia, creio. Pareceu-me um pesadelo desmesurado. A Caroline foi presa 
pouco depois... cerca de trs dias depois, acho eu. Ainda recordo a minha indignao, a minha fria 
muda... e, claro, a minha f infantil de que fosse tudo um erro estpido, de que tudo acabasse em bem. A 
Caro ficou principalmente preocupada comigo... quis manter-me o mais longe possvel de tudo. Pediu a 
Miss Williams que me levasse quase de imediato para casa de uns parentes. A polcia no levantou 
objeces. E depois, quando decidiram que o meu depoimento no era necessrio, fizeram diligncias para 
me enviar para um colgio no estrangeiro. Abominei a ideia de ir, claro. Mas explicaram-me que a Caro s 
pensava em mim e que a nica maneira de ajud-la era ir.

Fez uma pausa e continuou:

Fui ento para Munique. Estava l quando... quando foi lido o veredicto. Nunca me deixaram visitar a Caro. 
Ela proibiu-o. Foi a nica vez, na minha opinio, em que demonstrou falta de compreenso.

No pode estar certa disso, Miss Warren. Visitar um ente querido na priso pode causar uma impresso 
terrvel a uma jovem rapariga com sensibilidade.

Possivelmente.

Angela Warren levantou-se e disse:

Depois do veredicto, quando foi condenada, a minha irm escreveu-me uma carta. Nunca a mostrei a 
ningum. Acho que devo mostrar-lha a si agora. Poder ajudar a compreender o gnero de pessoa que a 
Caroline era. Se quiser, pode lev-la para mostrar igualmente  Carla.

Dirigiu-se  porta e, voltando-se, disse:

126

- Venha comigo. Tenho um retrato da Caroline no meu quarto.

Pela segunda vez, Poirot achou-se a contemplar um retrato.

Enquanto pintura, o retrato de Caroline Crale era medocre. Mas Poirot admirou-o com interesse; no era o 
seu valor artstico que lhe interessava.

Viu um rosto oval comprido, uma linha de maxilar elegante e uma expresso meiga e ligeiramente tmida. 
Era um rosto inseguro de si prprio, emotivo, com uma beleza introvertida e escondida. Faltava-lhe a fora e 
a vitalidade do rosto da filha essa energia e alegria de viver que Carla Lemarchant tinha inquestionavelmente 
herdado do pai. Esta era uma criatura menos positiva. Porm, olhando para o rosto pintado, Hercule Poirot 
compreendeu a razo por que um homem imaginativo como Quentin Fogg no fora capaz de esquec-la.

Angela Warren estava novamente ao seu lado com uma carta na mo. Disse calmamente:

Agora que viu que aparncia ela tinha, leia a carta.

Ele desdobrou-a cuidadosamente e leu o que Caroline Crale tinha escrito dezasseis anos antes.

Minha querida Angela,

Vais receber ms notcias e vais chorar, mas quero que acredites que vai correr tudo bem. Nunca te disse 
mentiras e no digo agora, quando afirmo que me sinto, na verdade, feliz que sinto uma equidade essencial 
e uma paz que nunca conheci antes. Est tudo bem, querida. No olhes para trs, no me lamentes nem 
me chores continua a tua vida e vence. Eu sei que s capaz.  tudo, minha querida, e eu vou ter com o 
Amyas. No tenho a menor dvida de que vamos reencontrar-nos. No seria capaz de viver sem ele... F-lo 
por mim, s feliz. Pela minha parte, j to disse sou feliz. Uma pessoa tem de pagar pelo que faz. Sabe 
bem sentirmo-nos em paz.

A tua irm que te adora

Caro

Hercule Poirot leu-a duas vezes. Em seguida, devolveu-a e disse:

 uma carta muito bonita, mademoiselle... e notvel. Absolutamente notvel.

127

A Caroline disse Angela Warren era uma pessoa notvel

Sim, uma mente fora do comum... Considera que esta carta indica a sua inocncia?

Com certeza que indica!

No o diz explicitamente.

Porque a Caro sabia que nunca me passaria pela cabea consider-la culpada!

Talvez... talvez... Mas pode ser interpretada de outro modo. No sentido em que, sendo culpada, encontraria 
paz na expiao do seu crime.

Encaixava, pensou, na descrio que fora feita dela em tribunal. E, neste momento, invadiam-no as dvidas 
mais fortes at aqui sentidas com respeito  linha de aco por que tinha enveredado. At agora, tudo tinha 
apontado inabalavelmente para a culpa de Caroline Crale. Agora, at as suas palavras constituam um 
testemunho contra ela.

Do outro lado, apenas existia a firme convico de Angela Warren. Angela tinha-a conhecido bem, 
inquestionavelmente, mas no poderia a sua certeza advir da lealdade cega de uma rapariga adolescente, 
pronta a saltar em defesa da irm bem-amada?

Como se lhe tivesse lido os pensamentos, Angela Warren disse:

No, M. Poirot... eu sei que a Caroline no foi culpada.

O Bon Dieu sabe que no quero dissuadi-la nesta matria disse vivamente Poirot. Mas sejamos prticos. A 
senhora diz que a sua irm no foi culpada. Pois, muito bem, que aconteceu de facto?

Angela acenou pensativamente com a cabea e disse:

 um ponto difcil, concordo. Suponho, como disse a Caroline, que o Amyas se suicidou.

Isso  provvel, pelo que conhecia do seu carcter?

Muito improvvel.

Mas no diz, como no primeiro caso, que sabe que era impossvel?

No, porque, como acabei de dizer, a maioria das pessoas faz realmente coisas impossveis... isto , 
coisas que parecem desajustadas do seu carcter Mas presumo, quando as conhecemos intimamente, 
que no so assim to desajustadas.

Conhecia bem o seu cunhado?

Sim, mas no como conhecia a Caro. Parece-me uma hiptese muito

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rebuscada que o Amyas se tenha suicidado... mas suponho que podia ter-se suicidado. Deve t-lo feito, 
alis. No v outra explicao? Angela aceitou calmamente a sugesto, mas no sem uma ponta de 
interesse.

- Pois, compreendo o que quer dizer... Nunca considerei essa possibilidade. Quer dizer que uma das outras 
pessoas o assassinou? Que foi um assassnio premeditado, a sangue-frio...

Poderia ter sido, ou no?

Sim, poderia ter sido... Mas parece realmente muito improvvel.

Mais improvvel do que suicdio?

 difcil dizer...  primeira vista, no havia razes para suspeitar de nenhuma outra pessoa. Mesmo agora, 
em retrospectiva, no vejo nenhuma...

Mesmo assim, consideremos essa possibilidade. Quem, dentre as pessoas intimamente envolvidas, diria 
que era... v l... a mais provvel?

Deixe-me pensar. Bem, eu no o matei. E essa criatura, a Elsa, no matou com certeza. Ficou louca de 
raiva, quando ele morreu. Quem mais estava presente? O Meredith Blake? Sempre foi muito dedicado  
Caroline, era como um gatinho manso pela casa. Suponho que, num certo sentido, isso podia dar-lhe um 
motivo. Num romance, ele era capaz de querer livrar-se do Amyas para poder casar com a Caroline. Mas 
teria atingido esse objectivo do mesmo modo, deixando o Amyas partir com a Elsa e, consolando depois a 
Caroline, quando chegasse a altura certa. Alm disso, no consigo imaginar realmente o Meredith como 
um assassino.  demasiado brando e prudente. Quem mais l estava?

Miss Williams? Philip Blake? sugeriu Poirot.

A expresso grave de Angela descontraiu, esboando um breve sorriso.

Miss Williams?  impossvel convencermo-nos de que a nossa preceptora possa cometer um crime! Miss 
Williams era sempre to inflexvel e to cheia de integridade. Fez uma curta pausa e continuou: Era muito 
dedicada  Caroline, naturalmente. Faria tudo por ela. E detestava o Amyas. Era uma grande feminista e 
sentia averso pelos homens. Mas ser suficiente Para matar algum? Duvido.

Dificilmente seria o caso concordou Poirot.

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O Philip Blake? continuou Angela, calando-se, em seguida, durante alguns momentos e acrescentando 
calmamente: Sabe, acho que estamos simplesmente a falar de probabilidades, ele seria a pessoa mais 
provvel.

A senhora interessa-me muito, Miss Warren comentou Poirot. Posso perguntar-lhe por que razo diz isso?

Por nenhuma razo definida. Mas, pelo que recordo dele, atrevo-me a dizer que era uma pessoa de 
imaginao muito limitada.

E uma imaginao limitada cria uma predisposio para matar?

Pode levar uma pessoa a tomar medidas drsticas, quando pretende resolver dificuldades. Os homens 
desse tipo retiram uma certa satisfao de se envolverem na aco, seja de que tipo for. O assassnio  
uma coisa muito drstica, no lhe parece?

Sim... julgo que tem razo...  definitivamente um ponto de vista, esse. Mas, mesmo assim, Miss Warren, 
tem de haver mais qualquer coisa. Que motivo podia ter tido Philip Blake?

Angela Warren no respondeu de imediato. Baixou os olhos, fixando o cho com uma expresso sria.

Era o melhor amigo de Amyas Crale, no era? perguntou Hercule Poirot.

Ela anuiu.

Mas est a pensar em qualquer coisa, Miss Warren. Qualquer coisa que ainda no me disse. Os dois 
homens eram rivais, em relao  rapariga... a Elsa?

Angela Warren abanou a cabea.

No, no, o Philip no.

Que h ento?

Angela Warren disse pausadamente:

Sabe como, de repente, as coisas nos vm  memria... talvez ao fim de muitos anos. Eu explico o que 
quero dizer. Uma vez, contaram-me uma histria, quando eu tinha onze anos. No achei a histria 
minimamente interessante. No me disse nada... entrou simplesmente por um ouvido e saiu por outro. 
Creio que nunca mais pensei nela. Mas, h cerca de dois anos, sentada na plateia num espectculo 
musical, a histria voltou-me  lembrana e fiquei to surpreendida que cheguei mesmo a dizer em voz alta: 
Ah, agora.

130percebo aquela histria idiota sobre o arroz-doce. E contudo no tinha havido qualquer aluso directa, 
nos mesmos termos... apenas uma referncia qualquer engraada.

- Compreendo o que quer dizer, mademoiselle disse Poirot.

Ento compreender o que lhe vou dizer. Uma vez estava alojada num hotel. Ia pelo corredor e a porta de 
um dos quartos abriu-se e saiu uma mulher que eu conhecia. No era o seu quarto... e a sua expresso, 
quando me viu, denunciou totalmente esse facto. Foi ento que compreendi o significado da expresso que 
vi uma vez na Caroline, quando ela saiu do quarto do Philip Blake uma noite, em Alderbury.

Inclinou-se para a frente, impedindo que Poirot interrompesse.

Na altura no fazia ideia. Sabia coisas... as raparigas da minha idade normalmente sabem... mas no as 
associava  realidade. A Caroline a sair do quarto do Philip Blake, para mim, era simplesmente a Caroline a 
sair do quarto do Philip Blake. Podia ser do quarto de Miss Williams ou do meu quarto. Mas aquilo em que 
reparei, sim, foi na expresso do seu rosto... uma expresso estranha que eu no conhecia e no entendia. 
No a entendi, como lhe disse, at essa noite, em Paris, em que vi a mesma expresso no rosto de outra 
mulher.

Mas o que me est a dizer, Miss Warren disse Poirot, lentamente,  verdadeiramente espantoso. Fiquei 
com a impresso, pela conversa com o prprio Philip Blake, de que ele no gostava da sua irm e de que 
nunca gostara.

Eu sei disse Angela. No consigo explicar, mas  um facto. Poirot fez um aceno lento de cabea. J na 
sua conversa com Philip Blake,

tinha sentido vagamente que havia qualquer coisa que soava a falso. A sua exagerada animosidade em 
relao a Caroline, por qualquer razo, no tinha sido natural.

E as palavras e frases da sua conversa com Meredith Blake vieram-lhe  memria. Muito aborrecido 
quando o Amyas casou no procurou a companhia de ambos durante mais de um ano...

Ento, Philip tinha sempre alimentado uma paixo por Caroline? E esta Paixo, quando ela preferiu Amyas, 
transformou-se em azedume e dio?

Sim, Philip tinha sido demasiado veemente... demasiado parcial. Poirot suavizou-o reflexivamente o homem 
prspero e jovial, com o seu golfe e

131

a sua confortvel casa. Que sentira realmente Philip Blake dezasseis anos antes?

Angela Warren estava a falar:

No compreendo.  que eu no tenho qualquer experincia em relaes amorosas... nunca aconteceram 
comigo. Contei-lhe isto, caso possa servir para alguma coisa... caso possa ter alguma implicao no que 
aconteceu.

132

LIVRO II

RELATO DE PHILIP BLAKE

(Carta de rosto recebida com o manuscrito)

Caro M. Poirot,

Venho cumprir a minha promessa e juntar  presente um relato dos acontecimentos relacionados com a 
morte de Amy as Crale. Ao fim de todo este tempo, sinto-me obrigado a sublinhar que as minhas 
recordaes podem no ser rigorosamente exactas, mas pus por escrito o que se passou, tanto quanto fui 
capaz de recordar.

Melhores cumprimentos,

Philip Blake

Notas sobre o Curso dos Acontecimentos que Levaram ao Assassnio de Amyas Crale, em Setembro de 
19...

A minha amizade com o defunto remonta ao perodo da nossa infncia. A sua casa e a minha, no campo, 
confinavam uma com a outra e as nossas famlias eram amigas. O Amyas Crale era pouco mais de dois 
anos mais velho do que eu. Em rapazes, brincvamos juntos, nas frias, embora no frequentssemos a 
mesma escola.

Do ponto de vista do meu conhecimento de longa data da pessoa, sinto-me particularmente qualificado para 
discorrer sobre o seu carcter e perspectivas gerais sobre a vida. E digo desde j o seguinte para quem 
conhecesse bem o Amyas Crale, a ideia de que se suicidou  absolutamente ridcula. Era um entusiasta 
da vida! Os argumentos da defesa no julgamento, afirmando que Crale vivia obcecado com problemas de 
conscincia e se envenenou num assomo de remorso, so perfeitamente absurdos para qualquer pessoa 
que o conhecesse. Devo dizer que Crale tinha muito poucos

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problemas de conscincia e, de modo nenhum, uma conscincia mrbida. Alm disso, ele e a mulher 
estavam de ms relaes e no me parece que ele tivesse muitos escrpulos em romper o que, para ele, 
era um casamento insatisfatrio. Estava pronto a cuidar das suas necessidades financeiras e das da filha 
do casamento, e estou certo de que o teria feito generosamente. Ele era um homem muito generoso e, no 
geral, uma pessoa bondosa e de quem se gostava. No s era um pintor talentoso, mas um homem cujos 
amigos lhe eram dedicados. Tanto quanto sei, no tinha inimigos.

Tambm conhecia a Caroline Crale h muitos anos. Conheci-a antes de se casar, quando costumava 
passar algumas temporadas em Alderbury. Na altura, era uma rapariga algo neurtica, dada a exploses 
descontroladas de mau gnio, no completamente desprovida de atractivos, mas inquestionavelmente uma 
pessoa com quem era difcil viver.

Demonstrou a sua devoo pelo Amyas quase de imediato. No creio que ele estivesse realmente muito 
apaixonado por ela. Mas acontecia que estavam frequentemente juntos como disse, ela era atraente e 
acabaram por ficar noivos. Os melhores amigos do Amyas Crale sentiram-se bastante apreensivos com o 
noivado, pois no consideravam que a Caroline fosse a pessoa indicada para ele.

Esta situao causou alguma tenso, nos primeiros anos, entre a mulher de Crale e os seus amigos, mas 
o Amyas era um amigo leal e no estava disposto a desistir dos velhos amigos s porque a mulher lho 
exigia. Ao fim de alguns anos, eu e ele retommos a nossa amizade e eu passei a frequentar 
assiduamente a casa de Alderbury. Devo acrescentar que fui padrinho da pequena Carla. Isto prova, creio, 
que o Amyas me considerava o seu melhor amigo e d-me autoridade para falar em favor de um homem 
que j no pode defender-se.

Passando aos acontecimentos propriamente ditos, sobre que me pediu que escrevesse, cheguei a 
Alderbury (como confirma uma agenda antiga) cinco dias antes do crime, isto , a 13 de Setembro. 
Apercebi-me imediatamente de uma certa tenso no ar. Igualmente hospedada na casa, estava Miss Elsa 
Greer, que o Amyas estava a pintar na poca.

Foi a primeira vez que vi Miss Greer em pessoa, mas sabia da sua existncia h j algum tempo. O Amyas 
tinha-ma elogiado calorosamente um ms antes. Conhecera, disse-me, uma rapariga maravilhosa. Falou 
dela com

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tanto entusiasmo que eu lhe disse, em tom de brincadeira: Tem cuidado, meu caro, ou ainda perdes a 
cabea outra vez. Ele disse-me que me deixasse de idiotices. Estava a pintar a rapariga; no tinha 
qualquer interesse pessoal nela. Eu disse: Qual carapua! J te ouvi dizer muitas vezes coisas dessas. 
Ele respondeu: Desta vez  diferente; ao que eu retorqui com algum cinismo:  sempre!. O Amyas 
pareceu ento muito preocupado e ansioso, dizendo: No compreendes. Ela no passa de uma rapariga. 
Pouco mais que uma criana. Acrescentou que tinha ideias muito modernas e no possua quaisquer 
preconceitos antiquados. Disse:  honesta e natural e absolutamente temerria!.

Pensei comigo mesmo, embora no o expressasse, que desta vez o Amyas estava realmente apanhado. 
Algumas semanas mais tarde, ouvi comentrios de outras pessoas. Corria que essa rapariga, a Greer, 
estava absolutamente pelo beicinho. Outra pessoa disse que era uma estupidez da parte do Amyas, 
considerando a idade dela, ao que uma outra pessoa retorquiu, desdenhosamente, que Elsa Greer sabia 
muito bem como fazer as coisas. Houve outros comentrios, dizendo que a rapariga nadava em dinheiro e 
sempre tinha tido tudo quanto queria e tambm que era ela quem praticamente marcava o ritmo da 
relao. Colocava-se a questo do que pensava a mulher de Crale sobre o assunto - e a resposta era que, 
por essa altura, j devia estar habituada a esse gnero de coisas, ao que algum objectou, dizendo ter 
sabido que ela tinha cimes incontrolveis e que fazia a vida de Crale num inferno tal que este, como 
qualquer homem na mesma situao, fazia muito bem em envolver-se em aventuras ocasionais.

Menciono tudo isto, porque julgo que  importante compreender muito bem o p em que as coisas 
estavam, quando l cheguei.

Senti interesse pela rapariga, quando a conheci - era extraordinariamente bonita e muito cativante - e eu 
fiquei, admito-o, maliciosamente divertido ao notar que a Caroline assumira um comportamento francamente 
agressivo.

O prprio Amyas Crale estava menos despreocupado do que habitualmente. Embora os seus modos 
possam ter parecido normais a quem no o conhecesse bem, eu, que o conhecia to intimamente, notei de 
imediato vrios indcios de tenso, instabilidade, acessos de abstraco melanclica, uma irritabilidade 
geral na atitude.

137Apesar de ter uma inclinao permanente para a melancolia quando pintava, o quadro em que estava a 
trabalhar no justificava inteiramente a tenso que ele revelava. Ficou satisfeito ao ver-me e disse, assim 
que ficmos a ss: Ainda bem que vieste, Phil. Viver numa casa com quatro mulheres  suficiente para 
dar com um homem completamente em doido. Todas juntas ho-de mandar-me para um manicmio.

O ambiente era, sem dvida, desconfortvel. A Caroline, como disse estava visivelmente agressiva com 
toda a situao. De um modo delicado e bem-educado, era mais rude com a Elsa do que  possvel 
imaginar sem pronunciar uma nica palavra ofensiva. A prpria Elsa era aberta e flagrantemente rude com a 
Caroline. Era ela quem punha e dispunha e sabia-o e no havia escrpulos de boa educao que a 
impedissem de se comportar com modos abertamente grosseiros. O resultado era que Crale passava a 
maior parte do tempo pegado com a mida, a Angela, quando no estava a pintar. Em geral, tinham uma 
relao afectuosa, embora se provocassem mutuamente e discutissem muito. Mas, nesta ocasio, havia 
uma ponta de nervosismo em tudo o que o Amyas dissesse ou fizesse e os dois perdiam realmente as 
estribeiras um com o outro. O quarto membro do grupo era a preceptora. Uma bruxa carrancuda, como o 
Amyas lhe chamava. Odeia-me como se eu fosse veneno. Fica a sentada com os lbios comprimidos, 
censurando-me constantemente.

Foi ento que ele disse: Diabos levem as mulheres! Todas! Se um homem quer ter paz, tem de afastar-se 
das mulheres!.

No devias ter casado, disse eu. s o tipo de homem que nunca devia ter contrado compromissos 
familiares.

Respondeu que agora era demasiado tarde para ter essas conversas. Acrescentou que a Caroline 
rejubilaria, sem dvida, se se visse livre dele. Foi o primeiro indcio que tive de que andava qualquer coisa de 
estranho no ar.

Que vem a ser isto?, perguntei-lhe. Essa histria com a bela Elsa  ento uma coisa sria? Ao que ele 
respondeu, com uma espcie de resmungo:  bela, no ? s vezes, desejava nunca lhe ter posto a vista 
em cima.

Ouve, meu caro, tens de te controlar, disse eu. No vais agora ficar amarrado a outra mulher. Ele 
olhou-me, a rir, e disse: Isso  bom de dizer, mas eu no consigo deixar as mulheres em paz, no 
consigo, ponto final. E se conseguisse, no me deixavam elas em paz a mim!. Em seguida, encolheu

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aqueles seus ombros enormes e disse: Bem, h-de acabar por se compor tudo, espero. E tens de admitir 
que o quadro  bom.

Referia-se ao retrato que estava a pintar da Elsa e, embora os meus conhecimentos de pintura fossem 
muito reduzidos, at eu conseguia ver que seria uma obra particularmente poderosa.

Enquanto pintava, o Amyas era outro homem. Embora resmungasse, protestasse, fizesse m cara, no 
tivesse tento na lngua e, por vezes, atirasse ao ar os pincis, a verdade era que se sentia intensamente 
feliz.

Era s quando ia tomar as refeies a casa que a atmosfera hostil entre as mulheres o deprimia. Essa 
hostilidade atingiu um ponto de crise, a 17 de Setembro. Tnhamos passado um almoo embaraoso. A 
Elsa tinha sido particularmente - julgo, de facto, que a nica palavra para descrever a sua atitude  
insolente. Tinha ignorado deliberadamente a Caroline, dirigindo persistentemente a conversa para o Amyas, 
como se ele e ela estivessem sozinhos na sala. A Caroline tinha conversado com o resto das pessoas com 
ligeireza e jovialidade, engendrando artificiosamente vrios comentrios perfeitamente inofensivos na 
aparncia, mas que eram verdadeiras ferroadas. No possua a frontalidade desdenhosa da Elsa Greer - 
com a Caroline tudo era oblquo, mais sugerido do que pronunciado.

As coisas atingiram o auge, aps o almoo, na sala de estar, quando terminvamos o caf. Eu tinha feito 
um comentrio acerca de uma cabea esculpida em faia altamente polida - uma coisa muito curiosa, e a 
Caroline disse:  da autoria de um jovem escultor noruegus. Eu e o Amyas admiramos muito a sua obra. 
Contamos visit-lo no prximo Vero. Aquela calma assuno de posse foi demasiado para a Elsa. Nunca 
deixava passar em branco um desafio. Esperou um ou dois minutos e depois falou, na sua voz clara e 
exageradamente enftica: Esta sala seria muito bonita, se estivesse convenientemente decorada. Tem 
moblia a mais. Quando eu viver aqui, vou desembaraar-me do lixo todo e s deixo uma ou duas peas. E 
acho que quero cortinas em tons de cobre, para serem apanhadas na luz do pr-do-sol atravs daquela 
grande janela a poente. Voltou-se para mim e disse: No achas que vai ficar uma maravilha?.

Eu no tive tempo de responder. A Caroline falou e a sua voz era suave e aveludada, e o que apenas posso 
descrever como perigosa. Disse:

Ests a pensar em comprar esta casa, Elsa? 139A Elsa disse: No vou precisar de compr-la.

Que queres dizer com isso?, perguntou a Caroline. A sua voz no revelava agora qualquer suavidade. Era 
dura e metlica. A Elsa riu e disse: Para qu fingir? Ento, Caroline, sabes muito bem o que quero dizer!.

No fao ideia, respondeu Caroline.

No sejas como a avestruz, disse a Elsa. No adianta fazeres de conta que no vs e que no sabes o 
que se passa. Eu e o Amyas gostamos um do outro. Esta casa no  tua.  dele. E quando casarmos, 
hei-de viver aqui com ele.

Acho que s doida, respondeu a Caroline.

No, no sou, minha querida, e tu sabes, respondeu a Elsa. Seria muito mais simples se fssemos 
honestas uma com a outra. Eu e o Amyas amamo-nos, j tiveste ocasio de constatar com toda a clareza. 
S tens uma coisa decente a fazer.  dar-lhe a sua liberdade.

A Caroline disse: No acredito numa s palavra do que ests a dizer.

Mas o seu tom de voz no era convincente. A Elsa tinha-lhe furado as defesas.

E nesse momento, o Amyas Crale entrou na sala e a Elsa disse, com uma gargalhada: Se no acreditas 
em mim, pergunta-lhe.

E a Caroline disse: Vou perguntar. Sem fazer qualquer pausa, perguntou: Amyas, a Elsa diz que queres 
casar com ela.  verdade?.

Coitado do Amyas. Senti pena dele. Um homem sente-se um parvo, quando o obrigam a passar por uma 
cena daquelas. Ficou escarlate e comeou a balbuciar. Atirou-se  Elsa, perguntando-lhe por que diabo no 
era capaz de estar calada.

Ento  verdade?, perguntou a Caroline.

Ele no respondeu; limitou-se a ficar ali, passando o dedo em volta do pescoo por dentro do colarinho da 
camisa. Costumava fazer aquilo em criana, quando se metia numa alhada. O desgraado disse, tentando 
imprimir um tom dignificado e decisivo s palavras, sem conseguir, claro:

No quero discutir esse assunto.

Mas vamos discuti-lo!, disse a Caroline.

A Elsa intrometeu-se e disse:  mais do que justo que a Caroline saiba-

A Caroline perguntou, muito calmamente:  verdade, Amyas?.

140

Ele mostrou-se um pouco envergonhado de si prprio. Acontece aos homens, quando as mulheres os 
encostam  parede.

Ela insistiu: Responde-me, por favor. Preciso de saber.

Ele atirou a cabea para cima  maneira de um touro na arena e disse bruscamente:  verdade, sim, mas 
no quero discutir isso agora.

E deu meia volta, saindo da sala em passos largos. Fui atrs dele. No queria ficar na companhia das 
mulheres. Apanhei-o no terrao. Ia a praguejar. Nunca conheci homem que praguejasse com mais vigor. 
Depois vociferou:

Porque  que ela no podia estar calada? Por que diabo no podia estar calada? Agora j no h volta a 
dar-lhe. E tenho de acabar o quadro, ests a ouvir? A melhor coisa que fiz na vida. E duas malditas 
mulheres idiotas querem deitar tudo a perder!

Depois acalmou-se um pouco e disse que as mulheres no tinham nenhum sentido das propores.

No pude deixar de sorrir um pouco e disse: Com mil diabos, meu caro, foste tu que te meteste nesta 
alhada.

Como se eu no soubesse, disse ele, resmungando, e acrescentou: Mas tens de admitir, Phil, que no 
se pode censurar um homem por perder a cabea com ela. At a Caroline devia compreender.

Perguntei-lhe o que aconteceria, se a Caroline fizesse finca-p e lhe recusasse o divrcio. Mas ele j tinha 
cado num devaneio. Repeti a pergunta e ele disse, absorto: A Caroline nunca seria vingativa. No 
compreendes, meu caro.

H a criana, fiz-lhe notar.

Ele pegou-me pelo brao.

Phil, meu velho, as tuas intenes so boas, mas deixa-te de grasnar como um corvo. Eu sei tratar dos 
meus assuntos. Vai correr tudo bem. Vais ver que vai.

O Amyas era assim um optimista que no tinha qualquer razo para s-lo. Depois disse, alegremente:

Que vo todas para o inferno!

No sei se ele teria dito mais alguma coisa, mas alguns minutos mais tarde, a Caroline apareceu de 
rompante no terrao. Trazia um chapu, um chapu esquisito, meio cado, castanho-escuro, bastante 
atraente.

141

Disse, num tom de voz absolutamente normal, de todos os dias-

Tira esse casaco manchado de tinta, Amyas. Vamos tomar ch a casa do Meredith... no te recordas?

Ele olhou e, gaguejando um pouco, disse:

Ah, tinha-me esquecido. Sim, p-p-pois vamos.

Ento vai ver se te livras desse ar de ferro-velho.

Embora o seu tom de voz fosse muito natural, no o olhou nos olhos Aproximou-se de um canteiro de 
dlias e comeou a colher algumas das flores que comeavam a murchar

O Amyas voltou-se lentamente e entrou em casa.

A Caroline falou comigo. Falou durante muito tempo. Sobre as hipteses de o tempo aguentar. E se j 
haveria cavalas e, havendo, se eu, o Amyas e a Angela queramos ir  pesca. Era realmente espantosa. 
Tenho de lhe reconhecer isso.

Mas eu penso que revelava o tipo de mulher que era. Tinha uma fora de vontade enorme e um comando 
total de si prpria. No sei se tomou a deciso de mat-lo nesse momento, mas no ficaria surpreendido. E 
era capaz de fazer os seus planos com cuidado e sem emoo, com uma mente absolutamente lcida e 
implacvel.

A Caroline Crale era uma mulher muito perigosa. Devia ter-me apercebido ento de que ela no estava 
preparada para aceitar a situao de braos cruzados. Mas fui tolo ao ponto de pensar que se tinha 
decidido a aceitar o inevitvel ou ento pensou talvez que, se continuasse a comportar-se com normalidade, 
o Amyas acabaria por mudar de ideias.

Nesse momento, os outros saram de casa. A Elsa estava com um ar provocador, mas ao mesmo tempo 
triunfante. A Caroline no lhe ligou. Foi a Angela quem realmente salvou a situao. Saiu a discutir com 
Miss Williams, dizendo que no ia mudar de saia por causa de ningum. A que trazia servia perfeitamente; 
estava muito bem para o velho Meredith; ele nunca reparava em nada.

Finalmente, arrancmos. A Caroline foi com a Angela e eu fui com o Amyas. A Elsa foi sozinha com um 
sorriso nos lbios.

Eu pessoalmente no a admirava; era de um tipo demasiado violento mas tenho de admitir que, nessa 
tarde, estava extraordinariamente bela. As mulheres ficam belas, quando conseguem o que querem.

142

No consigo recordar os acontecimentos dessa tarde com clareza. Tenho memrias confusas. Lembro-me 
de o Merry ter vindo ao nosso encontro. Creio que passemos primeiro pelo jardim. Lembro-me de ter tido 
uma longa discusso com a Angela sobre o adestramento de terriers para caar ratos. Ela comeu uma 
dose excessiva de mas e tentou persuadir-me a fazer o mesmo.

Quando entrmos em casa, estavam a servir o ch sob o cedro grande. O Merry, recordo-me, parecia muito 
perturbado. Suponho que a Caroline ou o Amyas lhe tero dito qualquer coisa. Olhava duvidoso para a 
Caroline, e em seguida fitou a Elsa. O desgraado estava profundamente preocupado. Claro que a Caroline 
gostava de trazer o Meredith mais ou menos pela trela, o amigo dedicado e platnico que nunca, nunca iria 
longe de mais. Era esse gnero de mulher que ela era.

Depois do ch, o Meredith teve uma breve conversa comigo.

Ouve, Phil, disse, o Amyas no pode fazer uma coisa destas!.

No tenhas iluses,  precisamente o que ele vai fazer, respondi.

Ele no pode deixar a mulher e a filha e desandar com esta rapariga.  muito mais velho do que ela. Ela 
no pode ter mais de dezoito anos.

Disse-lhe que Miss Greer tinha vinte anos feitos, e plenos de sofisticao.

Seja como for,  menor, disse ele. No pode ter conscincia do que est a fazer.

Pobre Meredith. Sempre o cavalheiro correcto e corts.

No te preocupes, meu velho, disse eu. Ela sabe o que est a fazer e gosta!

No tivemos oportunidade para dizer mais nada. Pensei comigo mesmo que talvez o Merry se sentisse 
transtornado com a ideia de a Caroline ser uma mulher abandonada pelo marido. Quando o divrcio se 
consumasse, ela podia ter esperana de que o seu cozinho fiel a desposasse. Na minha ideia, aquela 
devoo v enquadrava-se muito melhor com ele. Devo confessar que esse aspecto da situao me divertia.

Curiosamente, lembro-me muito mal da nossa visita  sala dos cheiretes do Meredith. Ele adorava mostrar 
o seu passatempo s pessoas. Pessoalmente, sempre o achei muito maador. Imagino que estive 
presente, com os outros, quando ele fez a sua exposio sobre a eficcia da conina, mas no me recordo. 
E no vi a Caroline apropriar-se do veneno. Como disse, ela era uma

143mulher muito habilidosa. Lembro-me de o Meredith ler em voz alta a passagem de Plato descrevendo a 
morte de Scrates. Muito enfadonha, pensei. Os clssicos sempre me enfadaram.

No me lembro de muito mais acerca desse dia. Sei que o Amyas e a Angela tiveram uma briga 
monumental e todos ns nos sentimos aliviados Evitou outras dificuldades. A Angela fugiu a correr para o 
quarto, com uma ltima exploso de vituprios. Disse A, que havia de vingar-se. B, oxal ele morresse. C, 
que esperava que morresse de lepra, que seria muito bem feito D, que desejava que lhe ficasse presa ao 
nariz uma salsicha, como no conto de fadas, e que nunca mais sasse. Quando partiu, rimo-nos todos, foi 
superior a ns, a misturada teve imensa graa.

A Caroline foi deitar-se imediatamente. Miss Williams desapareceu atrs da pupila. O Amyas e a Elsa 
saram juntos para o jardim. Era claro que ningum pretendia a minha companhia. Decidi ir dar um passeio 
sozinho. Estava uma noite muito agradvel

Na manh seguinte, desci bastante tarde. No estava ningum na sala de jantar. Tem piada, as coisas de 
que uma pessoa se lembra. Lembro-me perfei tamente do sabor dos rins e do bacon que comi. Os rins 
estavam deliciosos Apimentados.

Em seguida, sa  procura do resto das pessoas. No vi ningum, fumei um cigarro, encontrei Miss 
Williams que andava numa lufa-lufa  procura da Angela, que mais uma vez se furtara aos seus deveres de 
consertar um vestido esgaado. Voltei para o vestbulo e apercebi-me de que o Amyas e a Caroline 
estavam a discutir na biblioteca. Falavam num tom muito alto. Ouvi-a dizer

Tu e as tuas mulheres! D-me vontade de te matar. Um dia destes, mato-te. O Amyas disse: No sejas 
tola, Caroline. E ela disse: Estou a falar a srio, Amyas

Bom, no quis continuar  escuta e voltei a sair. Encaminhei-me para o terrao na direco contrria e dei 
de caras com a Elsa.

Estava sentada numa das cadeiras compridas. Esta encontrava-se precisamente por baixo da janela da 
biblioteca e a janela estava aberta. Imagino que no deve ter perdido muito do que se passou l dentro. 
Quando me viu, levantou-se, numa paz de alma total, e aproximou-se de mim. Vinha a sorrir. Pegou-me 
pelo brao e disse.

144Est uma bonita manh, no est?

Estava uma bonita manh para ela, pois! Uma rapariga bastante cruel. No, creio que simplesmente 
honesta e falha de imaginao. A nica coisa que era capaz de ver era a sua prpria ambio.

Estvamos a conversar no terrao h cerca de cinco minutos, quando ouvi a porta da biblioteca bater com 
um estrondo e o Amyas Crale saiu. Vinha afogueado.

Agarrou na Elsa sem cerimnias pelo ombro e disse: Vamos, so horas de posares. Quero despachar-me 
com o quadro.

Ela disse: Muito bem, vou s l cima buscar uma camisola. Est um vento frio.

Entrou em casa. Fiquei a ver se o Amyas me dizia alguma coisa, mas no disse muito. Apenas: Estas 
mulheres!.

Eu respondi: Anima-te, meu velho.

Em seguida, nenhum de ns falou at a Elsa voltar a aparecer.

Afastaram-se juntos na direco do jardim da Bateria. Eu entrei em casa. A Caroline estava no vestbulo. 
Creio que nem deu pela minha presena. Era uma atitude que, por vezes, assumia. Parecia ausentar-se por 
completo recolher-se, digamos, dentro de si mesma. Limitou-se a murmurar qualquer coisa. No para mim 
para ela. Mas consegui ouvir as palavras;  demasiado cruel...

Foi o que ela disse. Depois, passou por mim e dirigiu-se ao andar superior, continuando a parecer no me 
ter visto exactamente como uma pessoa obcecada por uma viso interior. Eu por mim penso (repare que 
no tenho qualquer autoridade para diz-lo) que ela foi buscar o veneno e que foi ento que decidiu fazer o 
que fez.

E precisamente nesse momento o telefone tocou. Em certas casas, espera-se que os criados atendam, 
mas eu era uma visita to assdua de Alderbury que reagi mais ou menos como uma pessoa da famlia. 
Peguei no auscultador.

Do outro lado, ouvi a voz do meu irmo Meredith. Estava muito perturbado. Explicou que tinha ido ao 
laboratrio e que o frasco da conina estava meio vazio.

No preciso de voltar a referir todas as coisas que sei agora que devia ter feito. O incidente era muito 
inquietante e eu fui suficientemente parvo para

145

me deixar apanhar de surpresa. Do outro lado da linha, o Meredith estava bastante agitado. Ouvi algum 
nas escadas e apenas lhe disse bruscamente que viesse ter comigo sem demora.

Fui pessoalmente ao seu encontro. Caso no conhea a topografia, o caminho mais curto de uma 
propriedade  outra era atravessando a remo um pequeno ribeiro. Desci o trilho at ao ponto onde os barcos 
estavam atracados num pequeno cais. Para tal, tive de passar ao lado do muro do jardim da Bateria. Ouvi a 
Elsa e o Amyas conversarem, enquanto ele pintava. Pareciam muito alegres e despreocupados. O Amyas 
estava a dizer que estava um dia extraordinariamente quente (e estava, estava muito quente para Setembro) 
e a Elsa dizia que, sentada ali a posar na ameia, sentia um vento frio vindo do mar. E depois disse: Estou 
terrivelmente perra de estar a posar. Posso descansar um pouco, querido?. E ouvi o Amyas exclamar: 
Nem penses. Aguenta. s uma rapariga forte. E isto est a correr bem, acredita. Ouvi a Elsa dizer: 
Bruto e rir, e a partir da no consegui ouvir mais nada.

O Meredith j vinha a remar da outra margem e eu esperei que chegasse. Amarrou o barco e subiu os 
degraus. Estava muito plido e preocupado.

Tens uma cabea melhor do que a minha, Philip, disse-me. Que devo fazer? Aquela substncia  
perigosa.

Eu disse: Tens a certeza absoluta de que desapareceu?. O Meredith sempre foi uma pessoa bastante 
vaga, compreende. Talvez por isso no levei a coisa to a srio como devia ter levado. Ele respondeu que 
tinha a certeza absoluta. Na tarde do dia anterior, o frasco estava cheio.

E no fazes ideia nenhuma de quem o ter roubado?, perguntei. Ele disse que no e perguntou-me a 
minha opinio. Poderia ter sido um dos criados? Disse que imaginava que sim, mas que me parecia 
improvvel. Mantinha sempre a porta fechada  chave, no era assim? Sempre, disse, e depois lanou-se 
num palratrio, dizendo que tinha encontrado a janela alguns centmetros aberta na parte de baixo. Devia 
ter sido assim que a pessoa entrou.

Um ladro fortuito?, perguntei, com cepticismo. Na minha opinio, isso abre algumas possibilidades 
muito desagradveis, Meredith.

Ele perguntou-me o que eu realmente pensava e eu respondi que, se ele tinha a certeza de no estar 
enganado, provavelmente tinha sido a Caroline

146
para envenenar a Elsa - ou, em alternativa, a Elsa para afastar a Caroline e desobstruir o caminho que a 
levaria ao amor sem restries.

O Meredith titubeou um pouco e disse que era absurdo e melodramtico e que no podia ser verdade. Eu 
disse: Bom, a droga desapareceu. Qual  a tua explicao?. Ele no tinha nenhuma, claro. A verdade  
que pensava o mesmo que eu, mas no queria encarar o facto.

Repetiu: Que vamos fazer?.

E eu, como o grande parvo que fui, respondi: Temos de ponderar o assunto com cuidado. Ou anuncias o 
desaparecimento, sem rodeios, quando todos estiverem presentes, ou ento chamas a Caroline  parte e 
responsabiliza-la. Se ests convencido de que ela no est envolvida, adopta a mesma tctica com a 
Elsa. Ele disse: Uma rapariga daquelas!  impossvel que tenha sido ela. Eu disse que no rejeitaria 
essa hiptese.

Enquanto conversvamos, amo-nos encaminhando para a casa. Depois da minha ltima observao, 
nenhum de ns falou durante alguns momentos. Estvamos a contornar o jardim da Bateria e eu ouvi a voz 
da Caroline.

Pensei que talvez estivesse a ter lugar uma discusso a trs vozes, mas o tema era a Angela. A Caroline 
protestava e dizia:  muito cruel para a pequena. E o Amyas respondeu-lhe com uma observao 
impaciente. Em seguida, a porta do jardim abriu-se no momento em que chegmos junto dela. O Amyas 
pareceu um pouco surpreendido por nos ver ali. A Caroline vinha a sair e disse: Ol, Meredith. Temos 
estado a discutir a ida da Angela para o colgio. No tenho de todo a certeza de que seja o melhor para 
ela. O Amyas disse: No te consumas com a rapariga. No h-de ter problemas. Bons ares a levem!.

Nesse momento, a Elsa apareceu a correr pelo trilho, vinda de casa. Trazia na mo uma camisola 
escarlate. O Amyas resmungou:

Vamos embora. Volta para a tua pose. No quero perder tempo.

Voltou para junto do cavalete. Reparei que cambaleava ligeiramente e perguntei-me se teria estado a beber. 
Seria uma atitude perfeitamente desculpvel no meio de tanta barafunda e de tantas cenas.

A cerveja aqui est a escaldar. Porque  que no h gelo aqui em baixo?, vociferou.

E a Caroline Crale disse: Eu mando-te j cerveja gelada.

Obrigado, rosnou o Amyas, em resposta.

147 Em seguida, a Caroline fechou a porta do jardim da Bateria e encaminhou-se connosco para casa. Ns 
sentmo-nos no terrao e ela entrou Cerca de cinco minutos mais tarde, a Angela apareceu com duas 
garrafas de cerveja e alguns copos. O dia estava quente e ficmos satisfeitos com a ideia Enquanto 
bebamos, vimos a Caroline passar. Levava consigo outra garrafa e disse que ia lev-la ao Amyas. O 
Meredith ofereceu-se para ir, mas ela foi muito peremptria, dizendo que a levaria pessoalmente. Pensei 
parvo que fui que no passava dos cimes que sentia. No suportava que os dois estivessem sozinhos no 
jardim. Por isso, j l tinha ido uma vez, com o dbil pretexto de discutir a partida da Angela.

Desceu pelo caminho em ziguezague, enquanto eu e o Meredith a observvamos. Ainda no tnhamos 
decidido nada e agora a Angela insistia para que eu fosse tomar banho com ela. Parecia impossvel ficar 
um momento a ss com o Meredith. Disse-lhe simplesmente: Depois do almoo. E ele anuiu.

Depois, fui tomar banho com a Angela. Nadmos um bom bocado at  outra margem do ribeiro e para c 
novamente e, em seguida, estendemo-nos nas rochas a apanhar banhos de sol. A Angela estava um pouco 
taciturna, o que me convinha. Decidi que, imediatamente a seguir ao almoo, chamaria a Caroline  parte e 
a acusaria  queima-roupa de ter roubado o veneno. No adiantava incumbir o Meredith da tarefa; ele era 
demasiado pusilnime. No, responsabiliz-la-ia frontalmente Em resultado, ela teria de devolv-lo ou, 
mesmo que no devolvesse, no se atreveria a us-lo. No me restavam dvidas, depois de pensar melhor 
no assunto, de que tinha sido ela. A Elsa era uma jovem demasiado sensvel e determinada para se arriscar 
a mexer em venenos. Sabia muito bem o que queria e era perfeitamente capaz de olhar por si. A Caroline 
era de tmpera mais perigosa desequilibrada, levada por impulsos e definitivamente neurtica. E, contudo, 
continuava latente em mim a impresso de que o Meredith podia estar enganado Ou que um dos criados 
tivesse andado l a bisbilhotar e tivesse entornado o frasco, no tendo depois a coragem de admiti-lo.  
que o veneno parece uma coisa to melodramtica que uma pessoa tem dificuldade em acreditar.

At acontecer.

J era bastante tarde, quando olhei para o relgio, e fui a correr com a Angela para casa. Estavam 
precisamente a sentar-se  mesa  excepo do

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Amyas que tinha ficado a pintar no jardim. Era um hbito frequente e, secretamente, achei muito prudente 
da sua parte ter decidido faz-lo naquele dia. O almoo teria provavelmente sido um embarao.

Tommos o caf no terrao. Gostava de recordar melhor a aparncia e as aces da Caroline. No parecia 
de modo nenhum excitada. Tranquila e bastante triste, foi a impresso com que fiquei. Que demnio era 
aquela mulher!

Porque  uma coisa diablica, envenenar um homem a sangue-frio. Se houvesse um revlver pela casa e 
ela tivesse pegado nele e o matasse bem, teria sido mais compreensvel. Mas um envenenamento a frio, 
premeditado, por vingana... E to calma e composta.

Levantou-se e disse que ia levar-lhe o caf com os modos mais naturais que se possa imaginar. E, no 
entanto, sabia tinha de saber que, nesse momento, ia encontr-lo morto. Miss Williams foi com ela. No 
me lembro se foi por sugesto de Caroline ou no. Mas penso que sim.

As duas mulheres afastaram-se juntas. Pouco depois, o Meredith foi dar um passeio. Eu estava a arranjar 
uma desculpa para ir atrs dele, quando o vi novamente subir o trilho a correr. Estava sem cor e disse, 
ofegante:

Temos de chamar um mdico... depressa... o Amyas...

Levantei-me de um salto.

Est doente... est a morrer?

Infelizmente est morto..., respondeu o Meredith.

Tnhamo-nos esquecido temporariamente da Elsa que, nesse momento, emitiu um grito. Foi como o uivo de 
um lobisomem. Gritou:

Morto? Morto?... E desatou a correr. No sabia que era possvel uma pessoa mover-se assim como um 
veado como uma coisa destroada. E como uma Fria vingadora tambm.

O Meredith disse, sem flego: Vai atrs dela. Eu telefono. Vai atrs dela. No se sabe o que  capaz de 
fazer.

Eu fui atrs dela e ainda bem. Poderia ter facilmente morto a Caroline. Nunca vi uma mgoa e um dio 
delirante assim. Todo o verniz da sofisticao e da boa educao estalou. Via-se que o pai e os avs 
tinham sido operrios. Privada do amante, estava reduzida ao mais primitivo que existe na mulher. Teria 
esgadanhado o rosto da Caroline, ter-lhe-ia arrancado os cabelos, atirado do parapeito, se pudesse. Por 
qualquer razo, pensou que a Caroline o tinha esfaqueado. Estava completamente enganada, claro.

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Contive-a e, em seguida, Miss Williams tomou conta da situao. Devo dizer que o fez com grande 
competncia. Conseguiu que a Elsa se controlasse em menos de um minuto disse-lhe que devia estar 
calada e que um tal barulho e violncia eram absolutamente inaceitveis. Era uma mulher temvel. Mas 
conseguiu. A Elsa calou-se e ficou simplesmente ali a arquejar e a tremer.

Quanto  Caroline, no que me diz respeito, a mscara caiu. Ficou ali, perfeitamente calma quase se 
poderia dizer aturdida. Mas no estava aturdida. Foram os olhos que a denunciaram. Estavam vigilantes 
absolutamente conscientes e silenciosamente vigilantes. Tinha comeado, suponho, a ter medo...

Dirigi-me a ela e falei-lhe. Disse-o muito baixinho. Creio que nenhuma das outras duas mulheres me ouviu.

Maldita assassina, mataste o meu melhor amigo, disse-lhe.

Ela recuou e disse:

No... no, no... ele... foi ele...

Olhei-a frontalmente e disse:

Podes ir contar essa histria...  polcia.

E contou, mas eles no acreditaram.

Fim da Declarao de Philip Blake.

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RELATO DE MEREDITH BLAKE

Caro M. Poirot,

Como lhe prometi, passei ao papel um relato de tudo de que me lembro, relativamente aos trgicos 
acontecimentos que sucederam h dezasseis anos. Em primeiro lugar, gostaria de dizer que reflecti 
cuidadosamente sobre tudo quanto me disse no nosso recente encontro. E, depois de pensar muito, estou 
ainda mais convencido do que antes de que  extremamente improvvel que a Caroline Crale tenha 
envenenado o marido. Sempre me pareceu uma incongruncia, mas a falta de qualquer outra explicao e a 
sua prpria atitude levaram-me a seguir, como um carneiro, a opinio de outras pessoas e a fazer coro com 
elas dizendo que, se no foi ela, que outra explicao pode haver?

Desde que falei com o senhor, reflecti com grande cuidado sobre a soluo alternativa apresentada na 
altura e avanada pela defesa durante o julgamento. Ou seja, a de que o Amyas Crale ps termo  sua 
prpria vida. Embora na poca, pelo que dele conhecia, essa soluo me tivesse parecido muito rebuscada, 
reconheo que devo agora alterar a minha opinio. Para comear, temos o facto altamente significativo de a 
Caroline acreditar nela. Se vamos agora aceitar que essa encantadora e gentil senhora foi injustamente 
condenada, ento a sua convico, repetidamente formulada, deve ter um peso considervel. Ela conhecia 
o Amyas melhor do que ningum. Se, na sua opinio, o suicdio era uma possibilidade, ento deve ter sido 
suicdio, apesar do cepticismo dos seus amigos.

Proponho, pois, a teoria de que o Amyas Crale possua um resqucio de conscincia, algum remorso 
latente e mesmo desespero ante os excessos a que o seu temperamento o levava, de que apenas a mulher 
tinha conhecimento. Esta suposio no , creio, impossvel. Ele poder ter-lhe mostrado, e s a ela, essa 
faceta da sua personalidade. Apesar de inconsistente com

151

tudo quanto lhe ouvi, , todavia, verdade que a maioria dos homens tem um lado desconhecido e 
inconsciente que, com frequncia, constitui surpresa para as pessoas que os conhecem intimamente. 
Descobre-se que um homem respeitado e austero teve uma vida escandalosa que ocultou. Um banal 
homem de negcios tem, talvez, um apreo secreto por alguma refinada obra de arte. Pessoas duras e 
implacveis foram acusadas de bondades escondidas de que ningum suspeitava. Homens generosos e 
joviais revelaram um lado mesquinho e cruel.

Portanto, pode ter acontecido que o Amyas Crale possusse uma veia mrbida de auto-acusao e que, 
quanto mais alardeava o seu egosmo e o seu direito a fazer o que bem lhe apetecia, mais intensamente 
essa conscincia secreta o corroesse.  improvvel,  primeira vista, mas acredito agora que deve ter sido 
esse o caso. E volto a repetir, a prpria Caroline defendeu inabalavelmente esse ponto de vista. Isto , 
repito, muito importante!

Passo agora ao exame dos factos, ou melhor,  minha memria dos factos,  luz desta nova convico.

Penso que posso incluir aqui uma conversa relevante que tive com a Caroline algumas semanas antes da 
tragdia. Teve lugar durante a primeira visita da Elsa Greer a Alderbury.

A Caroline, como lhe disse, sabia da minha profunda amizade e afeio por ela. Eu era, por conseguinte, a 
pessoa a quem ela mais facilmente podia fazer confidncias. No andava muito feliz. No entanto, fiquei 
surpreendido quando, um dia, subitamente me perguntou se eu achava que o Amyas gostava realmente 
muito da rapariga que trouxera consigo.

Eu respondi: Est interessado em pint-la. Sabes como  o Amyas.

Abanando a cabea, disse: No, est apaixonado por ela.

Bom, talvez um pouco.

Muito, na minha opinio.

Admito que ela  extraordinariamente atraente, respondi. E ambos sabemos que o Amyas  susceptvel. 
Mas j deves saber, minha querida, que o Amyas s tem realmente olhos para uma pessoa, e essa pessoa 
s tu. Tem estas paixonetas, mas nunca duram muito. Tu s a nica pessoa que conta para ele e, embora 
o seu comportamento seja detestvel, no afecta aquilo que sente por ti.

A Caroline disse: Era o que eu costumava pensar.

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Acredita, Caro,  verdade, disse eu.

Mas desta vez, Merry, disse a Caroline, estou com medo. A rapariga  to... to incrivelmente sincera. 
 to jovem... e to intensa. Pressinto que desta vez  srio.

Eu retorqui: Mas o prprio facto de ser to nova e, como dizes, to sincera, proteg-la-. De uma maneira 
geral, as mulheres so joguetes nas mos do Amyas, mas no caso de uma rapariga assim, ser 
diferente.

Sim,  disso que tenho medo... que seja diferente. E continuou: Tenho trinta e quatro anos, Merry, 
sabes, e estamos casados h dez anos. Em aspecto, no chego aos calcanhares desta pequena, da Elsa, 
e sei-o.

Eu disse: Mas tu sabes, Caroline, sabes muito bem... que o Amyas te  profundamente dedicado.

Ela respondeu: Alguma vez se poder saber com os homens?. E, em seguida, riu, com uma ponta de 
mgoa, e disse: Eu sou uma mulher muito primitiva, Merry. S me apetece espetar uma faca nessa 
rapariga.

Disse-lhe que a pequena provavelmente no fazia a menor ideia do que estava a fazer. Nutria uma grande 
admirao pelo Amyas, idolatrava-o como um heri, e provavelmente no se apercebia de que o Amyas 
estava a apaixonar-se por ela.

A Caroline disse-me: Meu querido Merry! e comeou a falar do jardim. Tive a esperana de que no se 
preocupasse mais com o assunto.

Pouco depois, a Elsa regressou a Londres. O Amyas esteve ausente durante vrias semanas. Eu, pelo 
meu lado, esqueci completamente aquela histria. E depois soube que a Elsa estava de volta a Alderbury, 
para que o Amyas pudesse acabar de pintar o retrato.

Fiquei um pouco transtornado com a notcia. Mas a Caroline, quando falei com ela, no estava numa 
disposio comunicativa. Parecia a Caroline de sempre, de modo nenhum preocupada ou aborrecida. 
Imaginei que estava tudo a correr bem.

Foi por isso que fiquei chocado ao saber at que ponto as coisas tinham Progredido.

Falei-lhe das minhas conversas com o Crale e com a Elsa. No tive oportunidade de falar com a Caroline. 
Apenas pudemos trocar as breves palavras que j lhe relatei.

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Sou capaz de visualizar o seu rosto agora, os grandes olhos escuros Pela emoo sublimada. Ainda ouo 
a sua voz, quando disse:

Est tudo acabado...

No consigo descrever-lhe a profunda desolao que essas palavras transmitiram. Constituam uma 
traduo literal da verdade. Para ela, com a partida do Amyas, tudo estava acabado. Estou convencido de 
que foi essa a razo por que ela levou a conina. Era uma sada. Uma soluo que a minha estpida 
exposio sobre a substncia lhe sugeriu. E a passagem de Fdon que eu li apresenta uma imagem 
compassiva da morte.

Eis a minha convico presente. Ela levou a conina, decidida a pr termo  vida, quando o Amyas a 
abandonasse. Ele pode t-la visto pegar nela, ou pode ter descoberto mais tarde que ela a tinha.

Essa descoberta afectou-o terrivelmente. Ficou horrorizado com a ideia do que os seus actos a levaram a 
considerar. Mas, no obstante o seu horror e remorso, continuava a sentir-se incapaz de deixar a Elsa. Sou 
capaz de compreender essa atitude. Quem se apaixonasse por ela acharia praticamente impossvel 
desligar-se da relao.

Ele no conseguia imaginar a vida sem a Elsa. Compreendia que a Caroline era incapaz de viver sem ele. 
Decidiu que s havia uma sada: usar a conina para se matar.

E creio que a forma como o fez pode ser tpica da pessoa em causa. A sua pintura era o aspecto da sua 
vida que lhe era mais caro. A sua opo foi morrer literalmente de pincel na mo. E a ltima coisa que os 
seus olhos veriam seria o rosto da rapariga que amava to desesperadamente. Pode ter pensado tambm 
que a sua morte era o melhor que podia acontecer  rapariga...

Admito que esta teoria deixa alguns factos curiosos por explicar. Por que razo, por exemplo, s 
apareceram as impresses digitais da Caroline no frasco de conina vazio? Sugiro que, depois de o Amyas 
o manusear, todas as impresses digitais foram esbatidas ou apagadas com as pilhas de roupa macia que 
se encontravam sobre o frasco e que, depois da sua morte, a Caroline pegou nele para ver se algum lhe 
teria tocado. Decerto que se trata de algo possvel e plausvel, no concorda? Quanto  evidncia das 
impresses digitais na garrafa de cerveja, as testemunhas de defesa exprimiram a opinio de que a mo de 
um homem pode ficar distorcida depois de ingerir

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veneno, pegando assim na garrafa de cerveja de uma forma muito pouco natural-

H ainda outra coisa que fica por explicar. A prpria atitude da Caroline

durante o julgamento. Mas julgo que agora compreendi a razo. Foi ela quem efectivamente levou o veneno 
do meu laboratrio. Foi a sua determinao em suicidar-se que impeliu o marido a matar-se em seu lugar. 
No  com certeza descabido supor que, num excesso mrbido de responsabilidade, ela se tenha 
considerado responsvel pela sua morte que se tenha convencido de que era culpada de assassnio ainda 
que no do tipo de assassnio de que estava a ser acusada?

Penso que tudo poder ter-se passado assim. E se for este o caso, ento ser-lhe- decerto fcil persuadir a 
pequena Carla do facto. E ela poder casar com o noivo, na certeza de que a nica coisa de que a me foi 
culpada foi um impulso (e nada mais) para acabar com a prpria vida.

Mas nada disto, infelizmente,  aquilo que me pediu que foi um relato dos acontecimentos tal como os 
recordo. Deixe-me agora reparar esta omisso. J lhe contei integralmente o que se passou no dia anterior 
 morte do Amyas. Chegamos agora ao dia em si.

Eu tinha dormido muito mal preocupado com a volta desastrosa que as coisas tinham levado para os meus 
amigos. Aps um longo perodo de viglia, em que procurei em vo pensar em qualquer coisa de til que 
pudesse fazer para evitar a catstrofe, adormeci profundamente por volta das seis da manh. Quando me 
trouxeram o ch da manh, no acordei, tendo por fim despertado, acabrunhado e nada revigorado, cerca 
das nove e meia. Pouco depois, julguei ouvir movimento na sala por baixo do meu quarto, que era a sala 
que eu usava como laboratrio.

Devo aqui referir que os rudos foram provavelmente causados pela entrada de um gato. Descobri a vidraa 
ligeiramente levantada, como tinha sido deixada, por descuido, no dia anterior. Estava aberta o suficiente 
para deixar entrar um gato. Apenas menciono estes rudos para explicar a razo Por que fui ao laboratrio.

Assim que me vesti, encaminhei-me para ali e, examinando as prateleiras, reparei que o frasco que 
continha o preparado de conina estava ligeiramente desalinhado em relao aos outros. Tendo a minha 
ateno sido assim atrada, fiquei estupefacto quando notei que tinha desaparecido uma

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quantidade considervel da substncia. O frasco estava praticamente cheio no dia anterior e agora estava 
quase vazio.

Fechei e tranquei a janela e sa, fechando a porta  chave atrs de mim. Estava bastante transtornado e 
tambm intrigado. Quando fico assim atnito, os meus processos mentais so, infelizmente, um tanto 
lentos.

A princpio, fiquei perturbado, e depois apreensivo e, finalmente, definitivamente alarmado. Interroguei a 
criadagem e todos negaram ter entrado no laboratrio. Reflecti um pouco mais e ento decidi telefonar ao 
meu irmo a pedir-lhe conselho.

O Philip foi mais rpido do que eu. Apercebeu-se da gravidade da minha descoberta e insistiu para que eu 
fosse de imediato ter com ele, para discutirmos a situao.

Sa, tendo encontrado Miss Williams, que tinha vindo da outra margem  procura de uma pupila faltosa. 
Assegurei-lhe que no tinha visto a Angela e que ela no tinha estado l em casa.

Penso que Miss Williams notou que se passava qualquer coisa. Olhou-me com uma expresso de 
estranheza. No fazia tenes, no entanto, de lhe contar o que acontecera. Sugeri-lhe que tentasse a horta 
havia l uma macieira que a Angela adorava e apressei-me at  margem, atravessando de barco at 
Alderbury.

O meu irmo j l estava  minha espera.

Dirigimo-nos juntos para a casa, seguindo o caminho que eu e o senhor tommos no outro dia. Quando se 
olha para a topografia, compreende-se que, ao passar por baixo do muro do jardim da Bateria, no havia 
maneira de evitar ouvir qualquer conversa que estivesse ali a decorrer.

Para alm do facto de a Caroline e o Amyas estarem envolvidos numa discusso qualquer, no prestei 
grande ateno ao que diziam.

No ouvi qualquer ameaa proferida pela Caroline, e disso no tenho dvidas. O tema da discusso era a 
Angela e presumo que a Caroline estivesse a pedir uma suspenso temporria da deciso decretada pelo 
Amyas de que ela fosse para o colgio. Contudo, o Amyas mostrava-se inflexvel, gritando, irritado, que 
estava tudo resolvido e que ele prprio trataria de lhe aviar as malas.

A porta do jardim abriu-se, precisamente quando amos a passar, e a Caroline saiu. Parecia perturbada 
mas no excessivamente. Sorriu-me

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com um ar absorto e disse que tinham estado a discutir a Angela. A Elsa apareceu pelo trilho abaixo nesse 
momento e, como o Amyas queria claramente continuar a pintura, sem que o interrompssemos, 
continumos a nossa subida.

Mais tarde, o Philip culpou-se amargamente pelo facto de no termos agido de imediato. Mas eu prprio 
no entendo a coisa dessa forma. Ns no tnhamos qualquer direito de partir do princpio de que estava na 
forja um assassnio. (Alm do mais, estou hoje convencido que no estava na forja.) Era claro que devamos 
ter seguido uma linha de aco qualquer, mas continuo a manter que fizemos bem em ter discutido 
primeiro a questo com cuidado. Era preciso determinar qual a aco correcta a adoptar e, num ou noutro 
momento, dei comigo a pensar se no me teria enganado. O frasco estava realmente cheio no dia anterior, 
como eu pensava? Eu no sou dessas pessoas (como o meu irmo Philip) que tm certezas inabalveis 
acerca de tudo. A memria por vezes prega-nos partidas. Quantas vezes, por exemplo, estamos 
convencidos de que pusemos um objecto num determinado lugar, para mais tarde descobrirmos que o 
pusemos noutro muito diferente. Quanto mais tentava lembrar-me da quantidade de droga que o frasco tinha 
na tarde do dia anterior, mais inseguro e duvidoso ficava. O Philip comeou a irritar-se com as minhas 
incertezas e a perder a pacincia comigo.

No pudemos continuar a nossa conversa na altura e concordmos tacitamente em adi-la at depois do 
almoo. (Devo dizer que tinha toda a liberdade de aparecer para almoar em Alderbury, se assim me 
aprouvesse.)

Mais tarde, a Angela e a Caroline trouxeram-nos cerveja. Perguntei  Angela por que razo tinha faltado aos 
seus deveres e disse-lhe que Miss Williams estava em p de guerra, ao que me respondeu que tinha ido 
tomar banho acrescentando que no via razo para remendar a sua horrvel saia velha, quando estava em 
vias de ter roupa nova quando fosse para o colgio.

Como no havia hiptese de continuar a conversar com o Philip a ss e, uma vez que me sentia realmente 
ansioso por pensar em tudo sozinho, afastei-me pelo trilho em direco ao jardim da Bateria. Logo acima 
do jardim, como lhe mostrei, existe uma clareira nas rvores, onde costumava estar um velho banco. 
Sentei-me ali a fumar e a pensar, observando a Elsa que posava para o Amyas.

Hei-de sempre pensar nela como a vi naquele dia. Numa pose rgida,

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com a sua camisa amarela e calas azuis-escuras e uma camisola vermelha colocada em redor dos 
ombros para se agasalhar.

Tinha uma fisionomia profundamente animada de vida, de sade e de radincia. E aquela sua voz alegre 
expondo os planos que tinha para o futuro

Pode parecer que estive furtivamente  escuta, mas no foi o caso. A Elsa via-me perfeitamente. Tanto ela, 
como o Amyas, sabiam que eu ali estava. Ela acenou-me e exclamou que o Amyas estava um perfeito 
bruto nessa manh que no a deixava descansar. Sentia os msculos presos e doa-lhe o corpo todo.

O Amyas resmungou que os msculos dela no estavam to presos como os seus. Ele estava 
completamente empenado sofria de reumatismo. A Elsa disse, em tom de troa: Coitadinho do velhote!. 
E ele disse que lhe tinha sado um invlido enferrujado na rifa.

Sabe, fiquei chocado com a sua aquiescncia leviana em relao a um futuro a dois, ao mesmo tempo que 
estavam a causar tanto sofrimento. E, no entanto, no conseguia censur-la. Era to jovem, to confiante, 
estava to apaixonada. E no tinha realmente conscincia do que estava a fazer. No compreendia o 
sofrimento. Partia simplesmente do princpio, com a confiana ingnua de uma criana, de que a Caroline 
ficaria bem, de que ultrapassaria tudo num instante. No via mais ningum, compreende, a no ser ela 
prpria e o Amyas em felicidade total. J me tinha dito que os meus pontos de vista eram antiquados. No 
tinha dvidas, nem escrpulos nem piedade. Mas pode-se esperar piedade da radiosa juventude? A piedade 
 uma emoo mais madura e cautelosa.

Eles no falaram muito, naturalmente. Nenhum pintor gosta de dar  lngua, enquanto pinta. Talvez de dez 
em dez minutos, mais ou menos, a Elsa fizesse alguma observao a que o Amyas respondia com um 
rosndo. A certa altura, disse:

Acho que tens razo acerca de Espanha.  o primeiro stio aonde vamos. E tens de me levar a assistir a 
uma tourada. Deve ser fantstico. S que gostava que fosse o touro a matar o homem e no o contrrio. 
Compreendo o que sentiam as mulheres romanas quando viam um homem morrer. Os homens no valem 
grande coisa, mas os animais so esplndidos.

Suponho que ela prpria era como um animal jovem e primitiva, no tendo ainda passado pelas 
adversidades que caracterizam a vivncia humana.

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.

No creio que a Elsa tivesse comeado apensar limitava-se a sentir. Mas era demasiado viva mais viva do 
que qualquer pessoa que alguma vez conheci.

Foi a ltima vez que a vi radiosa e segura na crista da onda. Exultante, creio,  a palavra que a define.

O sino tocou para o almoo e eu levantei-me, desci o trilho e entrei no jardim da Bateria, e a Elsa 
acompanhou-me. A luz ali era ofuscante, para quem vinha da sombra das rvores. Mal conseguia ver. O 
Amyas estava estendido no banco, com os braos descados. Olhava fixamente o quadro. Recordo-o tantas 
vezes assim. Como podia eu saber que o veneno j estava a actuar, paralisando-o, enquanto ali estava 
sentado?

Ele detestava profundamente a doena. Nunca admitia estar doente.  possvel mesmo que achasse que 
tinha apanhado demasiado sol; os sintomas so muito semelhantes mas seria a ltima pessoa a queixar-
se disso.

A Elsa disse: Ele no quer almoar.

Pensei comigo mesmo que era uma atitude sensata e disse: Ento at logo.

Ele desviou os olhos do quadro at que os pousou em mim. Tinham uma estranha como hei-de descrever 
parecia malevolncia. Uma espcie de olhar feroz e malvolo.

Naturalmente que, na altura, no o compreendi se o seu trabalho no lhe corria como ele desejava, ficava 
muitas vezes com um ar violento. E pensei que fosse esse o caso. Emitiu uma espcie de gemido.

Nem eu, nem a Elsa, vimos nele nada de anormal apenas o seu temperamento artstico.

Assim, deixmo-lo e fomos juntos para casa, rindo e conversando. Se ela soubesse, pobre pequena, que 
nunca mais o veria com vida... Bem, graas a Deus que no sabia. Pde assim prolongar a sua felicidade 
por mais uns momentos.

A Caroline estava perfeitamente normal ao almoo um pouco preocupada; nada mais. No demonstra a sua 
atitude que ela nada teve a ver com o assunto? Ela no podia ser uma actriz assim to talentosa.

Mais tarde, ela e a preceptora desceram ao jardim e encontraram-no.

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Cruzei-me com Miss Williams, quando esta subia o trilho. Disse-me que chamasse um mdico, e voltou 
para junto de Caroline.

A pobre pequena refiro-me  Elsa! Tomada dessa dor frentica e descontrolada que  tpica das crianas. 
No acreditam que a vida lhes possa fazer coisas destas. A Caroline estava bastante calma. Sim, bastante 
calma. Conseguiu, evidentemente, controlar-se muito melhor do que a Elsa. No pareceu sentir remorsos 
nesse momento. Disse apenas que ele devia ter-se suicidado. E ns no acreditmos. A Elsa explodiu e 
acusou-a frontalmente.

 claro que ela j devia ter concludo que viria a ser suspeita. Sim, e isso explica possivelmente a sua 
atitude.

O Philip ficou absolutamente convencido de que tinha sido ela.

A preceptora foi uma grande ajuda e no arredou p. Obrigou a Elsa a deitar-se e deu-lhe um sedativo, e 
manteve a Angela afastada, quando a polcia chegou. Sim, aquela mulher prestou um apoio inestimvel.

Toda a histria se tornou um pesadelo. A polcia a passar revista  casa e a fazer perguntas, e depois os 
jornalistas, a invadirem a casa como moscas e a baterem chapas e a quererem entrevistas com os 
membros da famlia.

Um pesadelo, tudo aquilo...

Continua a ser um pesadelo, depois destes anos todos. Peo a Deus que, logo que o senhor convena a 
pequena Carla do que realmente sucedeu, possamos esquecer tudo para nunca mais o recordar.

O Amyas deve ter-se suicidado por mais improvvel que parea.

Fim do Relato de Meredith Blake.

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RELATO DE LADY DITTISHAM

Exponho aqui a histria integral da minha relao com o Amyas Crale at ao momento da sua trgica 
morte.

Conheci-o numa festa de artistas. Ele estava, recordo, junto a uma janela, e vi-o, assim que entrei na sala. 
Perguntei quem era. Algum me disse:  Crale, o pintor. Disse imediatamente que gostava de lhe ser 
apresentada.

Nessa ocasio, conversmos durante, talvez, dez minutos. Quando uma pessoa causa em ns uma 
impresso semelhante  que o Amyas Crale causou em mim, no adianta tentarmos descrever essa 
pessoa. Se disser que, quando vi o Amyas Crale, todas as outras pessoas pareceram diminuir de tamanho 
e desaparecer, a expresso traduz perfeitamente aquilo que senti.

Imediatamente aps esse encontro, fui ver tantos quadros seus quantos pude. Decorria uma exposio sua 
em Bond Street, na altura, e um dos seus quadros encontrava-se em Manchester, outro em Leeds e dois 
em galerias pblicas de Londres. Fui v-los todos. Depois voltei a encontrar-me com ele. Disse-lhe: Fui ver 
todos os seus quadros. Acho-os esplndidos.

Ele ps um ar divertido e disse:

Quem lhe disse que era capaz de apreciar pintura? No me parece que entenda nada do assunto.

Talvez no, respondi. Mas mesmo assim so esplndidos.

Ele sorriu-me e disse: Deixe-se de efuses tontas.

Respondi: No so efuses tontas. Quero que me pinte.

Crale disse: Se tem dois dedos de testa, h-de reparar que eu no pinto retratos de mulheres bonitas.

No tem de ser um retrato e eu no sou uma mulher bonita, respondi-lhe.

Ele olhou-me ento, como se tivesse comeado a ver-me, e disse: No, talvez no seja.

161

Pinta-me ento?, perguntei.

Ele estudou-me, durante algum tempo, com a cabea de lado e disse uma pequena estranha, no ?.

Sou bastante rica, sabe. Tenho meios para lhe pagar generosamente disse-lhe.

Porque est to ansiosa por que eu a pinte?, perguntou.

Porque quero!, respondi.

Isso  uma razo?

. Eu consigo sempre o que quero, disse eu.

Ele respondeu: Faz-me pena, to nova ainda!.

Pinta-me?, perguntei.

Ele agarrou-me pelos ombros e fez-me rodar na direco da luz, examinando-me. Depois, afastou-se um 
pouco de mim. Eu fiquei imvel,  espera.

Ele disse: Por vezes, sinto vontade de pintar um bando de araras australianas, de cores improvveis, a 
pousar na Catedral de So Paulo. Se a pintasse contra uma bonita paisagem tradicional, creio que 
conseguiria exactamente o mesmo resultado.

Pinta-me ento?, perguntei.

Tem um dos coloridos exticos mais belos, brutos e extravagantes que j vi. Sim, pinto!, respondeu.

Est combinado ento.

Ele continuou: Mas aviso-a, Elsa Greer. Se a pintar,  muito provvel que faa amor consigo.

Espero bem que sim..., respondi.

Disse-o com firmeza e calma. Ouvi-o suster a respirao e vi a expresso que lhe aflorou ao olhar.

Compreende, foi deste modo sbito que se passou.

Um ou dois dias mais tarde, voltmos a encontrar-nos. Ele disse-me que queria que eu me deslocasse ao 
Devonshire tinha a o cenrio ideal que pretendia como pano de fundo. Disse: Sou casado, sabe. E gosto 
muito da minha mulher.

Disse-lhe que, se ele gostava dela, ela devia ser uma excelente pessoa.

Ele respondeu que era, de facto, excelente. Na verdade,  perfeitamente adorvel, e eu adoro-a. Portanto, 
meta isso na cabea e resigne-se, jovem Elsa.

162

Disse-lhe que compreendia muito bem.

Ele comeou o quadro uma semana mais tarde. A Caroline Crale recebeu-me com muita simpatia. No 
gostou por a alm de mim mas, afinal de contas, porque havia de gostar? O Amyas foi muito cordato. 
Nunca me disse uma palavra que a mulher no pudesse ouvir, e eu comportei-me com ele com grande 
cortesia e formalidade. Mas, no fundo, ambos sabamos.

Ao fim de dez dias, disse-me que eu devia regressar a Londres.

O quadro no est acabado, protestei.

Mal o comecei, replicou. A verdade  que no posso pint-la, Elsa.

Porqu?

Ele respondeu: Sabe muito bem porqu, Elsa. E  pela mesma razo que tem de sair daqui. No consigo 
pensar no quadro, no consigo pensar em nada, a no ser em si.

Estvamos no jardim da Bateria. Estava um dia de sol quente. Ouvia-se o chilrear dos pssaros e o 
zumbido das abelhas. Devia ser uma atmosfera de felicidade e de paz. Mas no dava essa sensao. Por 
qualquer razo, o clima era... de tragdia. Como se, como se aquilo que viria acontecer j ali estivesse 
espelhado.

Eu sabia que a minha partida para Londres no resolveria nada, mas disse: Muito bem, eu vou, se  isso 
que quer.

Linda menina, respondeu o Amyas.

E eu parti. No lhe escrevi.

Ele aguentou dez dias e veio ter comigo. Estava to magro e com um ar to macilento e infeliz que fiquei 
chocada.

Eu avisei-te, Elsa, disse ele. No digas que no te avisei.

Tenho estado  tua espera, disse-lhe. Sabia que acabarias por vir.

Ele emitiu uma espcie de gemido e disse: H coisas que so demasiado fortes para qualquer homem. 
No consigo comer, nem dormir nem ter sossego, de tanto te desejar.

Disse-lhe que sabia disso e que o mesmo se passava comigo, passava-se desde o primeiro momento em 
que o tinha visto. Era o Destino e no adiantava resistir-lhe.

Ele disse que desejava que eu no fosse to nova e eu retorqui que no tinha importncia. Suponho que 
devo dizer que, durante as semanas

163

seguintes, fomos muito felizes. Mas a felicidade no  o termo correcto. Era algo de mais profundo e 
assustador.

Estvamos talhados um para o outro e tnhamo-nos encontrado e ambos sabamos que tnhamos de ficar 
juntos para sempre.

Mas aconteceu uma outra coisa. O quadro inacabado comeou a atormentar o Amyas, que me disse: 
Que diabo, no consegui pintar-te antes porque tu prpria te meteste pelo meio. Mas quero pintar-te, Elsa. 
Quero pintar-te, para que esse quadro se torne a melhor coisa que alguma vez fiz. Estou em pulgas para 
pegar nos pincis, para te ver sentada naquela ameia obsoleta, com o mar azul convencional e as nobres 
rvores inglesas e tu tu ali sentada, como um grito dissonante de triunfo.

E continuou: Tenho de pintar-te assim! E enquanto estiver a pintar-te, no posso tolerar intromisses, nem 
contrariedades. Quando o quadro estiver terminado, conto a verdade  Caroline e esclarecemos esta 
confuso toda.

A Caroline vai dificultar o divrcio?

Ele respondeu que achava que no. Mas com as mulheres nunca se sabia.

Disse-lhe que lamentava, se ela ficasse transtornada, mas que afinal estas coisas acontecem.

Isso  muito bonito e razovel, Elsa, disse ele. Mas a Caroline no  razovel, nunca foi razovel, e 
certamente no vai sentir-se razovel. Ela ama-me, compreendes.

Eu disse que compreendia, mas que, se ela o amava, poria a sua felicidade em primeiro lugar e, em todo o 
caso, no haveria de querer prend-lo, quando ele queria ser livre.

A verdade  que a vida no se resolve com mximas admirveis sadas da literatura moderna, retorquiu. 
Lembra-te de que a natureza  uma fora brutal e selvagem.

Eu respondi: Hoje em dia, as pessoas so com certeza civilizadas, e o Amyas riu, dizendo: Civilizadas, 
uma ova! Provavelmente a Caroline tem vontade de te espetar um punhal. E capaz disso  ela. No 
compreendes, Elsa, que ela vai sofrer sofrer? No sabes o que significa sofrer?.

Ento no lhe digas, respondi.

No. A ruptura  inevitvel. Tens de me pertencer como deve ser, Elsa. Perante o mundo. Tens de ser 
abertamente minha.

164

Imagina que ela no te d o divrcio, disse eu.

No tenho medo disso, respondeu.

Ento de que tens medo?

Ele respondeu ento pausadamente: No sei....

Ele conhecia a Caroline, compreende? Eu no.

Se eu pudesse ter adivinhado...

Voltmos para Alderbury. Desta vez, as coisas complicaram-se. A Caroline tinha comeado a suspeitar. A 
situao no me agradava no me agradava no me agradava nada. Sempre detestei a mentira e o engano. 
Achava que devamos dizer-lhe. O Amyas no queria ouvir falar do assunto.

O mais estranho  que ele no queria realmente saber. Apesar de gostar da Caroline e de no querer 
mago-la, a honestidade ou desonestidade da situao eram-lhe completamente indiferentes. Pintava com 
uma espcie de frenesim e nada mais importava. Nunca o tinha visto mergulhado num dos seus transes 
criativos. Compreendia agora a genialidade do seu talento. Para ele, era natural deixar-se arrebatar a ponto 
de esquecer os comportamentos de decncia mais normais. Mas para mim era diferente. Encontrava-me 
numa posio horrvel. A minha presena desagradava  Caroline o que era perfeitamente justificado. A 
nica forma de rectificar essa posio seria a franqueza e a honestidade.

Mas o Amyas limitava-se a dizer que no estava para se incomodar com cenas e confuses, enquanto no 
terminasse o quadro. Disse-lhe que provavelmente no haveria nenhuma cena. A Caroline era demasiado 
orgulhosa e digna para isso.

Quero ser honesta acerca da situao, disse. Temos de ser honestos!

O Amyas disse: A honestidade que v para o diabo! Apre, estou a pintar um quadro!.

Eu compreendia o seu ponto de vista, mas ele no compreendia o meu.

E eu acabei por me ir abaixo. A Caroline tinha estado a falar de um projecto qualquer que ela e o Amyas 
tinham para o Outono seguinte. Falou sobre isso com grande confiana. E subitamente senti que aquilo 
que estvamos a fazer era abominvel deix-la continuar naquela iluso e talvez tambm me tivesse sentido 
enfurecida, porque ela demonstrava um grande desagrado para comigo, de uma forma inteligente e difcil de 
apreender.

Assim, desabafei e disse a verdade. Continuo a pensar que, num certo

165

sentido, fiz bem. Embora, claro, nunca o tivesse feito, se tivesse a mnima suspeita de qual seria o 
resultado.

O choque deu-se de imediato. O Amyas ficou furioso comigo, mas teve de admitir que eu tinha dito a 
verdade.

No consegui de todo entender a Caroline. Fomos tomar ch a casa do Meredith Blake e o seu fingimento 
foi perfeito conversou e riu. Como uma idiota, pensei que estava a aceitar bem a situao. A minha 
incapacidade para ir embora criou um ambiente desconfortvel, mas o Amyas teria perdido a cabea, se eu 
tivesse ido. Pensei que talvez a Caroline partisse. Teria sido muito mais fcil para ns, se tivesse partido.

No a vi pegar na conina. Quero ser franca e, portanto,  perfeitamente possvel que ela a tivesse levado, 
como disse, com a finalidade de se suicidar.

Mas no penso realmente que assim tenha sido. Penso que ela era uma dessas mulheres intensamente 
ciumentas e possessivas que no largam mo daquilo que julgam pertencer-lhe. O Amyas era propriedade 
sua. Julgo que estava preparada para mat-lo, antes de deix-lo partir completa e definitivamente com outra 
mulher. Acho que tomou a deciso imediata de mat-lo. E creio que o facto de o Meredith falar to 
abertamente sobre a conina lhe proporcionou o meio de fazer o que j decidira fazer. Era uma mulher 
amargurada e rancorosa vingativa. O Amyas sempre soube que ela era perigosa. Eu no sabia.

Na manh seguinte, ela teve um ltimo confronto com o Amyas. Ouvi quase tudo do terrao. Ele foi 
esplndido muito paciente e calmo. Implorou-lhe que fosse razovel. Disse que gostava muito dela e da filha 
e que sempre gostaria. Faria tudo para garantir o futuro de ambas. Em seguida, endureceu de tom e disse: 
Mas entende uma coisa. Vou casar com a Elsa e ponto final e no h nada que me impea. Tu e eu 
sempre concordmos em dar liberdade um ao outro. Estas coisas acontecem.

A Caroline disse-lhe: Faz como entenderes. J te avisei.

A sua voz era muito calma, mas transparecia dela uma nota estranha.

O Amyas disse: Que queres dizer, Caroline?.

Tu pertences-me e no tenciono largar mo de ti. Antes matar-te a deixar-te ficar com essa rapariga...

Exactamente nesse momento, o Philip Blake apareceu no terrao. Levantei-me e fui ao seu encontro. No 
quis que ele ouvisse.

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O Amyas saiu tambm e disse que eram horas de continuar a pintar, Descemos juntos at ao jardim. Ele 
no se abriu muito. Limitou-se a dizer que a Caroline estava a reagir mal mas que, por amor de Deus, no 
falasse no assunto. Precisava de se concentrar no que estava a fazer. Mais um dia talvez, e acabaria o 
quadro, afirmou.

E h-de ser a melhor coisa que j fiz, Elsa, mesmo que a pague com sangue e lgrimas, disse.

Um pouco mais tarde, dirigi-me  casa para ir buscar uma camisola. Estava um vento frio. Quando voltei, a 
Caroline estava no jardim. Suponho que descera para fazer um ltimo apelo. O Philip e o Meredith estavam 
tambm presentes.

Foi ento que o Amyas disse que tinha sede e pediu uma bebida. Disse que havia cerveja, mas que no 
estava gelada.

A Caroline disse que lhe mandava cerveja fresca. Disse-o com toda a naturalidade, num tom quase 
amistoso. Era uma grande actriz, aquela mulher. J devia saber, nesse momento, o que ia fazer.

Dez minutos mais tarde, apareceu com a cerveja. O Amyas estava a pintar. Ela serviu-a e pousou o copo 
ao lado dele. Nenhum de ns a observou. O Amyas estava concentrado no seu trabalho e eu no podia 
desfazer a pose.

O Amyas bebeu-a de um trago, como era seu hbito com a cerveja, despejando-a de uma vez pela 
garganta abaixo. Depois, fez um esgar, dizendo que sabia mal, mas que, pelo menos, estava fresca.

Mesmo a, quando ele fez esse comentrio, no suspeitei de nada; limitei-me a rir e disse: Fgado.

Depois de v-lo beber, a Caroline foi embora.

Deve ter sido cerca de quarenta minutos mais tarde que o Amyas se queixou de rigidez nos msculos e de 
dores. Disse que pensava estar com uma ponta de reumatismo. O Amyas no suportava estar doente e 
no gostava que andassem  sua volta com cuidados. Depois deste comentrio, esqueceu o assunto e 
disse frivolamente: Deve ser a velhice. Saiu-te na rifa um invlido enferrujado, Elsa. Eu respondi-lhe  
letra. Mas notei que movia as pernas com dificuldade e de um modo estranho e que esboou mais um ou 
outro esgar. Nunca me passou pela cabea que no fosse reumatismo. Nesse momento, arrastou o banco 
e estendeu-se nele, esticando-se de vez em quando,

167

para dar um retoque aqui e ali na tela. Era uma coisa que fazia por vezes quando estava a pintar. Ficava 
simplesmente sentado a olhar para mim e depois para a tela. Havia ocasies em que o fazia durante meia 
hora seguida Portanto, no vi nada de estranho nisso.

Ouvimos o sino para o almoo e ele disse que no ia. Que ficava ali e que no queria comer nada. Tambm 
no era anormal e, para ele, seria mais fcil do que enfrentar a Caroline  mesa.

Falou de um modo igualmente estranho as palavras saam-lhe numa espcie de grunhidos. Mas s vezes 
falava assim, quando no estava satisfeito com o progresso da pintura.

O Meredith Blake veio buscar-me. Falou com o Amyas, mas este s lhe respondeu com grunhidos.

Subimos juntos at  casa e deixmo-lo ali. Deixmo-lo ali... a morrer sozinho. Eu nunca tinha realmente 
tido qualquer experincia com a doena pouco sabia de doenas julguei que o Amyas estivesse num 
desses estados de esprito de artista. Se soubesse se me tivesse apercebido talvez um mdico o pudesse 
ter salvo... Oh meu Deus, porque no no adianta agora pensar nisso. Fui uma idiota cega. Uma idiota 
estpida e cega.

No h muito mais para relatar.

A Caroline e a preceptora foram ao jardim depois do almoo. O Meredith foi atrs delas. Apareceu quase 
imediatamente a correr. Disse-nos que o Amyas estava morto.

Foi a que eu soube! Quero dizer, que soube que tinha sido a Caroline. A ideia de veneno ainda no me 
tinha ocorrido. Pensei que ela tivesse l ido nesse preciso momento e o tivesse matado a tiro ou  facada.

Senti vontade de me atirar a ela de mat-la...

Como foi ela capaz? Como foi capaz? Ele era um homem to intenso, to cheio de vida e vigor. Acabar 
com tudo isso transform-lo num corpo mole e frio. S para que eu no pudesse t-lo.

Mulher horrvel...

Mulher horrvel, desdenhosa, cruel, vingativa...

Odeio-a. Ainda hoje a odeio.

Nem sequer a mandaram para a forca.

Deviam t-la mandado para a forca...

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At a forca seria um castigo demasiado brando para ela... Odeio-a... odeio-a... odeio-a...

Fim do Relato de Lady Dittisham.

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RELATO DE CECILIA WILLIAMS

Caro M. Poirot,

Envio-lhe um relato dos acontecimentos ocorridos em Setembro de 19... que pessoalmente presenciei.

Fui absolutamente sincera e no omiti nada. Pode mostr-lo  Carla Crale. Poder causar-lhe dor, mas eu 
sempre fui crente na verdade. Os paliativos so prejudiciais.  necessrio ter a coragem de enfrentar a 
realidade. Sem essa coragem, a vida no faz sentido. As pessoas que mais mal nos fazem so as 
pessoas que nos protegem da realidade.

Creia-me respeitosamente,

Ceclia Williams

Chamo-me Ceclia Williams. Fui contratada por Mrs. Crale como preceptora da sua meia-irm, Angela 
Warren, em 19... Nessa poca, tinha quarenta e oito anos.

Assumi as minhas funes em Alderbury, uma propriedade muito bonita no sul do Devon, que pertencia, h 
muitas geraes,  famlia de Mr. Crale. Sabia que Mr. Crale era um pintor muito conhecido, mas s o 
conheci quando me estabeleci em Alderbury.

Os residentes da casa incluam Mr. e Mrs. Crale, Angela Warren (na altura, uma rapariga de treze anos) e 
trs criadas que serviam a famlia h muitos anos.

Achei a minha pupila uma personalidade interessante e promissora. Possua capacidades muito marcadas 
e foi um prazer ensin-la. Era um pouco arisca e indisciplinada, mas estes defeitos advinham sobretudo do 
seu temperamento vivo e eu sempre preferi que as minhas pupilas demonstrassem

171

vivacidade. O excesso de vitalidade pode ser domado e orientado numa direco de verdadeira utilidade e 
realizao.

No geral, achei a Angela aberta  disciplina. Era, de algum modo, uma menina mimada mimada por Mrs. 
Crale, que era demasiado indulgente para com ela. A influncia de Mr. Crale era, na minha opinio, 
imprudente. Um dia, consentia-lhe tudo, de forma absurda, e, no seguinte, era desnecessariamente severo. 
Era realmente um homem dado a grandes variaes de humor possivelmente em virtude daquilo que se 
timbra como temperamento artstico.

Eu prpria nunca entendi a razo por que a posse de talento artstico haver de isentar um homem do 
exerccio decoroso do autocontrole. Pessoalmente, no admirava a pintura de Mr. Crale. Aos meus olhos, o 
desenho parecia deficiente e as cores exageradas, mas naturalmente no me competia exprimir qualquer 
opinio nesta matria.

No tardei a criar um apego enorme a Mrs. Crale. Admirava o seu carcter e a sua fora espiritual perante 
as dificuldades da sua vida. Mr. Crale no era um marido fiel e creio que este facto era uma fonte de intenso 
sofrimento para ela. Uma mulher mais determinada t-lo-ia deixado, mas Mrs. Crale nunca pareceu 
considerar esse rumo. Suportava as suas infidelidades e perdoava-lhas mas devo dizer que no as aceitava 
com docilidade. Protestava e com veemncia!

Disse-se no tribunal que a sua relao era como a do gato e do rato. Eu no iria to longe Mrs. Crale tinha 
demasiada dignidade, para que essa definio se lhe pudesse aplicar, mas entregavam-se de facto a 
discusses. E eu considero essa situao mais do que natural, dadas as circunstncias.

Trabalhava para Mrs. Crale h pouco mais de dois anos, quando Miss Elsa Greer entrou em cena. Chegou 
a Alderbury no Vero de 19... Mrs. Crale no lhe fora apresentada antes. Era amiga de Mr. Crale e constou 
que a sua presena se devia ao facto de Mr. Crale pretender pintar o seu retrato.

Foi imediatamente evidente que Mr. Crale estava apaixonado por esta rapariga e que ela prpria nada fazia 
para desencoraj-lo. Na minha opinio, o seu comportamento era bastante ofensivo, sendo 
abominavelmente grosseira para com Mrs. Crale e namorando abertamente com Mr. Crale.

Naturalmente que Mrs. Crale no comentou o assunto comigo, mas eu via que estava perturbada e infeliz e 
fiz tudo ao meu alcance para distra-la e

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aligeirar o seu fardo. Miss Greer posava diariamente para Mr. Crale, mas notei que o quadro no estava a 
avanar depressa. Tinham, decerto, outras coisas sobre que falar!

A minha pupila, digo-o reconhecidamente, apercebia-se de muito pouco do que se passava. Em alguns 
aspectos, a Angela era imatura para a idade que tinha. Embora o seu intelecto estivesse bem desenvolvido, 
no era, de maneira nenhuma, o que se pode chamar precoce. No parecia ter qualquer desejo de ler livros 
indesejveis e no mostrava sinais de curiosidade mrbida, como  muitas vezes prprio das raparigas 
dessa idade.

No reparava, por conseguinte, em nada de indesejvel na amizade entre Mr. Crale e Miss Greer. No 
entanto, no gostava de Miss Greer e considerava-a estpida. Neste aspecto, tinha toda a razo. Presumo 
que Miss Greer tivesse tido uma educao conveniente, mas nunca abria um livro e era totalmente iletrada 
quando se tratava de referncias literrias correntes. Alm do mais, era incapaz de aguentar uma 
discusso sobre qualquer tpico intelectual.

Vivia completamente absorvida pela sua aparncia pessoal, pelo vesturio e pelos homens.

Penso que a Angela no deu to-pouco conta de que a irm era infeliz. Nesse tempo, no era uma pessoa 
muito perspicaz. Passava muito tempo com brincadeiras de rapaz, como subir a rvores e fazer corridas 
perigosas de bicicleta. Era igualmente uma leitora apaixonada e demonstrava um extremo bom gosto 
naquilo que lhe agradava e desagradava.

Mrs. Crale tinha sempre o cuidado de esconder qualquer sinal de infelicidade da Angela e esforava-se por 
parecer animada e alegre, sempre que a rapariga estava presente.

Miss Greer regressou a Londres facto, devo dizer, com que todos exultmos! Os criados tinham-lhe tanta 
averso como eu. Ela era o gnero de pessoa que dava imenso que fazer, desnecessariamente, e se 
esquecia de dizer obrigada.

Mr. Crale ausentou-se, pouco depois, e  claro que eu sabia que tinha ido atrs da rapariga. Senti imensa 
pena de Mrs. Crale. Ela sentia estas coisas com grande acutilncia. Guardei um grande ressentimento em 
relao a Mr. Crale. Quando um homem tem uma mulher encantadora, elegante e inteligente, no deve 
trat-la mal.

173

Contudo, eu e ela espervamos que o romance terminasse em breve. No que tivssemos mencionado o 
assunto uma  outra no o fizemos mas ela conhecia perfeitamente a minha opinio.

Infelizmente, aps algumas semanas, os dois reapareceram. Parecia que as sesses de pintura iam 
recomear.

Mr. Crale pintava agora com um frenesim extraordinrio. Parecia menos preocupado com a rapariga do que 
com o quadro que estava a pintar. No entanto, compreendi que no se tratava do gnero de coisa habitual 
por que j tnhamos passado. Esta rapariga tinha-lhe fincado as garras e estava para ficar. Ele era 
completamente subserviente para com ela.

A situao atingiu o auge no dia anterior  sua morte isto , a 17 de Setembro. Os modos de Miss Greer 
tinham sido inadmissivelmente insolentes nos ltimos dias. Sentia-se segura de si prpria e queria afirmar a 
sua importncia. Mrs. Crale comportou-se como uma verdadeira dama. Era friamente corts, mas dava 
claramente a entender  outra o que pensava dela.

Nesse dia, 17 de Setembro, estvamos ns sentados na sala de estar, depois do almoo, Miss Greer saiu-
se com um comentrio espantoso sobre as suas intenes de redecorar a sala quando vivesse em 
Alderbury.

Naturalmente, Mrs. Crale no podia deix-lo passar em branco. Desafiou-a e Miss Greer teve o desaforo de 
dizer, diante de todos, que ia casar com Mr. Crale. Estava efectivamente a falar em casar com um homem 
casado e disse-o  mulher deste!

Eu fiquei profundamente zangada com Mr. Crale. Como se atrevia a deixar esta rapariga insultar a mulher 
na sua prpria casa? Se queria fugir com a rapariga, devia ter fugido com ela, em lugar de traz-la para a 
casa onde vivia a mulher e de apoiar a sua insolncia.

Apesar do que com certeza sentiu, Mrs. Crale no perdeu a dignidade. Nesse momento, o marido entrou e 
ela imediatamente exigiu a sua confirmao.

Mr. Crale ficou, e com razo, irritado com Miss Greer por ter forado irreflectidamente a situao. Alm do 
mais, fazia-o surgir numa posio de desvantagem e os homens no gostam de estar em desvantagem. 
Mexe com a sua vaidade.

Ele ficou ali, homem corpulento que era, com um ar envergonhado e idiota, como um menino de escola 
traquinas. Foi a mulher quem se mostrou

174

 altura da situao. Ele viu-se na contingncia de tartamudear, atoleimadamente, que era verdade, que no 
era sua inteno que ela soubesse daquela maneira.

Nunca vi nada como o olhar de desdm que ela lhe lanou. Saiu da sala de cabea erguida. Era uma 
mulher bela muito mais bela do que aquela rapariga espaventosa e movia-se como uma rainha.

Desejei ardentemente que Amyas Crale fosse punido pela crueldade que evidenciara e pela indignidade que 
infligira a uma mulher nobre e h muito sofredora.

Pela primeira vez, tentei exprimir a Mrs. Crale aquilo que sentia, mas ela interrompeu-me, dizendo:

Devemos tentar comportar-nos como habitualmente.  a melhor atitude. Vamos tomar ch a casa do 
Meredith Blake.

Acho-a uma pessoa maravilhosa, Mrs. Crale, disse-lhe eu.

A senhora no sabe..., comentou ela.

Depois, quando j ia a sair da sala, voltou atrs e beijou-me, dizendo:

A senhora  um grande conforto para mim.

Dirigiu-se ao seu quarto, nesse momento, e julgo que esteve a chorar. Vi-a quando todos partiram. Tinha 
posto um chapu de abas largas que lhe escondia parcialmente a cara um chapu que raramente usava.

Mr. Crale estava pouco  vontade, mas tentou disfarar a sua atrapalhao. Mr. Philip Blake tentou 
comportar-se como habitualmente. Essa Miss Greer no cabia em si de contente. Toda satisfeita consigo 
prpria, a ronronar como um gato que roubou uma sardinha.

Partiram todos e voltaram por volta das seis horas. No voltei a estar com Mrs. Crale a ss nesse dia. Ao 
jantar, mostrou-se muito calma e controlada e foi deitar-se cedo. Creio que ningum se apercebeu do seu 
sofrimento.

O sero foi dominado por uma espcie de discusso recorrente entre Mr. Crale e Angela. Voltaram a trazer 
 baila a velha questo do colgio. Ele estava irritvel e com os nervos em franja, e ela anormalmente 
implicativa. O assunto estava decidido, o uniforme tinha sido comprado e no adiantava recomear a 
discusso, mas ela optou subitamente por torn-lo num motivo de agravo. No tenho dvida de que sentiu a 
tenso que reinava e de que esta mexeu com ela, tanto como com o resto dos presentes. Infelizmente, eu 
prpria estava demasiado absorvida pelos meus pensamentos para procurar

175

control-la, como devia ter feito. Tudo acabou com ela a arremessar um pesa-papis a Mr. Crale e a sair 
disparada da sala.

Fui atrs dela e disse-lhe asperamente que o seu comportamento infantil me envergonhava, mas ela 
continuava muito descontrolada, pelo que achei melhor deix-la em paz.

Hesitei quanto a ir ter com Mrs. Crale ao quarto, mas acabei por decidir que ela ficaria possivelmente 
aborrecida. Desde ento, s penso que devia ter ultrapassado o meu acanhamento e insistido para que me 
recebesse. Se ela o tivesse feito, talvez as coisas tivessem sido diferentes. Ela no tinha ningum, 
compreende, com quem pudesse desabafar. Embora admire o autocontrole, tenho lamentavelmente de 
admitir que, muitas vezes, tem efeitos negativos, quando levado longe de mais.  prefervel descarregar as 
emoes de um modo natural.

Cruzei-me com Mr. Crale quando me encaminhava para o meu quarto. Ele desejou-me boa-noite, mas eu 
no respondi.

Na manh seguinte, o tempo, tanto quanto me lembro, estava estupendo. Tinha-se a sensao de que, 
num cenrio to tranquilo, at um homem havia de cair em si ao acordar.

Fui ao quarto da Angela, antes de descer para o pequeno-almoo, mas ela j se levantara e sara. Peguei 
numa saia rasgada que ela tinha deixado no cho e levei-a comigo, para que ela a consertasse depois do 
pequeno-almoo.

Mas ela tinha conseguido po e compota de laranja na cozinha e tinha sado. Depois de tomar o pequeno-
almoo, fui  sua procura. Menciono este facto para explicar a razo por que no passei mais tempo com 
Mrs. Crale, nessa manh, como talvez devesse ter passado. Na altura, porm, achei ser meu dever ir  
procura da Angela. Ela era muito travessa e teimosa, quando se tratava de consertar a roupa, e eu no 
tencionava permitir que pusesse dessa maneira em causa a minha autoridade.

O seu fato de banho tinha desaparecido e, assim sendo, dirigi-me  praia. No havia sinais dela na gua, 
nem nos rochedos, pelo que achei possvel que ela tivesse ido a casa de Mr. Meredith Blake. Eram grandes 
amigos. Assim, atravessei a remo para a outra margem e retomei a minha busca. No a encontrei e acabei 
por regressar. Mrs. Crale, Mr. Blake e Mr. Philip Blake estavam no terrao.

Estava uma manh muito quente, sobretudo ao abrigo do vento, o que

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era o caso no terrao e na casa. Mrs. Crale sugeriu que talvez apreciassem cerveja gelada.

Havia um pequeno pavilho de Vero que tinha sido construdo, adjacente  casa, em tempos vitorianos. 
Mrs. Crale no gostava dele e no o usava como estufa, tendo-o transformado numa espcie de bar, com 
garrafas de gim, vermute, limonada, cerveja de gengibre, etc., guardadas em prateleiras, e havia um 
pequeno frigorfico que era fornecido de gelo, todas as manhs, no qual havia sempre cerveja e cerveja de 
gengibre.

Mrs. Crale foi a buscar a cerveja e eu fui com ela. A Angela estava nesse momento a tirar uma garrafa de 
cerveja do frigorfico.

Mrs. Crale foi  minha frente e disse:

Quero uma garrafa de cerveja para levar ao Amyas.

 extremamente difcil agora saber se devia ter suspeitado de alguma coisa. A sua voz, estou praticamente 
convencida, estava perfeitamente normal. Mas devo admitir que, nesse momento, as minhas atenes se 
concentravam, no nela, mas na Angela. Esta estava junto ao frigorfico e aprouve-me verificar que estava 
afogueada e tinha a culpa estampada no rosto.

Fui muito severa com ela e, para minha surpresa, ela mostrou-se muito dcil. Perguntei-lhe onde tinha 
estado e ela respondeu que estivera a tomar banho. Eu disse: No te vi na praia. E ela riu. Depois, 
perguntei-lhe onde estava a sua camisola e ela respondeu que a devia ter deixado na praia.

Menciono estes pormenores para explicar por que razo deixei Mrs. Crale levar a cerveja ao jardim da 
Bateria.

Quanto ao resto da manh, a minha memria guarda uma lembrana turva. A Angela foi buscar o seu 
estojo de costura e remendou a saia, sem mais protestos. Creio que eu prpria ponteei alguma roupa da 
casa. Mr. Crale no apareceu para almoar. Fiquei satisfeita que tivesse mostrado, pelo menos, essa 
decncia.

Depois do almoo, Mrs. Crale disse que ia descer ao jardim. Eu queria ir buscar a camisola da Angela  
praia. Partimos juntas. Ela foi ao jardim da Bateria e eu ia continuar o meu caminho, quando o grito dela me 
fez voltar atrs. Como lhe disse quando me visitou, ela pediu-me que fosse telefonar a um mdico. Pelo 
caminho, encontrei Mr. Meredith Blake e, em seguida, voltei para junto de Mrs. Crale.

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Foi esta a histria que contei no inqurito judicial e, mais tarde, em tribunal,

O que vou agora escrever nunca o disse a ningum. Nunca me foi feita nenhuma pergunta a que eu tivesse 
dado uma resposta inverdica. No entanto,culpada de ter omitido determinados factos no me arrependo 
disso. F-lo-ia novamente. Estou plenamente consciente de que, ao revelar o que vou revelar, me exponho  
censura, mas no creio que ningum, depois deste lapso de tempo, venha a considerar a questo 
seriamente sobretudo quando Caroline Crale foi condenada sem este meu depoimento.

O que aconteceu foi ento o seguinte:

Como disse, cruzei-me com Mr. Meredith Blake e voltei a correr pelo trilho abaixo o mais depressa que 
pude. Trazia sandlias de praia e sempre tive boas pernas.

Cheguei  porta aberta do jardim da Bateria e vi o seguinte:

Mrs. Crale estava atarefada a limpar com o leno a garrafa de cerveja que estava sobre a mesa. Em 
seguida, pegou na mo do marido morto e apertou os seus dedos contra a garrafa. Durante todo o tempo, 
estava  escuta e alerta. Foi o medo que lhe vi no rosto que me disse a verdade.

Nesse momento, soube, sem sombra de dvida, que Caroline Crale tinha envenenado o marido. E, pelo 
meu lado, no a censuro. Ele levou-a a um ponto que nenhum ser humano  capaz de suportar e a sorte 
que lhe coube foi obra sua.

Nunca falei deste incidente a Mrs. Crale e ela nunca soube que eu o presenciei.

A filha de Caroline Crale no deve permitir que a sua vida assente sobre uma mentira. Por mais dor que o 
conhecimento da verdade possa causar-lhe, a verdade  a nica coisa que importa.

Diga-lhe, da minha parte, que a me no merece ser julgada. Foi impelida mais longe do que aquilo que 
uma mulher que ama pode tolerar. A filha deve compreender e perdoar.

Fim do Relato de Ceclia Williams.

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RELATO DE ANGELA WARREN

Caro M. Poirot,

Cumprindo a promessa que lhe fiz, passei ao papel tudo quanto recordo dessa poca trgica h dezasseis 
anos. Mas apenas me apercebi do pouco de que efectivamente me lembro, quando comecei a faz-lo.  
que at a tragdia acontecer, no h nada que sirva como referncia.

Tenho uma vaga lembrana de dias estivais e de incidentes isolados, mas no posso afirmar com 
segurana em que Vero eles se passaram! A morte do Amyas no passou de um trovo que rebentou de 
repente. Foi completamente inesperada para mim, e julgo que tudo quanto levou a esse momento me 
passou ao lado.

Tenho tentado pensar se se trata de uma atitude normal ou no. As raparigas de quinze anos so to 
cegas, surdas e obtusas como eu pareo ter sido? Talvez sejam. Eu era, creio, rpida a avaliar os estados 
de esprito das pessoas, mas nunca dei cabo da cabea a pensar no que dava origem a esses estados.

Alm disso, precisamente nessa poca, tinha comeado a descobrir o fascnio das palavras. Coisas que 
lia, excertos de poesia de Shakespeare faziam eco na minha cabea. Lembro-me agora de caminhar pelo 
trilho da horta, repetindo para mim mesma, numa espcie de delrio exttico, sob a onda translcida de 
um verde vidrado... Era to belo. Sentia a necessidade de repetir a frase indefinidamente.

E,  mistura com estas novas descobertas e excitao, havia tudo o que eu gostava de fazer desde que 
tinha memria. Nadar e trepar s rvores, comer fruta, pregar partidas ao rapaz da estrebaria e dar de 
comer aos cavalos.

A Caroline e o Amyas eram o eixo do meu mundo. Eram as figuras

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centrais, mas eu nunca pensava neles, nas questes que os ocupavam, nem naquilo que pensavam e 
sentiam.

No prestei particular ateno  chegada da Elsa Greer Achava-a est pida e nem sequer a considerava 
bonita. Aceitei-a como uma pessoa com dinheiro, mas aborrecida, que o Amyas estava a pintar

Na verdade, o primeiro indcio que tive de toda a situao foi uma conversa que ouvi por acaso do terrao, 
para onde tinha escapado um dia depois do almoo a Elsa a dizer que ia casar com o Amyas! Pareceu-me 
uma simples absurdidade. Lembro-me de ter questionado o Amyas sobre o assunto. Foi no jardim em 
Handcross. Perguntei-lhe:

Porque  que a Elsa diz que se vai casar contigo? No pode. Um homem no pode ter duas mulheres...  
bigamia e podem ser presos por isso.

O Amyas ficou muito zangado e disse: Onde diabo foste ouvir isso?.

Disse-lhe que tinha ouvido atravs da janela da biblioteca.

Ele ficou mais furioso do que nunca e disse que tinha chegado a altura de eu ir para o colgio e de perder a 
mania de escutar s portas.

Ainda recordo o ressentimento que senti com as suas palavras. Porque era to injusto. Absoluta e 
totalmente injusto.

Furiosa, tartamudeei que no tinha estado  escuta e, de qualquer forma, perguntei, que tinha levado a Elsa 
a dizer uma coisa daquelas?

O Amyas disse que no passava de uma brincadeira.

Devia ter-me contentado com a resposta. E quase contentei. Mas no completamente.

No regresso, disse  Elsa: Perguntei ao Amyas o que tinhas querido dizer quando afirmaste que ias casar 
com ele e ele disse que no passou duma brincadeira.

Julguei que ia ficar toda mordida, mas limitou-se a sorrir.

No gostei daquele sorriso. Fui ter com a Caroline ao quarto. Ela estava a vestir-se para o jantar. Perguntei-
lhe frontalmente se era possvel o Amyas casar com a Elsa.

Lembro-me da resposta da Caroline, como se estivesse a ouvi-la agora. Deve ter falado com grande 
veemncia.

O Amyas s se casar com a Elsa por cima do meu cadver, foi o que disse.

Eu fiquei completamente descansada. A morte parecia estar a sculos de

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distncia de todos ns. No entanto, continuava muito magoada com o Amyas, pelo que ele tinha dito nessa 
tarde, e atirei-me violentamente a ele durante o jantar; lembro-me que tivemos uma discusso acesa, e eu 
sa da sala e fui deitar-me, tendo adormecido desfeita em lgrimas.

No me lembro com clareza da tarde em casa do Meredith Blake, embora me recorde bem da sua leitura 
da passagem de Fdon descrevendo a morte de Scrates. Nunca a tinha ouvido. Achei que era a coisa 
mais magnfica, mais bela que jamais tinha ouvido. Lembro-me disso mas no me lembro quando teve 
lugar. Tanto quanto sou capaz de evocar agora, pode ter sido em qualquer momento durante esse Vero.

Tambm no recordo nada do que aconteceu na manh seguinte, apesar de ter pensado vezes sem conta. 
Tenho a vaga sensao de que devo ter tomado banho e creio lembrar-me de ter sido obrigada a remendar 
qualquer coisa.

Mas  tudo muito vago e confuso at ao momento que o Meredith desceu o caminho, ofegante, vindo do 
terrao, com o rosto plido e uma expresso estranha. Lembro-me de uma chvena de caf cair da mesa e 
partir-se foi a Elsa. E lembro-me dela a correr a correr subitamente, com todas as suas foras, pelo 
caminho abaixo e a sua expresso terrvel.

Disse repetidamente a mim mesma: O Amyas est morto. Mas no parecia real.

Lembro-me da chegada do Dr. Faussett e da sua expresso grave. Miss Williams estava atarefada a tratar 
da Caroline. Eu deambulei por ali, sentindo-me desolada e estorvando toda a gente. Tinha uma sensao 
desagradvel e mrbida. No me deixavam ir ver o Amyas. Mas a polcia no tardou a chegar, comeando a 
tomar notas e, passado pouco tempo, trouxeram o seu corpo numa maca coberta com um pano.

Miss Williams levou-me ao quarto da Caroline mais tarde. Ela estava no sof. Estava sem cor e tinha um ar 
doentio.

Beijou-me e disse-me que queria que eu fosse embora, o mais depressa possvel e que, embora fosse tudo 
uma coisa horrvel, no queria que eu me afligisse, nem que pensasse no assunto. Devia ir para casa de 
Lady Tressillian, onde estava a Carla, porque a casa devia permanecer o mais possvel desocupada.

Agarrei-me  Caroline e disse que no queria ir embora. Queria ficar com

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ela. Ela disse que sabia disso, mas que era melhor para mim ir embora, o que lhe tiraria muitas 
preocupaes. E Miss Williams interrompeu e disse:

A melhor forma de ajudares a tua irm, Angela,  fazeres o que ela quer que tu faas, sem protestar.

Eu disse ento que faria o que a Caroline quisesse e a Caroline disse:  assim mesmo, linda menina, a 
minha Angela. E abraou-me, dizendo que no havia motivo para preocupaes e que falasse e pensasse 
no assunto o menos possvel.

Tive de descer e falar com o inspector da Polcia. Este foi muito amvel, perguntou-me quando tinha sido a 
ltima vez que eu vira o Amyas e muitas outras coisas, que na altura me pareceram completamente 
desnecessrias, mas cuja necessidade, naturalmente, agora compreendo. Ficou convencido de que eu no 
tinha nada para lhe dizer que ele j no soubesse pelos outros. Disse ento a Miss Williams que no 
punha objeces a que eu fosse para casa de Lady Tressillian, em Ferriby Grange.

Fui para l e Lady Tressillian foi muito bondosa para comigo. Mas, evidentemente, em breve vim a saber a 
verdade. Prenderam a Caroline quase imediatamente. Fiquei to horrorizada e atnita que adoeci 
gravemente.

Soube mais tarde que a Caroline estava terrivelmente preocupada comigo. Foi por insistncia sua que fui 
enviada para fora de Inglaterra, antes de o julgamento comear. Mas isso j lhe contei.

Como v, o que escrevi  lamentavelmente frugal. Desde que falei consigo, tentei recapitular 
minuciosamente o pouco de que me lembrava, dando voltas  memria  procura de um ou outro pormenor 
ou da expresso ou reaco desta ou daquela pessoa. No recordo nada que seja consistente com a 
culpa. O frenesim da Elsa. A palidez e a aflio do Meredith. A dor e a raiva do Philip tudo me parece 
bastante natural. Mas suponho que algum podia estar a fazer teatro?

A nica coisa que sei  que no foi a Caroline.

Estou muito segura deste aspecto e sempre estarei, mas no disponho de provas para apresentar,  
excepo do meu prprio conhecimento ntimo do seu carcter.

Fim do Relato de Angela Warren.

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LIVRO III

CAPTULO I

CONCLUSES

Carla Lemarchant ergueu o olhar. Os seus olhos deixavam transparecer a fadiga e a dor. Afastou o cabelo 
da fronte com um gesto cansado.

Tudo isto  desconcertante disse, tocando na pilha de manuscritos. Porque, de cada vez, o ngulo  
diferente! Todos vem a minha me de modo diferente. Mas os factos so os mesmos. Todos convergem 
nos factos.

A leitura desencorajou-a?

Sim. A si no?

No, considero esses documentos muito valiosos... muito esclarecedores.

Poirot falou lenta e reflexivamente.

Oxal nunca os tivesse lido! desabafou Carla. Poirot olhou para ela.

Ah...  ento isso que sente? Carla respondeu amargamente:

Todos pensam que ela o matou... todos, excepto a tia Angela e o que ela pensa no conta. No tem 
nenhum motivo.  apenas uma dessas pessoas leais que defendem uma coisa contra tudo e contra todos. 
No diz outra coisa, seno: A Caroline no podia ter feito aquilo.

 o que lhe parece?

Que outra coisa pode parecer? Sabe, cheguei  concluso de que, se no foi a minha me, ento deve ter 
sido uma destas cinco pessoas. At elaborei teorias sobre os motivos.

Ah! Isso  muito interessante. Fale-me delas.

Ora, no passam de teorias. O Philip Blake, por exemplo.  corretor da bolsa e era o melhor amigo do meu 
pai... provavelmente o meu pai confiava nele. E os artistas normalmente negligenciam as questes 
financeiras. Talvez

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o Philip Blake estivesse num aperto e usasse o dinheiro do meu pai. Pode ter obrigado o meu pai a assinar 
qualquer coisa. Depois a situao pode ter chegado a um ponto em que seria desmascarada... e s a 
morte do meu pai O poderia salvar. Foi uma das coisas em que pensei.

Nada mal congeminado. Que mais?

Bem, temos a Elsa. O Philip Blake diz que ela sabia muito bem o que queria para se arriscar a mexer em 
venenos, mas eu no acho que seja verdade. Suponhamos que a minha me foi ter com ela e lhe disse que 
nunca daria o divrcio ao meu pai, que nada a levaria a divorciar-se dele. Pode dizer o que quiser, mas eu 
acho que a Elsa tinha uma mentalidade burguesa... queria um casamento respeitvel. Penso que, nessas 
circunstncias, a Elsa seria perfeitamente capaz de roubar o veneno... teve as mesmas oportunidades 
nessa tarde... e pode ter tentado livrar-se da minha me, envenenando-a. Acho que se enquadraria 
perfeitamente no seu carcter. E, depois, possivelmente, por um acidente qualquer, o Amyas ingeriu a 
droga em lugar da Caroline.

Mais uma vez, nada mal congeminado. Que mais?

Bem disse Carla, pausadamente, pensei que... talvez... o Meredith!

Ah... Meredith Blake?

Sim.  que me parece ser precisamente o gnero de pessoa capaz de cometer um crime. Quero dizer, ele 
era o frouxo e hesitante, de quem os outros faziam troa e, talvez, no fundo, ele guardasse ressentimento. 
Depois, o meu pai casou com a rapariga com quem ele queria casar. E o meu pai era um homem rico e de 
sucesso. E ele preparava todos esses venenos! Talvez os preparasse realmente, porque lhe agradava a 
ideia de poder um dia matar algum. Teve de chamar a ateno para o facto de o preparado ter sido 
roubado, para desviar as suspeitas de si prprio. Mas a pessoa de longe mais provvel para t-lo levado era 
ele. A ideia de ver a Caroline enforcada at  capaz de lhe ter agradado, porque ela o rejeitara muitos anos 
antes. Sabe, o que ele afirma no seu relato cheira-me a esturro... como as pessoas fazem coisas que no 
se ajustam ao seu carcter Suponhamos que se referia a si prprio quando o escreveu?

Hercule Poirot disse:

Tem pelo menos razo numa coisa: no interpretar o que foi escrito

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como uma narrativa necessariamente fiel. O que foi escrito pode t-lo sido deliberadamente para enganar.

Sim, eu sei. No me esqueci disso.

Mais ideias?

Carla respondeu pausadamente:

Tinha-me questionado, antes de ler isto, acerca de Miss Williams. Ela ia perder o emprego, compreende, 
quando a Angela fosse para o colgio. E se o Amyas morresse inesperadamente, a Angela provavelmente 
no iria. Quer dizer, se passasse por uma morte natural... o que podia facilmente ter acontecido, suponho, 
se o Meredith no tivesse dado pela falta da conina. Informei-me sobre a conina, e soube que no deixa 
vestgios distintos aps a morte. Podia ter-se pensado que tinha sido uma insolao. Eu sei que a perda de 
um emprego no parece um motivo muito convincente para se assassinar algum. Mas j se cometeram 
muitos assassnios por motivos que parecem ridiculamente desajustados. Pequenas quantias de dinheiro, 
por vezes. E uma preceptora de meia-idade, talvez incompetente, poderia simplesmente ter comeado a 
afligir-se, no vendo qualquer futuro  sua frente. Como disse, foi o que pensei antes de ler isto. Mas Miss 
Williams no me parece nada assim. No me parece minimamente incompetente...

De maneira nenhuma. Continua a ser uma mulher muito eficiente e inteligente.

Eu sei.  uma coisa que se v. E parece tambm de absoluta confiana. Foi o que realmente me 
preocupou. O senhor sabe... o senhor compreende. No se importa, claro. Desde o incio, tornou claro que 
queria a verdade. Suponho que agora temos a verdade! Miss Williams tem toda a razo.  necessrio 
aceitar a verdade. No leva a lado nenhum basearmos a nossa vida numa mentira, porque  aquilo em que 
queremos acreditar. Pois, muito bem, eu sou capaz de aguentar com ela! A minha me no estava 
inocente! Escreveu-me aquela carta, porque estava fraca e infeliz e queria poupar-me. No a julgo. Talvez 
me devesse sentir igualmente assim. No sei que efeito a priso tem sobre as pessoas. E tambm no a 
censuro... e estava to desesperada com o meu pai, suponho que foi superior s suas foras. Mas tambm 
no censuro o meu pai, de maneira nenhuma. Compreendo... ainda que s um pouco... aquilo que ele 
sentia. To vivo... to dominado pelo desejo de ter

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tudo... Era mais forte do que ele... era o seu carcter. E era um grande pintor. Acho que isso desculpa 
muita coisa.

Voltou o seu rosto afogueado e emocionado para Hercule Poirot, erguendo provocadoramente o queixo.

Est ento convencida? perguntou Hercule Poirot.

Convencida? perguntou Carla Lemarchant. Falhou-lhe a voz ao pronunciar a palavra.

Poirot inclinou-se para a frente e deu-lhe uma palmada paternal no ombro.

Oua disse. Est a desistir da luta no momento em que vale mais a pena lutar. No momento em que eu, 
Hercule Poirot, tenho uma ideia muito clara do que aconteceu.

Carla olhou-o fixamente e disse:

Miss Williams gostava muito da minha me. Viu-a, com os seus prprios olhos, forjar as provas do suicdio. 
Se acredita no que ela diz...

Hercule Poirot levantou-se, dizendo:

Mademoiselle, porque Cecilia Williams diz que viu a sua me forjar as impresses digitais de Amyas Crale 
na garrafa de cerveja... na garrafa de cerveja, repare...  essa a nica coisa de que preciso para saber 
definitivamente, de uma vez por todas, que a sua me no matou o seu pai.

Acenou com a cabea vrias vezes e saiu da sala, deixando Carla de olhos cravados nas suas costas.

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CAPTULO II

POIROT FAZ CINCO PERGUNTAS
Ento, M. Poirot? O tom de Philip Blake era de impacincia.

Tenho de agradecer-lhe o relato lcido e admirvel que fez da tragdia dos Crale disse Poirot.

Philip Blake pareceu pouco -vontade.

 muita amabilidade sua murmurou. Fiquei realmente surpreendido com o que recordava, quando comecei 
a escrever.

Foi uma narrativa admiravelmente clara disse Poirot, mas houve algumas omisses, no  verdade?

Omisses? Philip Blake franziu o sobrolho. Hercule Poirot disse:

Digamos que a sua narrativa no foi inteiramente sincera. O seu tom endureceu. Fui informado, Mr. Blake, 
de que, pelo menos numa noite durante o Vero, Mrs. Crale foi vista a sair do seu quarto a uma hora 
bastante comprometedora.

Instalou-se um silncio, apenas interrompido pela respirao audvel de Philip Blake. Por fim, este disse: 
Quem lhe disse isso? Hercule Poirot abanou a cabea.

Quem me disse no  chamado ao caso. A questo  que eu sei. Mais uma vez, fez-se um silncio; em 
seguida, Philip Blake, decidindo-se,

disse:

Por acidente, ao que parece, o senhor esbarrou com uma questo puramente privada. Admito que no se 
enquadra naquilo que escrevi. No entanto, enquadra-se melhor do que possa pensar. Agora vejo-me 
obrigado a dizer-lhe a verdade.

Efectivamente, alimentei um sentimento de animosidade para com a

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Caroline Crale. Ao mesmo tempo, sempre me senti fortemente atrado por ela. Talvez este ltimo factor 
tenha induzido o primeiro. Desagradava-me o poder que ela exercia sobre mim e tentei reprimir a atraco 
que sentia por ela, frisando constantemente os seus pontos mais fracos. Nunca gostei dela se  que me 
compreende. Mas ter-me-ia sido fcil, em qualquer momento fazer amor com ela. Em rapaz, tinha-me 
apaixonado por ela e ela no me tinha ligado. Para mim, era uma coisa difcil de perdoar.

A minha oportunidade chegou, quando o Amyas perdeu completamente a cabea pela rapariga, a Greer. 
Sem que fosse realmente a minha inteno, surpreendi-me a dizer  Caroline que a amava. Ela disse com 
muita calma: Sim, eu sempre o soube. A insolncia da mulher!

Claro que eu sabia que ela no me amava, mas vi que estava perturbada e desiludida com a aventura do 
Amyas. Num estado de esprito destes,  muito fcil subjugar uma mulher. Ela concordou em vir ter comigo 
nessa noite. E veio.

Blake fez uma pausa. Debatia-se agora com dificuldades para se expressar.

Veio ao meu quarto. E ali, com os meus braos em torno dela, disse-me, com toda a frieza, que no 
adiantava! Afinal, disse ela, era uma mulher de um s homem. Pertencia ao Amyas Crale, para o bem e 
para o mal. Concordou que me tinha tratado muito mal, mas disse no ter podido evit-lo. Pediu-me que lhe 
perdoasse.

E foi embora. Deixou-me. Admira-se, M. Poirot, que o meu dio por ela tivesse aumentado cem vezes? 
Admira-se que eu nunca lhe tenha perdoado? Pelo insulto que me infligiu, e ainda pelo facto de ter 
assassinado o amigo que eu mais amava no mundo?

Tremendo violentamente, Philip Blake exclamou:

No quero falar nisto, est a ouvir? A tem a sua resposta. Agora desaparea! E nunca mais volte a falar-me 
neste assunto!
Pretendo saber, Mr. Blake, por que ordem os seus convidados saram do laboratrio naquele dia.

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Meredith Blake protestou.

Mas, meu caro M. Poirot... Passados dezasseis anos! Como  que eu posso lembrar-me? J lhe disse que 
a Caroline Crale foi a ltima a sair.

Tem a certeza disso?

Sim... pelo menos... julgo que sim...

Vamos l agora. Temos de ter a certeza absoluta, compreende? Sempre a protestar, Meredith Blake foi  
frente. Abriu a porta e escancarou as portadas. Poirot falou-lhe num tom autoritrio.

Muito bem, meu amigo. Mostrou aos seus visitantes as suas interessantes poes de ervas. Agora feche 
os olhos e pense...

Meredith Blake obedeceu. Poirot tirou um leno do bolso e agitou-o suavemente de um lado para o outro. 
Blake murmurou, as narinas fremindo ligeiramente.

Sim, sim... extraordinrio como as coisas voltam  memria. Lembro-me agora que a Caroline trazia um 
vestido claro, cor de caf. O Phil estava com um ar enfadado... Sempre tinha achado o meu passatempo 
uma idiotice.

Agora reflicta instruiu Poirot, est quase a sair da sala. Vai  biblioteca, onde vai ler uma passagem sobre a 
morte de Scrates. Quem sai primeiro da sala... o senhor?

Eu e a Elsa... sim. Ela transps a porta primeiro. Eu sa logo atrs. Estvamos a conversar. Fiquei ali  
espera que os outros sassem, para poder fechar novamente a porta. O Philip... sim, o Philip saiu a seguir. 
E a Angela... estava a perguntar-lhe o que eram touros e ursos. Continuaram pelo corredor. O Amyas 
seguiu-os. Eu continuei  espera... da Caroline, claro.

Ento tem a certeza absoluta de que a Caroline ficou para trs. Viu o que ela estava a fazer?

Blake abanou a cabea.

No, estava de costas para a sala, compreende. Estava a falar com a Elsa... a enfad-la, imagino... a 
explicar-lhe como determinadas plantas, segundo a superstio antiga, devem ser colhidas durante a lua 
cheia. E depois a Caroline saiu... um pouco apressada... e eu fechei a porta  chave.

Calou-se e olhou para Poirot, que estava a enfiar o leno ao bolso. Meredith Blake fungou, com uma 
expresso de repugnncia, e pensou: Esta agora, o sujeito usa mesmo perfume.

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Tenho a certeza absoluta disse, em voz alta. Foi por essa ordem A Elsa, eu, o Philip, a Angela e a 
Caroline. Isso ajuda-o em alguma coisa?

Tudo encaixa respondeu Poirot. Oua, desejo organizar aqui uma reunio. Creio que no ser difcil...
Ento?

Elsa Dittisham fez a pergunta quase com avidez... como uma criana.

Desejo fazer-lhe uma pergunta, madame. -Sim?

Quando tudo acabou... disse Poirot refiro-me ao julgamento... Meredith Blake pediu-a em casamento?

Elsa olhou-o fixamente. O seu ar era de desprezo, quase de enfado.

Sim, pediu. Porqu?

Ficou surpreendida?

Fiquei? No me recordo.

Que lhe respondeu? Elsa riu e disse:

Que acha o senhor que eu respondi? Depois do Amyas... o Meredith? Teria sido ridculo. Foi uma estupidez 
da parte dele. Ele sempre foi muito estpido. Elsa sorriu subitamente e continuou: Queria proteger-me, est 
a ver... olhar por mim... foi como ps a questo! Pensou, como toda a gente, que as sesses peridicas 
do julgamento tinham sido uma provao terrvel para mim. E os jornalistas! E as vaias das multides! E a 
lama que me foi atirada.

Por um instante, ficou meditativa, dizendo, em seguida:

Pobre Meredith! Um pateta consumado! E voltou a rir.
Mais uma vez, Hercule Poirot defrontou o olhar astuto e penetrante de Miss Williams e, mais uma vez, 
sentiu os anos recuar e sentiu-se, ele prprio, um rapazinho submisso e apreensivo.

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Tinha, explicou, uma pergunta que desejava fazer-lhe.

Miss Williams deu a entender que estava disposta a ouvir a pergunta.

Poirot disse, pausadamente, escolhendo as palavras com cuidado:

Angela Warren ficou desfigurada quando era uma criana pequena. Nas minhas notas, encontro duas 
referncias ao facto. Uma indica que Mrs. Crale atirou um pesa-papis  criana. A outra diz que ela atacou 
a pequenita com um p-de-cabra. Qual destas verses  a correcta?

Miss Williams respondeu vivamente:

Nunca ouvi falar em nenhum p-de-cabra. A verso correcta  com o pesa-papis.

Qual foi a sua fonte de informao?

A prpria Angela. Informou-me, logo no incio, de sua livre vontade.

Que disse ela exactamente?

Tocou na face e disse: A Caroline fez-me isto, quando eu era beb. Atirou-me um pesa-papis. Nunca fale 
no assunto, porque ela fica terrivelmente perturbada, est bem?.

Alguma vez Mrs. Crale lhe falou no assunto?

Apenas de uma forma indirecta. Partiu do princpio de que eu conhecia a histria. Lembro-me de que me 
disse uma vez: Eu sei que acha que eu estrago a Angela com mimos, mas, sabe, acho sempre que nada 
do que possa fazer poder compens-la do mal que lhe fiz. E, numa outra ocasio, disse: Saber que se 
desfigurou um ser humano para toda a vida  o fardo mais pesado que se pode suportar.

Obrigado, Miss Williams.  tudo o que eu queria saber. Cecilia Williams disse bruscamente:

No o compreendo, M. Poirot. Mostrou  Carla o meu relato da tragdia?

Poirot assentiu.

E ainda assim continua... calou-se.

Reflicta por um momento pediu Poirot. Se passasse por um vendedor de peixe e visse doze peixes 
expostos na banca, pensaria que eram todos peixes autnticos, no  verdade? Mas um podia ser um 
peixe empalhado.

Miss Williams replicou, animadamente:

Muito pouco provvel e ademais...

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Ah, pouco provvel, sim, mas no impossvel... porque um amigo meu pegou num peixe empalhado uma 
vez... era a sua actividade... para compar-lo com a coisa autntica! E se visse uma jarra de znias numa 
sala de estar, em Dezembro, diria que eram falsas... mas podiam ser verdadeiras, trazidas de avio de 
Bagdade.

Que pretende dizer com essas absurdidades? inquiriu Miss Williams.

 para lhe demonstrar que  com os olhos da mente que realmente se v...
Poirot abrandou um pouco, ao aproximar-se do grande prdio de apartamentos voltado para Regents Park.

Na verdade, pensando bem sobre o assunto, no pretendia fazer quaisquer perguntas a Angela Warren. A 
nica pergunta que queria realmente fazer-lhe podia esperar...

No, era apenas a sua insacivel paixo pela simetria que o trazia ali. Cinco pessoas devia haver cinco 
perguntas! Era mais exacto assim. Dava um desfecho muito melhor ao assunto.

Bem, alguma coisa havia de lhe ocorrer.

Angela Warren cumprimentou-o quase com sofreguido, dizendo:

Descobriu alguma coisa? Chegou a alguma concluso?

Poirot fez um movimento lento de cabea, no seu melhor estilo de mandarim chins, e disse:

Finalmente, estou a fazer progressos.

O Philip Blake? Foi um misto de afirmao e interrogao.

Mademoiselle, presentemente no desejo fazer qualquer declarao. Ainda no chegou o momento. Quero 
apenas pedir-lhe que tenha a amabilidade de se deslocar a Handcross Manor. Os outros j aceitaram.

Com um leve franzir de sobrolho, ela respondeu:

Que se prope fazer? Reconstituir o que sucedeu h dezasseis anos?

Olhar talvez para os acontecimentos de um ponto de vista mais claro. Vem?

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Com certeza que irei disse pausadamente Angela Warren. Ser interessante rever todas essas pessoas. 
Talvez as veja agora de um ponto de vista mais claro... como o senhor diz... do que nessa poca.

Importa-se de levar consigo a carta que me mostrou? Angela Warren franziu o sobrolho.

Essa carta pertence-me. Mostrei-lha por uma boa razo que deve bastar, e no tenciono permitir que seja 
lida por pessoas estranhas e insensveis.

Mas deixar-se- guiar por mim nessa matria?

Nem pensar. Levarei a carta comigo, mas usarei o meu prprio discernimento que, atrevo-me a afirmar,  
to criterioso como o seu.

Poirot abriu as mos, em sinal de resignao. Levantou-se para sair, dizendo:

Permita-me que lhe faa uma ltima pergunta.

Faa favor.

Na altura da tragdia, tinha lido recentemente A Lua e Cinco Tostes de Somerset Maugham, no tinha?

Angela fitou-o e disse:

Creio que... sim, sim, efectivamente tinha. Olhou-o com franca curiosidade. Como  que soube?

Quero provar-lhe, mademoiselle, que at numa pequena questo sem importncia, sou uma espcie de 
mgico. H coisas que sei, sem precisar que mas digam.

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CAPTULO III

A RECONSTITUIO

O sol da tarde penetrava no laboratrio de Handcross Manor. Haviam sido trazidas para a sala algumas 
cadeiras de braos e um sof, que mais contribuam para sublinhar o ambiente de desolao do que para 
mobilar o espao.

Ligeiramente embaraado, cofiando o bigode, Meredith Blake mantinha com Carla uma conversa 
incoerente. Interrompeu a determinada altura, para dizer: Minha querida, s to parecida com a tua me... e 
ao mesmo tempo muito diferente.

Carla perguntou: Em que sou parecida e em que sou diferente dela?

Tens a mesma cor de tez e a mesma forma de andar, mas s... como dizer... mais positiva do que ela era.

Philip Blake, a testa crispada numa expresso mal-humorada, olhava pela janela e tamborilava 
impacientemente na vidraa. Disse:

Qual  o propsito disto tudo? Uma tarde de sbado magnfica... Hercule Poirot apressou-se a deitar gua 
na fervura.

Ah, sinto imenso... eu sei que  imperdovel causar transtornos ao golfe. Mais voyons, M. Blake, trata-se 
da filha do seu melhor amigo. Com certeza que faz um esforo por ela, no  assim?

O mordomo anunciou: Miss Warren.

Meredith foi ao seu encontro para dar-lhe as boas-vindas. Foste muito amvel em teres-te disponibilizado a 
vir, Angela. Sei que s uma pessoa muito ocupada.

Conduziu-a at junto da janela.

Carla disse: Ol, tia Angela. Li o teu artigo em The Times hoje de manh.  fantstico ter uma pessoa 
famosa na famlia. Indicou o jovem alto,

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de maxilar anguloso e calmos olhos cinzentos. Apresento-te o John Rattery. Eu e ele... esperamos... vir a 
casar.

Ah, no sabia... disse Angela Warren.

Meredith foi cumprimentar Miss Williams que chegou de seguida.

Miss Williams, h quanto tempo no nos vamos.

Franzina, dbil e indmita, a idosa preceptora entrou na sala. Por um momento, o seu olhar pousou 
pensativamente em Poirot e, em seguida, passou  figura alta e espadada, vestida com um fato de tweed 
de bom corte.

Angela Warren avanou ao seu encontro e disse, com um sorriso: Sinto-me novamente como uma menina 
de escola.

Sinto um grande orgulho em ti, minha querida disse Miss Williams. No me deixaste ficar mal. Esta  a 
Carla, imagino? No se deve lembrar de mim. Era muito novinha...

Philip Blake disse, num tom agastado: Que vem a ser tudo isto? Ningum me disse...

Chamo-lhe... eu... uma viagem ao passado respondeu Hercule Poirot. Acho melhor sentarmo-nos. Assim 
estaremos preparados quando a prxima convidada chegar. E, logo que aqui esteja, podemos proceder ao 
que aqui nos traz... aplacar os fantasmas.

Philip Blake exclamou: Que parvoce  esta? Espero bem que no v realizar uma sesso de espiritismo.

No, no. Vamos simplesmente discutir algumas ocorrncias que se deram h muito tempo... discuti-las e, 
talvez, ver mais claramente como elas sucederam. Quanto aos fantasmas, no se materializaro, mas 
quem pode afianar que no esto aqui, nesta sala, ainda que no os vejamos? Quem pode afianar que 
Amyas e Caroline Crale no esto aqui presentes... a ouvir?

 um contra-senso absurdo... exclamou Philip Blake, calando-se, quando a porta abriu e o mordomo 
anunciou Lady Dittisham.

Elsa Dittisham entrou com a leve insolncia enfadada que a caracterizava. Sorriu de fugida a Meredith, 
olhou friamente para Angela e Philip e encaminhou-se para uma cadeira junto  janela, afastada dos outros. 
Desprendeu a opulenta estola de pele clara que trazia ao pescoo e deixou-a cair para trs. Olhou em volta, 
durante uns momentos, fixando por fim o olhar em Carla, que lho retribuiu, estudando pensativamente a 
mulher que

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semeara o caos na vida dos seus pais. A expresso do seu rosto jovem e sincero no era hostil, mas 
apenas curiosa.

Peo desculpa pelo atraso, M. Poirot disse Elsa.

Foi muito gentil em ter vindo, madame.

Cecilia Williams emitiu um som imperceptvel. Elsa confrontou a animosidade do seu olhar com uma total 
falta de interesse e disse:

Hoje no te reconheceria, Angela. H quanto tempo foi? Dezasseis anos?

Hercule Poirot viu aqui a sua oportunidade.

Sim, decorreram dezasseis anos desde as ocorrncias de que vamos falar, mas deixem-me primeiro dizer-
lhes por que razo aqui nos reunimos.

E, em meia dzia de palavras simples, exps o apelo que Carla lhe fizera e a sua aceitao da tarefa.

Prosseguiu rapidamente, ignorando a tempestade que comeava a formar-se no rosto de Philip e o 
desagrado ferido no de Meredith.

Aceitei a incumbncia... e comecei a trabalhar a fim de descobrir... a verdade.

Carla Lemarchant, sentada na enorme poltrona, ouviu vagamente,  distncia, as palavras de Poirot.

Protegendo os olhos do sol com a mo, estudou sub-repticiamente os cinco rostos. Seria capaz de 
imaginar alguma destas pessoas a cometer um crime? A extica Elsa, o afogueado Philip, o querido, 
simptico e bom Mr. Meredith Blake, essa preceptora formidvel e soturna, a fria e competente Angela 
Warren?

Seria capaz se se esforasse de visualizar um deles a matar algum? Sim, talvez mas no seria o tipo 
certo de crime. Era capaz de imaginar Philip Blake, numa exploso de raiva, a estrangular uma mulher sim, 
era capaz de imaginar uma coisa dessas... E era capaz de imaginar Meredith Blake a ameaar um 
assaltante com um revlver e a dispar-lo por acidente... E era capaz de imaginar Angela Warren, tambm 
a disparar um revlver, mas no por acidente. Sem qualquer emoo pessoal envolvida a segurana da 
operao dependeria disso! E Elsa, num qualquer castelo deslumbrante, dizendo do seu canap de sedas 
orientais: Lancem a bruxa das ameias!. Fantasias loucas e, nem no mais louco arroubo de fantasia, era

199

capaz de imaginar a pequena Miss Williams a matar fosse quem fosse! Outro quadro fantstico: J 
alguma vez matou algum, Miss Williams?. Continua a fazer os exerccios de matemtica, Carla, e no 
faas perguntas tolas Matar  muito feio.

Carla pensou:  prfido e eu tenho de acabar com isto. Ouve, tonta, ouve esse homenzinho que diz que 
sabe.

Hercule Poirot falava:

Era essa a minha tarefa... meter marcha atrs, por assim dizer, e recuar no tempo para descobrir o que 
realmente tinha acontecido.

Philip Blake disse: Todos sabemos o que aconteceu. Pretender que foi outra coisa  um embuste...  o que 
, um embuste descarado. Est a extorquir dinheiro a esta rapariga sob falsos pretextos.

Poirot no se deixou enfurecer e disse:

O senhor diz, todos sabemos o que aconteceu. Fala sem reflectir. A verso aceite de certos factos no  
necessariamente a verdadeira.  primeira vista, por exemplo, o senhor, Mr. Blake, no gostava de Caroline 
Crale. Esta  a verso aceite da sua atitude. Mas qualquer pessoa com um mnimo de talento para a 
psicologia  capaz de perceber imediatamente que a verdade era precisamente o contrrio. Sempre se 
sentiu violentamente atrado por Caroline Crale. O facto desagradava-lhe e o senhor procurou ultrapass-lo, 
repetindo resolutamente a si prprio os defeitos dela e reiterando a sua averso. Do mesmo modo, Mr. 
Meredith Blake nutria tradicionalmente uma devoo de longa data por Caroline Crale. Na sua histria da 
tragdia, atribui a si prprio o papel de quem guardava ressentimento pela conduta de Amyas Crale, por 
causa dela, mas basta ler cuidadosamente entre as linhas para ver que a devoo de uma vida inteira se 
tinha consumido e que era a jovem e bela Elsa Greer quem ocupava o seu pensamento e afectos.

Meredith balbuciou qualquer coisa e Lady Dittisham sorriu. Poirot continuou:

Menciono estes factos para ilustrar a minha perspectiva, embora tenham tido influncia nos 
acontecimentos. Pois muito bem, comeo pela minha viagem ao passado... destinada a inteirar-me de tudo 
o que me fosse possvel sobre a tragdia. Vou contar-lhes como abordei a tarefa. Falei com o advogado de 
defesa de Caroline Crale, com o advogado da coroa assistente,

200

com o velho jurisconsulto que tinha privado intimamente com a famlia Crale, com o chefe de escritrio do 
advogado, que esteve presente em tribunal durante o julgamento, com o inspector-chefe da polcia 
encarregado do caso e finalmente cheguei s cinco testemunhas oculares presentes no local do crime. E, 
a partir de todos estes depoimentos, constru um quadro o quadro compsito de uma mulher. E deduzi os 
seguintes factos:

Que em momento nenhum Caroline Crale protestou a sua inocncia (excepto numa s carta que escreveu 
 filha).

Que Caroline Crale no revelou qualquer medo no banco dos rus, que, na verdade, no demonstrou 
praticamente nenhum interesse, que adoptou uma atitude profundamente derrotista, ao longo de todo o 
processo. Que, na priso, se comportou de forma calma e serena. Que numa carta que escreveu  irm, 
imediatamente aps o veredicto, se afirmou igualmente conformada com a sorte de que fora vtima. E, na 
opinio de toda a gente com quem falei (com uma notvel excepo), Caroline Crale era culpada.

Philip Blake acenou afirmativamente:  evidente que era!

Hercule Poirot disse:

Mas o meu papel no era aceitar o veredicto de outras pessoas. Tinha de examinar as provas 
pessoalmente. Examinar os factos e convencer-me de que a psicologia do caso era concordante com eles. 
Para tal, analisei minuciosamente os arquivos da polcia e consegui igualmente obter os relatos da tragdia 
das cinco pessoas presentes no local do crime. Estes relatos foram preciosssimos, j que continham 
determinados aspectos que eu no pude obter dos arquivos da polcia ou seja: A, determinadas conversas 
e incidentes que, do ponto de vista da polcia, no eram relevantes; B, as opinies das prprias pessoas 
relativamente ao que Caroline Crale teria pensado e sentido (no legalmente admissveis como prova); C, 
determinados factos que foram deliberadamente omitidos  polcia.

Estava agora em posio de avaliar pessoalmente o caso. Parece no haver qualquer dvida de que 
Caroline Crale tinha motivos de sobra para cometer o crime. Amava o marido, este tinha publicamente 
admitido que estava em vias de troc-la por outra mulher e, segundo ela prpria admitiu, era uma mulher 
ciumenta.

Passando dos motivos ao meio, um frasco de perfume vazio que havia

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contido conina foi encontrado na gaveta da sua escrivaninha. No tinha outras impresses digitais, alm 
das suas. Quando a polcia a interrogou sobre o assunto, admitiu t-lo levado desta sala em que agora nos 
encontramos O frasco de conina aqui tinha igualmente as suas impresses digitais. Interroguei Mr. 
Meredith Blake sobre a ordem por que as cinco pessoas saram desta sala nesse dia... pois parecia-me 
difcil de conceber que qualquer pessoa pudesse ter pegado no veneno, na presena de cinco pessoas. As 
pessoas saram da sala por esta ordem: Elsa Greer, Meredith Blake, Angela Warren e Philip Blake, Amyas 
Crale e, por ltimo, Caroline Crale. Alm disso, Mr. Meredith Blake estava de costas para a sala, enquanto 
esperava que Mrs. Crale sasse, pelo que lhe era impossvel ver o que ela fazia. Quer isto dizer que ela teve 
a oportunidade. Assim, estou convencido de que ela levou a conina. Existe confirmao indirecta do facto. 
Mr. Meredith Blake disse-me no outro dia: Lembro-me de estar aqui e sentir o odor do jasmim atravs da 
janela aberta. Mas o ms era Setembro e a trepadeira de jasmim l fora j teria deixado de florir.  o 
jasmineiro vulgar que floresce em Junho e Julho. Mas o frasco de perfume encontrado no seu quarto, 
contendo os resduos da conina, tinha contido originalmente perfume de jasmim. Estou, pois, certo de que 
Mrs. Crale decidiu roubar a conina e esvaziou furtivamente, pela janela, o perfume do frasco que trazia na 
carteira.

Confirmei este facto, pela segunda vez, quando, no outro dia, pedi a Mr. Blake que fechasse os olhos e 
tentasse recordar-se da ordem de sada das pessoas da sala. Uma lufada de fragrncia de jasmim 
estimulou de imediato a sua memria. Somos todos mais influenciados pelo cheiro do que imaginamos.

Chegamos, pois,  manh do dia fatdico. At aqui os factos no esto em contradio. A sbita revelao 
de Miss Greer do facto de ela e de Mr. Crale estarem a pensar casar-se, a confirmao de Amyas Crale 
desse mesmo facto e o profundo desgosto de Caroline Crale. Nenhum destes elementos depende do 
depoimento de uma nica testemunha.

Na manh seguinte, d-se uma cena entre marido e mulher na biblioteca. A primeira coisa que se ouve  
Caroline Crale, dizendo: Tu e as tuas mulheres! num tom azedo, e, finalmente, Um dia destes, mato-
te. Philip Blake ouviu estas palavras do corredor. E Miss Greer ouviu-as do terrao.

202

Em seguida, ela ouviu Mr. Crale pedir  mulher que fosse razovel. E ouviu Mrs. Crale dizer: Antes matar-
te do que deixar-te nas mos dessa rapariga. Pouco depois, Amyas Crale sai e diz, com rispidez, a Elsa 
Greer que desa para continuar a posar. Ela vai buscar uma camisola e acompanha-o.

At aqui, no h nada que parea psicologicamente incorrecto. Todos se comportaram como seria de 
esperar que se comportassem. Mas agora chegamos a uma coisa que  incongruente.

Meredith Blake descobre o desaparecimento da poo, telefona ao irmo; encontram-se no cais de 
desembarque e passam pelo jardim da Bateria, onde Caroline Crale est em plena discusso com o marido 
a propsito de ida de Angela para o colgio. Ora, isto parece-me muito bizarro. Marido e mulher tm uma 
cena tremenda que acaba numa distinta ameaa da parte de Caroline e, no entanto, uns vinte minutos mais 
tarde, ela desce ao jardim e inicia uma banal discusso familiar.

Poirot voltou-se para Meredith Blake.

Na sua narrativa, refere determinadas palavras que ouviu Crale dizer. Nomeadamente: Est tudo 
resolvido... eu trato de lhe aviar as malas.  assim, no  verdade?

Sim, qualquer coisa desse gnero respondeu Meredith Blake. Poirot voltou-se para Philip Blake:

A sua memria confere? Blake franziu o sobrolho.

No me lembrava at o senhor falar no assunto... mas agora lembro. As malas fram realmente 
mencionadas!

Mencionadas por Mr. Crale, e no por Mrs. Crale?

Foi o Amyas. A nica coisa que ouvi a Caroline dizer foi que era muito cruel para a pequena. Seja como for, 
qual  o interesse de tudo isso agora? Todos sabemos que a Angela foi para o colgio passado um dia ou 
dois.

No est a entender o sentido da minha objeco. Porque havia Amyas Crale de fazer as malas da 
rapariga?  uma coisa absurda! Havia Mrs. Crale, havia Miss Williams, havia uma criada. Fazer as malas  
uma tarefa de mulher... no  de homem.

Philip Blake disse impacientemente:

Que importncia tem? No tem nada a ver com o crime.

203

Acha que no? Quanto a mim, foi o primeiro ponto que me pareceu sugestivo. E  logo seguido de outro. 
Mrs. Crale, uma mulher desesperada destroada, que pouco antes ameaou o marido e que est 
inquestionavelmente a pensar em suicdio ou assassnio, oferece-se agora, com os modos mais amistosos, 
para trazer cerveja gelada ao marido.

Meredith Blake disse, pausadamente: No  estranho, se ela estivesse a pensar mat-lo. Nesse caso, 
seria justamente o que faria. Dissimular!

Acha que sim? Decidiu matar o marido e j tem o veneno. O marido dispe de uma reserva de cerveja no 
jardim da Bateria. Com certeza que, se  dotada de alguma inteligncia, ser numa dessas garrafas que 
por o veneno, num momento em que ningum esteja por perto.

Meredith Blake objectou.

No podia t-lo feito. Podia ser outra pessoa a beber.

Sim, Elsa Greer. Est a dizer-me que, depois de ter tomado a deciso de matar o marido, Caroline Crale 
teria escrpulos em matar tambm a rapariga?

Mas no nos detenhamos nesse ponto. Limitemo-nos aos factos. Caroline Crale diz que vai mandar ao 
marido cerveja gelada. Sobe  casa, vai buscar uma garrafa ao pavilho de Vero, onde a cerveja  
guardada, e leva-lha. Serve-a e d-lha.

Amyas Crale bebe-a e diz: Hoje tudo me sabe mal. Mrs. Crale volta para casa. Almoa e apresenta-se 
com os modos habituais. Disseram que parecia um pouco preocupada. Isso no nos ajuda, pois no existe 
qualquer critrio de comportamento para um assassino. Existem assassinos calmos e assassinos 
nervosos.

Depois do almoo, volta ao jardim da Bateria. Descobre o marido morto e faz, digamos, todas as coisas 
bvias que se espera dela. Manifesta emoo e manda a preceptora chamar o mdico. Chegamos agora a 
um facto desconhecido at agora. Olhou para Miss Williams. No coloca objeces?

Miss Williams estava bastante plida. No o fiz prometer sigilo respondeu.

Calmamente, mas produzindo um efeito visvel, Poirot narrou o que a preceptora vira.

204

Elsa Dittisham mudou de posio. Cravou o olhar na mulherzinha apagada, sentada na poltrona.

Viu-a realmente fazer isso? perguntou com incredulidade. Philip Blake ps-se de p num salto:

Mas isso resolve a questo! gritou Resolve a questo de uma vez por todas.

Hercule Poirot olhou-o, com docilidade, e disse: No necessariamente.

Angela Warren disse abruptamente: No acredito. O rpido olhar que desferiu  preceptora ia carregado de 
uma centelha de hostilidade.

Meredith Blake puxava pelo bigode, com uma expresso consternada. Unicamente Miss Williams 
permanecia imperturbvel. Estava sentada muito direita e, em cada face, ardia uma rodela de cor.

Foi o que eu vi retorquiu.

Poirot disse, lentamente:  evidente que s temos a sua palavra...

S existe a minha palavra. Os seus indmitos olhos cinzentos cruzaram-se com os seus. No estou 
habituada, M. Poirot, a que duvidem da minha palavra.

Hercule Poirot inclinou a cabea e disse:

Eu no duvido da sua palavra, Miss Williams. O que viu passou-se exactamente como a senhora 
descreveu... e, em virtude do que viu, compreendi que Caroline Crale no era culpada... no podia ser 
culpada.

Pela primeira vez, John Rattery, o jovem alto, de expresso ansiosa, falou: Estou interessado em saber por 
que razo afirma uma coisa dessas, M. Poirot.

Poirot voltou-se para ele:

Com certeza. Dir-lhe-ei. O que viu Miss Williams? Viu Caroline Crale a limpar, muito cuidadosa e 
ansiosamente, impresses digitais e, subsequentemente, a imprimir as do marido morto na garrafa de 
cerveja. Na garrafa de cerveja, repare. Mas a conina estava no copo e no na garrafa. A polcia no 
descobriu vestgios de conina na garrafa. Nunca houve conina na garrafa. E Caroline Crale no sabia disso.

Ela, que alegadamente envenenou o marido, no sabia como ele tinha sido envenenado. Estava 
convencida de que o veneno estava na garrafa.

205Meredith protestou: Mas porqu... Poirot interrompeu-o imediatamente.

Sim... porqu? Por que razo tentou Caroline Crale to desesperadamente estabelecer a teoria do suicdio? 
A resposta ... tem de ser... muito simples. Porque sabia quem o tinha envenenado e estava disposta a 
tudo... a suportar tudo... para que as suspeitas no recassem sobre essa pessoa.

Estamos quase no fim. Quem poderia ser essa pessoa? Ela teria protegido Philip Blake? Ou Meredith? 
Ou Elsa Greer? Ou Cecilia Williams? No, s existe uma pessoa que ela estava disposta a proteger a todo 
o custo. Fez uma pausa: Miss Warren, se trouxe a ltima carta da sua irm consigo, gostaria de l-la em 
voz alta.

No respondeu Angela Warren.

Mas, Miss Warren...

Angela levantou-se. A sua voz ressoou, fria como ao.

Compreendo perfeitamente aquilo que est a sugerir. Est a dizer, no  verdade, que eu matei o Amyas 
Crale e que a minha irm sabia. Nego essa alegao em absoluto.

Poirot disse: A carta...

Essa carta foi-me destinada exclusivamente a mim.

Poirot olhou para o ponto da sala onde as duas pessoas mais jovens presentes se encontravam sentadas.

Carla Lemarchant disse: Por favor, tia Angela, faz o que o M. Poirot te pede.

Angela Warren disse, num tom acrimonioso: Francamente, Carla! No tens a noo da decncia? Era a tua 
me... tu...

A voz de Carla soou distinta e desapiedada.

Sim, era minha me.  por isso que tenho o direito de te pedir Falo em nome dela. Quero que essa carta 
seja lida.

Lentamente, Angela Warren tirou a carta da carteira e passou-a a Poirot, dizendo, num tom azedo:

Oxal nunca lha tivesse mostrado.

Afastando-se deles, colocou-se junto da janela, olhando para fora. Enquanto Hercule Poirot lia em voz alta a 
ltima carta de Caroline Crale, as sombras adensavam-se nos cantos da sala. Carla teve a sensao sbita 
de

206

que estava algum presente, ganhando forma, ouvindo, respirando, esperando. Pensou: Ela est aqui... a 
minha me est aqui. A Caroline, a Caroline Crale est aqui nesta sala!.

A voz de Hercule Poirot calou-se.

Creio que todos concordaro disse ele que esta carta  admirvel. Uma bela carta tambm, mas sem 
dvida admirvel. Porque contm uma omisso notvel... no inclui qualquer protesto de inocncia.

Angela Warren disse, sem desviar a cabea: Era desnecessrio.

Sim, Miss Warren, era desnecessrio. Caroline Crale no tinha necessidade de dizer  irm que estava 
inocente... porque sabia que a irm estava inteirada desse facto... inteirada pela melhor das razes. A 
nica coisa que preocupava Caroline Crale era confortar, tranquilizar e impedir a possibilidade de uma 
confisso da parte de Angela. Repete vrias vezes: Est tudo bem, querida, est tudo bem.

Angela Warren disse: No  capaz de compreender? Ela queria que eu fosse feliz, mais nada.

Sim, queria que fosse feliz,  mais do que evidente.  a sua nica preocupao. Tem uma filha, mas no  
nessa filha que pensa... isso vir mais tarde. No,  a irm que lhe ocupa o pensamento ao ponto de 
excluir tudo o resto. A irm precisa de ser tranquilizada, encorajada a viver a sua vida, a ser feliz e a 
singrar. E para que o fardo da aceitao no seja excessivamente pesado, Caroline inclui uma frase cheia 
de significado: Uma pessoa tem de pagar pelo que faz.

Essa frase explica tudo. Alude explicitamente ao fardo que Caroline carregou, durante muitos anos, desde 
que, num ataque descontrolado de raiva adolescente, arremessou um pesa-papis  sua irm beb, 
desfigurando-a para toda a vida. Agora, finalmente, tem a oportunidade de pagar por aquilo que fez. E se 
constitui algum consolo, dir-lhes-ei a todos que acredito sinceramente que, ao pagar esse preo, Caroline 
Crale atingiu uma paz e uma serenidade maiores do que alguma vez experimentara. Porque acreditava que 
estava a pagar pelo que fizera, o pesadelo do julgamento e da condenao no a afectaram.  uma coisa 
estranha de se dizer acerca de uma assassina condenada... mas ela tinha tudo aquilo de que precisava 
para ser feliz. Sim, mais do que imaginam, como agora lhes provarei.

207

Vejam como, atravs desta explicao, tudo encaixa no que diz respeito s reaces de Caroline. 
Atentem na sequncia dos acontecimentos do seu ponto de vista. Para comear, na noite anterior, sucede 
uma coisa que a fora a recordar a sua prpria meninice rebelde. Angela atira um pesa-papis a Amyas 
Crale. Foi isso, no se esqueam, que ela prpria fez muitos anos antes. Angela grita que deseja a morte 
de Amyas. Depois, na manh seguinte, Caroline entra no pavilho de Vero e encontra Angela a mexer na 
cerveja. Lembrem-se das palavras de Miss Williams: A Angela estava ali. Tinha a culpa estampada no 
rosto... A culpa por ter faltado aos seus deveres, como interpretou Miss Williams, mas, para Caroline, a 
culpa de Angela, ao ser apanhada em flagrante, ter tido outro significado. Lembrem-se de que, pelo 
menos, numa ocasio anterior, Angela tinha posto coisas na bebida de Amyas. Era uma ideia que podia 
prontamente ocorrer-lhe.

Caroline pega na garrafa que Angela lhe passa e desce ao jardim da Bateria. E a serve a bebida e d-a a 
Amyas, que faz um esgar, ao sorv-la, e pronuncia as sugestivas palavras: Hoje tudo me sabe mal.

Caroline no alimenta suspeitas, nesse ponto... mas, depois do almoo, vai ao jardim da Bateria e 
encontra o marido morto... a no lhe restam dvidas de que foi envenenado. No fora ela? Quem fora 
ento? E subitamente fz-se-lhe luz as ameaas de Angela, a expresso de Angela inclinada sobre a 
cerveja e apanhada em flagrante... culpada, culpada, culpada. Porque fez a pequena uma coisa destas? 
Para se vingar de Amyas, talvez sem inteno alguma de matar, mas simplesmente de p-lo doente ou 
maldisposto? Ou f-lo por ela, por Caroline? Compreendeu que Amyas se prepara para abandonar a irm e 
ressente-se do facto? Caroline lembra-se... to vividamente... das suas prprias emoes violentas e 
rebeldes, quando tinha a idade de Angela. E s lhe ocorre um pensamento. Como pode proteger Angela? 
Angela manuseou aquela garrafa... esta ter as suas impresses digitais. Limpa-a rapidamente e passa-lhe 
lustro. Se ao menos as pessoas forem persuadidas de que foi suicdio... Se as impresses digitais de 
Amyas forem as nicas a serem encontradas. Tenta pressionar os seus dedos mortos  volta da garrafa... 
debatendo-se desesperadamente...  escuta, no v algum aparecer...

Uma vez assumida a veracidade desta premissa, tudo o resto encaixa.

208

A sua ansiedade, desde logo, em relao a Angela, a sua insistncia para que fosse levada dali, tentando 
mant-la afastada dos acontecimentos. O seu receio de que Angela fosse minuciosamente interrogada pela 
polcia. Por fim, a sua opressiva ansiedade para fazer Angela sair de Inglaterra, antes do incio do 
julgamento. Porque vive no terror permanente de que Angela possa ir-se abaixo e confessar

209

CAPTULO IV

A VERDADE

Lentamente, Angela Warren voltou-se. O seu olhar, duro e desdenhoso, percorreu os rostos que a fitavam.

Idiotas cegos...  o que so, todos vocs. No vem que, se tivesse sido eu, teria confessado! Nunca teria 
deixado a Caroline sofrer por uma coisa que eu tivesse feito. Nunca!

Mas mexeu de facto na cerveja afirmou Poirot.

Eu? Mexer na cerveja?

Poirot voltou-se para Meredith Blake.

Oua, monsieur. Aqui no seu relato do que aconteceu, indica que ouviu rudos nesta sala, que fica por 
baixo do seu quarto, na manh do crime.

Blake assentiu.

Mas foi s um gato.

Como sabe que foi um gato?

No...no me consigo lembrar. Mas foi um gato. Tenho a certeza absoluta de que foi um gato. A janela 
estava aberta o suficiente para um gato entrar.

Mas no estava fixa nessa posio. A vidraa move-se livremente. Podia ter sido levantada e uma pessoa 
podia ter entrado e sado.

Sim, mas eu sei que foi um gato.

Mas viu o gato?

Blake, perplexo, disse pausadamente:

No, no o vi... calou-se, franzindo o sobrolho. Mas sei.

Agora vou dizer-lhe por que razo sabe. Coloco entretanto esta questo  sua considerao. Algum podia 
ter vindo a esta casa nessa manh, entrado no seu laboratrio, pegado em qualquer coisa da prateleira e 
sado novamente, sem o senhor ver Se essa pessoa tivesse vindo de Alderbury, no podia ter sido Philip 
Blake, nem Elsa Greer, nem Amyas Crale, nem Caroline

211

Crale. Sabemos perfeitamente o que essas quatro pessoas estavam a fazer. Ficam de fora Angela Warren 
e Miss Williams. Miss Williams veio aqui... o senhor chegou a encontr-la quando saiu. Ela disse-lhe na 
altura que andava  procura de Angela. Angela tinha ido tomar banho cedo, mas Miss Williams no a viu no 
mar, nem nas rochas. Ela podia facilmente ter nadado at este lado... de facto, foi o que fez mais tarde, 
nessa manh, quando tomou banho com Philip Blake. Sugiro que ela nadou at aqui, se dirigiu  casa, 
entrou pela janela e levou qualquer coisa da prateleira.

No fiz nada disso... pelo menos... no... disse Angela Warren.

Ah! Poirot emitiu um gemido de triunfo. Lembrou-se. Disse-me, no  verdade, que, para pregar uma partida 
maldosa a Amyas Crale, surripiou um pouco do que chamou aquela coisa dos gatos... foram as palavras 
que usou...

Meredith Blake disse bruscamente:

Valeriana!  claro.

Exactamente. Foi isso que lhe deu a certeza de que tinha sido um gato que entrou na sala. O seu olfacto  
muito apurado. Sentiu o cheiro tnue e desagradvel da valeriana, talvez sem tomar conscincia disso... 
mas a sugesto ao seu subconsciente foi gato. Os gatos gostam da valeriana e vo at ao fim do mundo 
por ela. A valeriana  particularmente desagradvel ao paladar e foi a sua descrio dela, no dia anterior, 
que fez a travessa Miss Angela planear pr um pouco na cerveja do cunhado que, como ela muito bem 
sabia, a sorvia sempre de um s trago.

Angela Warren disse, como quem procura recordar-se: Ter sido mesmo nesse dia? Lembro-me 
perfeitamente de t-la roubado. Sim, e lembro-me de ter pegado na cerveja e de a Caroline entrar e quase 
me apanhar em flagrante! Claro que lembro... Mas nunca associei o facto a esse dia em particular.

Pois no... porque na sua mente no existia qualquer associao. Para si, as duas ocorrncias foram 
completamente distintas. Uma era comparvel s outras partidas maldosas que pregava... a outra foi uma 
bomba trgica que rebentou imprevisivelmente e conseguiu apagar da sua mente todos os outros incidentes 
sem importncia. Mas eu reparei, quando falou do assunto, que disse: Surripiava, etc., etc. para meter 
nas bebidas do Amyas. No disse que o tinha realmente feito.

212

No, porque nunca fiz. A Caroline entrou precisamente quando eu estava a abrir a garrafa. Oh! Era um grito. 
E a Caroline pensou... pensou que tinha sido eu...

Calou-se. Olhou em volta. Disse, em voz baixa, no tom calmo que a caracterizava: Imagino que todos 
pensam tambm que fui eu.

Fez uma pausa e disse: Eu no matei o Amyas. Nem em resultado de uma brincadeira maldosa, nem de 
outro modo qualquer. Se tivesse, nunca teria guardado silncio.

Miss Williams disse abruptamente:

Claro que no, minha querida. Olhou para Hercule Poirot. S um tolo pensaria uma coisa dessas.

Hercule Poirot disse com brandura:

Eu no sou tolo e no penso isso. Sei perfeitamente quem matou Amyas Crale. Fez uma pausa Existe 
sempre o perigo de aceitar como provados factos que, de maneira nenhuma, o so. Olhemos para a 
situao em Alderbury. Uma situao por demais conhecida. Duas mulheres e um homem. Tommos 
como certo que Amyas Crale se propunha deixar a mulher pela outra rapariga. Mas eu sugiro-lhes agora 
que ele nunca tencionou faz-lo.

Ele j tivera paixonetas por outras mulheres no passado. Vivia obcecado por elas, enquanto as relaes 
duravam, mas estas eram de pouca dura. As mulheres por quem se apaixonara eram geralmente mulheres 
experientes... no esperavam grande coisa dele. Mas, neste caso, a mulher esperou.  que no era de 
todo uma mulher, compreendem. Era uma jovem e, segundo as palavras de Caroline Crale, era terrivelmente 
sincera... Podia ser fria e sofisticada no discurso, mas no amor era assustadoramente determinada. Porque 
ela prpria sentia uma paixo profunda e obsessiva por Amyas Crale, assumiu que ele sentia o mesmo por 
ela. Assumiu inquestionavelmente que a paixo entre ambos seria eterna. Assumiu, sem lhe perguntar, que 
ele deixaria a mulher.

Por que razo, perguntaro, no a desenganou Amyas Crale? E a minha resposta ... o quadro. Ele queria 
acabar o quadro.

A algumas pessoas, pode parecer inacreditvel... mas no a quem conhece os artistas. E j aceitmos 
essa explicao em princpio. A conversa entre Crale e Meredith Blake comea agora a fazer mais sentido. 
Crale sente-se embaraado... d uma palmada nas costas de Blake, tranquiliza-o, num

213

tom optimista, dizendo que tudo vai acabar bem.  que, para Amyas Crale, tudo  simples. Est a pintar 
um quadro, um pouco importunado pelo que descreve como um par de mulheres ciumentas e neurticas... 
mas no vai consentir que nenhuma delas interfira com o que, para ele,  a coisa mais importante da sua 
vida.

Se dissesse a Elsa a verdade, o quadro estaria acabado. Talvez no ardor dos seus sentimentos iniciais 
por ela, tenha realmente falado em deixar Caroline. Os homens dizem coisas dessas, quando esto 
apaixonados. Talvez tenha ento simplesmente permitido que ela partisse desse princpio, como permite 
agora que parta. No se preocupa com o que Elsa presume. Ela que pense o que quiser. Far tudo para 
que ela no faa ondas por mais um ou dois dias.

A dir-lhe- a verdade... que as coisas entre ambos esto acabadas. Ele nunca foi homem que se 
deixasse perturbar pelos escrpulos. Julgo que, de incio, se esforou por no se envolver com Elsa. 
Advertiu-a do gnero de homem que era... mas ela no deu ouvidos  advertncia. Precipitou-se em frente 
de olhos fechados. E, nas mos de um homem como Crale, as mulheres eram joguetes. Se lhe tivessem 
perguntado, teria facilmente respondido que Elsa era nova e em breve se recomporia do desgosto. Era 
assim que funcionava a mente de Amyas Crale.

A mulher era realmente a nica pessoa a quem tinha amor. Ela no lhe dava grandes preocupaes. S 
tinha de suportar a situao por mais alguns dias. Ficou furioso com Elsa, quando esta despejou o saco 
junto de Caroline, mas continuou a pensar com optimismo que tudo haveria de correr bem. Caroline 
perdoar-lhe-ia, como sempre, e Elsa... Elsa teria simplesmente de gramar. Para um homem como 
Amyas Crale, os problemas da vida so muito simples.

Mas eu penso que, nessa ltima noite, comeou realmente a preocupar-se. Com Caroline, no com Elsa. 
Talvez tenha ido ao seu quarto e ela tenha recusado falar com ele. Seja como for, aps uma noite inquieta, 
chamou-a  parte, depois do pequeno-almoo, e confessou-lhe a verdade. Tinha-se apaixonado por Elsa, 
mas estava tudo acabado. Quando terminasse o quadro, nunca mais a veria.

E foi em resposta a isso que Caroline Crale exclamou, indignada: Tu e as tuas mulheres!. Essa frase, 
compreendem, punha Elsa em p de igualdade

214

com as outras... as outras que j tinham ido  sua vida. E acrescentou, indignada: Um dia destes, mato-
te.

Estava zangada, revoltada com a sua insensibilidade e com a sua crueldade para com a rapariga. Quando 
Philip Blake a viu no vestbulo e a ouviu murmurar entre dentes:  demasiado cruel!, era em Elsa que ela 
estava a pensar.

Quanto a Crale, este saiu da biblioteca, encontrou Elsa com Philip Blake e ordenou-lhe bruscamente que 
descesse ao jardim para posar. O que ele no sabia era que Elsa Greer tinha estado sentada do lado de 
fora da janela da biblioteca e ouvido tudo. E o relato que ela mais tarde fez dessa conversa no foi o 
verdadeiro. No se esqueam de que s existe a sua palavra nessa matria.

Imaginem o choque que deve ter sido para ela ouvir a verdade, dita brutalmente!

Na tarde anterior, Meredith Blake disse-nos que, enquanto esperava que Caroline sasse desta sala, ficou 
 porta de costas voltadas para o interior. Estava a falar com Elsa Greer. O que quer dizer que esta estava 
de frente para ele e que podia ver exactamente, por cima do seu ombro, o que Caroline fazia... e que era a 
nica pessoa que podia faz-lo.

Viu Caroline pegar no veneno. No disse nada, mas o facto veio-lhe  memria, quando estava sentada 
junto da janela da biblioteca.

Quando Amyas Crale saiu, deu a desculpa de que precisava de uma camisola e foi ao quarto de Caroline 
Crale  procura do veneno. As mulheres conhecem os esconderijos provveis das outras mulheres. 
Encontrou-o e, com cuidado para no apagar quaisquer impresses digitais, nem deixar as suas, despejou 
o contedo na pipeta de uma caneta de tinta permanente.

Em seguida, desceu e acompanhou Crale ao jardim da Bateria. E, sem dvida ento, serviu-lhe cerveja e 
ele sorveu-a de um trago, como de costume.

Entretanto, Caroline Crale estava seriamente perturbada. Quando viu Elsa entrar em casa (desta vez para 
ir realmente buscar uma camisola), Caroline dirigiu-se rapidamente ao jardim da Bateria e confrontou o 
marido. O que ele est a fazer  vergonhoso! No est disposta a atur-lo!  terrivelmente cruel e duro para 
com a rapariga! Amyas, irritado com a interrupo, diz que est tudo resolvido... quando acabar o quadro, 
tratar de aviar a

215

rapariga mais as malas! Est tudo resolvido... eu trato de a aviar mais as malas. Acredita.

Ouvem ento os passos dos irmos Blake e Caroline sai, ligeiramente embaraada, murmura qualquer 
coisa acerca de Angela e do colgio, diz que tem muito que fazer, e, por uma associao natural de ideias, 
os dois homens julgam que a conversa que acabaram de ouvir diz respeito a Angela, E Trato de a aviar 
mais as malas torna-se Trato de lhe aviar as malas.

E Elsa, de camisola na mo, desce o trilho, calma e sorridente, e mais uma vez toma a sua pose.

Apostou, sem dvida, no facto de que as suspeitas recairo sobre Caroline e de que o frasco de conina 
ser encontrado no seu quarto. Mas agora Caroline, sem saber, faz completamente o seu jogo. Traz cerveja 
gelada e serve-a ao marido. Amyas bebe-a de um trago, fazendo um esgar e dizendo: Hoje tudo me sabe 
mal.

Entendem a que ponto este comentrio  significativo? Tudo sabe mal? Indica que houve mais qualquer 
coisa antes dessa cerveja que lhe soube mal e cujo travo ainda lhe persiste na boca. E, mais uma coisa, 
Philip Blake refere que Crale estava a cambalear ligeiramente e pergunta-se se ele ter estado a beber. 
Mas esse andar ligeiramente trpego foi o primeiro sinal dos efeitos da conina, o que significa que esta j 
lhe tinha sido administrada algum tempo antes de Caroline lhe levar a garrafa de cerveja gelada.

E assim Elsa Greer sentou-se no muro cinzento e posou e, j que tinha de impedi-lo de suspeitar at ser 
demasiado tarde, conversou com Amyas Crale alegremente e com naturalidade. Nesse momento, avistou 
Meredith no banco em cima, acenou-lhe com a mo e representou o seu papel com mais garra ainda por 
causa dele.

E Amyas Crale, um homem que detestava a doena e recusava admiti-la, pintou obstinadamente at os 
braos o atraioarem e a fala engrossar, e esparramou-se no banco, desamparado, mas ainda lcido.

O sino na casa tocou e Meredith levantou-se do banco para ir ao jardim da Bateria. Penso que, nesse 
breve momento, Elsa saiu do seu lugar e correu  mesa, despejando as ltimas gotas do veneno no copo 
de cerveja que continha essa ltima bebida inofensiva. (Descartou-se do conta-gotas no trilho para a casa... 
pisando-o e reduzindo-o a p.) Em seguida, foi ao encontro de Meredith na entrada.

216

Na sombra, Meredith v um vulto, mas com pouca nitidez... apenas o amigo estendido numa posio 
familiar, tendo visto o seu olhar desviar-se do quadro com o que ele descreveu como um olhar feroz e 
malvolo.

De quanto se apercebeu Amyas ou at que ponto adivinhou? O que soube na sua mente consciente -nos 
impossvel determinar, mas a sua mo e o seu olhar foram esclarecedores.

Hercule Poirot fez um gesto na direco do quadro na parede.

Eu devia ter compreendido, quando vi esse quadro pela primeira vez. Porque  um quadro admirvel.  o 
quadro de uma assassina, pintado pela sua vtima...  o quadro de uma rapariga que assiste  morte do 
seu amante...

217

CAPTULO V

AS REPERCUSSES

No silncio que se seguiu um silncio de horror e consternao, o pr-do-sol desvaneceu-se lentamente e a 
sua ltima radincia tremeluzente abandonou a janela, onde havia pousado sobre a cabea escura e as 
peles claras da mulher a sentada.

Elsa Dittisham mexeu-se e falou:

Leva-os daqui, Meredith. Quero ficar a ss com M. Poirot. Deixou-se ficar ali sentada, imvel, at que a 
porta se fechou atrs de todos, e disse:  muito inteligente, no ? Poirot no respondeu.

Que espera que eu faa? Que confesse? perguntou. Ele abanou a cabea.

Porque no farei nada disso! disse Elsa. E no confessarei coisa nenhuma. O que dissermos aqui um ao 
outro no tem a menor importncia. Porque no passa da sua palavra contra a minha.

Exactamente.

Quero saber o que pensa fazer. Hercule Poirot respondeu:

Farei tudo o que estiver ao meu alcance para induzir as autoridades a concederem a absolvio pstuma de 
Caroline Crale.

Elsa riu e disse: Que absurdo! Ser absolvida por uma coisa que no se fez. E acrescentou: E eu?

Apresentarei as minhas concluses s pessoas relevantes. Se decidirem que existe a possibilidade de 
reunir provas para process-la,  possvel que actuem. Dir-lhe-ei que, na minha opinio, no existem provas 
suficientes... existem apenas dedues e no factos. Alm disso, no se mostraro decerto ansiosas por 
processar algum na sua posio, a no ser que exista ampla justificao para tal procedimento.

219

No estou preocupada disse Elsa. Se fosse levada ao banco dos rus, a lutar pela minha vida... talvez 
houvesse a qualquer coisa... qualquer coisa de vivo... de emocionante.  possvel que... at gostasse.

O seu marido no gostaria. Ela olhou-o fixamente.

Cr que me importo minimamente com o que o meu marido possa sentir?

No, no creio. No creio que alguma vez na sua vida se tenha importado com o que qualquer outra pessoa 
possa sentir. Se tivesse, talvez fosse mais feliz.

Porque tem pena de mim? perguntou bruscamente.

Porque tem muito para aprender, minha filha.

Que tenho eu para aprender?

Todos os sentimentos de uma pessoa adulta... a piedade, a compaixo, a compreenso. As nicas coisas 
que conhece... que alguma vez conheceu... so o amor e o dio.

Eu vi a Caroline pegar na conina disse Elsa. Julguei que tencionava suicidar-se. Isso teria simplificado tudo. 
Mas, depois, na manh seguinte, descobri. Ele disse-lhe que eu no significava nada para ele... que j 
tinha significado, mas que estava acabado. Quando conclusse o quadro, mandava-me de malas aviadas. 
Disse-lhe que ela no tinha motivo para preocupaes. E ela... sentiu pena de mim... Compreende o efeito 
que isso teve em mim? Encontrei o veneno e dei-lho a tomar e fiquei ali sentada a assistir  sua morte. 
Nunca me senti to viva, to exultante, to cheia de poder. Assisti  sua morte...

Estendeu as mos.

No compreendi que estava a matar-me... a mim e no a ele. Mais tarde, vi-a ser apanhada numa cilada... 
o que tambm no serviu de nada. No podia mago-la... ela no queria saber... escapou a tudo... grande 
parte do tempo, ela no estava presente. Ela e Amyas tinham ambos escapado... Partiram juntos para um 
lugar a que eu no tinha acesso. Mas no morreram. Eu, sim, morri.

Elsa Dittisham levantou-se. Encamnhou-se para a porta. E disse novamente:

Morri...

220

No vestbulo, passou por dois jovens cuja vida em comum apenas comeava.

O motorista segurou na porta do carro. Lady Dittisham entrou e o motorista envolveu-lhe os joelhos na 
manta de pele.

OBRAS DE

85 volumes

(romances e contos policiais)

em trs sries:

Poirot

Os livros protagonizados por Poirot foram considerados a Melhor Srie Policial do Sculo XX.

Miss Marple

Outros

Uma coleco indispensvel daquela que foi considerada pela Bouchercon World Mistery Convention como 
a maior escritora policial do Sculo XX.

Hercule Poirot  o personagem mais famoso de Agatha Christie.

A autora pretendia um personagem excntrico, e com Poirot conseguiu-o.

Agente reformado da polcia belga, Poirot tem-se em grande considerao a si e s suas celulazinhas 
cinzentas,  sua personalidade extravagante e pomposa, aos seus modos afectados.

Dotado de caractersticas fsicas to peculiares quanto as mentais, o detective  facilmente identificvel 
atravs da sua cabea oval e do bigodinho invulgar - e sempre irrepreensvel - do qual trata com esmero e, 
quase, reverncia. Desta feita, a sua relao com o crime e a investigao torna-se coerente: longe de 
aderir a mtodos de investigao vulgares, o detective apoia-se no seu raciocnio lgico e no estudo da 
psicologia do criminoso.
